Conhecida por estar sempre em festa, a Terceira abre o calendário anual de celebrações em meados de Abril e a primeira das tradicionais touradas à corda é a 1 de Maio. Depois, é um nunca-mais-parar até meados de Outubro.
Vem isto a propósito de uma velha fotografia a cores que não sei onde encontrei, faz já um certo tempo, e que aqui vos trago: Vitorino Nemésio pelo início dos anos 60, também ele pelos seus 60 anos, a cavalo durante uma tourada à corda na freguesia de Biscoitos, na costa norte da Terceira, a ilha onde nasceu em 1901.
Por não saber de onde veio a foto – que me parece ser pouco conhecida – pelo menos respeitarei a legenda (e a indicação sobre o original) que a acompanha e que aqui reproduzo.
«Ilha Terceira. Tradicional Segunda-feira dos Biscoitos, no início da década de 60 do século passado. Para além da curiosa particularidade desta foto, focando o Prof. Doutor Vitorino Nemésio passando no arraial a cavalo, há a salientar o facto de, naquele tempo, o povo desta ilha usar as suas melhores roupas durante as festas de Verão, inclusive nas tradicionais touradas à corda. Foto da autoria de António Lino Moniz, da colecção de seu sobrinho Pedro Alberto Leal» (o rosto destacado é da iniciativa do autor deste post).
Académico e intelectual açoriano, poeta e romancista, autor do galardoado Mau Tempo no Canal e inesquecível comunicador popularizado pelo seu programa na RTP Se bem me lembro (1969/75), morreu em Lisboa com 77 anos e está sepultado em Coimbra, por vontade própria. Pela mesma vontade, o seu enterro não se fez ao dobre de finados, mas sim ao som do Aleluia. Surpreendente e desconcertante no fim da vida, como ele sempre tinha sido.




Duas boas lembranças que aqui trazes: o “Se bem me lembro”, um dos melhores programas da televisão nacional – deviam retransmiti-lo, a propósito – e as touradas à corda na Terceira, que me divertiram imenso no Verão passado (se bem te lembras). Com tanta brincadeira hoje aqui no Delito, ia deixando escapar esta tua homenagem a um grande açoriano.
Está visto que hoje ninguém quer saber de cultura…
Muito curiosa esta foto em que parece estar bem patente um ‘óptimo tempo no canal’. A extensa série do programa “Se bem me lembro” foi um dos marcos mais expressivos da televisão (ainda a preto e branco)como veículo de cultura, que nesse tempo não escasseavam, ao contrário de hoje. Este homem era um excelente comunicador mas, ao mesmo tempo, era absolutamente desconcertante na maneira absorta e distraída com que encarava as câmaras e expunha as suas ideias.
… E, contudo, depois de dar voltas e de fazer oitos sem-fim, acabava sempre por regressar ao ponto de partida para concluir. Um homem, um comunicador, um pensador invulgar.
(Ainda bem que vieste marcar o ponto. Não haverá mais gente de cultura hoje? Bah!)
“Eu me construo peça a peça,
De saudade, vagar e reflexão.”
Vitorino Nemésio
Algo cada vez mais difícil nestes nossos dias de pressa irreflectida.
Diz muito bem, Sílvia.