Rui Moreira


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(imagem retirada daqui)

 

Há alguns anos fez-se uma sessão do “Trio de Ataque” aqui em Maputo. Não gosto deste tipo de comentário futebolístico, mais que não seja porque cristaliza a ideia anti-concorrencial de que há três clubes (com destinos escrutinados) e o resto é paisagem. Mas a vinda das figuras público-desportivas animou as hostes da bola. Na véspera do programa fez-se um concorrido jantar no restaurante KaMpfumo, à estação dos CFM, na qual depois se veio a realizar o programa. Acorri ao repasto da bola (e até vim a blogar sobre isso). Na época o representante do pérfido Benfica era António Pedro Vasconcelos, que em dia anterior ali mesmo pontificou numa agradabilíssima tertúlia sobre cinema, organizada pela gerência. Uma simpatia, um agrado de pessoa, e com aquela cultura verdadeira que não precisa de se desfraldar. Pelo Sporting, o tal clube da elite (diz-se) vinha Rui Oliveira e Costa que, enfim …, se mostrou tudo menos digno desse estereótipo, para não dizer mais. E pelo malvado Porto chegou Rui Moreira. Um senhor, e basta isso. Que inveja, resmungou este sportinguista, acabrunhado com a “representação” que ali lhe cabia.

 

Foi o único, e breve, contacto que tive com o agora presidente da câmara do Porto (essa cidade que dista menos de Lisboa do que Quissico de Maputo mas que há muitos que continuam a dizê-las basto apartadas, muitos mas de pouco mundo como assim se torna óbvio). Tanto pela boa imagem que então criei de Rui Moreira como pela desejada lufada de ar fresco no claudicante sistema partidário português, torci de longe pela sua vitória. E, também, para que Menezes (ainda que sportinguista) não ganhasse, o que seria um total paradoxo face ao estado do país, um contra-ciclo para o que é necessário – sendo que o simples facto do “edil” (como aqui se diz) de Gaia ter agora sido candidato do PSD ao Porto demonstra que em relação a este partido não há nada a fazer nem esperar. Se fosse coisa, o tal partido, era para o lixo. Como é gente, é aguentá-lo e acantoná-lo, se possível. Pois cheinho de más reses, como o episódio gritou.

 

Ok, Moreira ganhou e gostei. Vai daí e continua a “bolar” sobre a bola. Agora vem com isto, invectivar o presidente do Sporting. Está já a espalhar-se ou ainda não saíu da câmara de descompressão? Não é este o papel, nem o registo, de um presidente da câmara. Ainda para mais de uma cidade como o Porto. E ainda mais de quem acaba de chegar como ele chegou, um pouco por cima do rame-rame que vem minando o país. Bruno de Carvalho já lhe respondeu, de modo rude. Apropriado, pois quem anda à chuva molha-se. Entenda-se, populista é um presidente da câmara a surfar as paixões da bola. Está Moreira a espalhar-se? Está. A ver vamos se ele não é apenas isto. Mas, se calhar, é mesmo só isto. Com alguma “patine” de bom berço. Espero que não.

16 comentários em “Rui Moreira”

  1. Excelente apontamento, meu caro. O “populismo” tem as costas demasiado largas. Se há populismo no Sporting, o que dizer do clube do autarca-comentador onde ainda não há muito milhares de vozes ébrias de emoção gritavam: «Eu só quero ver / Lisboa a arder!»

    1. E um dos males disto é que se o Porto ganhar amanhã o jogo de futebol, o que será perfeitamente normal, tantos irão dizer “o Moreira tem razão”.

        1. Sim, o Porto ganhou, e bem. Bom jogo, boa equipa. O Sporting também jogou bem, até podia ter empatado mas ficou bem assim, foi justo.

          1. É este o registo que é saudável.
            Cada um com a sua cor e a sua identidade.
            Mas assim.
            Irracional, mas civilizado
            E reconheço que o Sporting jogou bem e está a jogar bem o que também já fazia falta.

          2. V. coloca aqui a tecla no ponto central. Isto é irracional, não há razão (no sentido de Razão) alguma para a gente se empolgar nisto de andarem alguns mariolas atrás da bola e a tentar metê-la numa rede longínqua e umas imensidades de outros mariolas (eu, pelos vistos V. e tantos outros) a apoiá-los até à rouquidão, ao júbilo e, mesmo, ao desespero. E nada dessa irrazão (irRazão) é defeito. E qu’a gente pode (e deve, senão isto perde a piada) gozar uns com os outros (“O Moreira tem razão!!”) como diz e outro comentador também. Mas também não precisa de se apedrejar (literalmente e também não só) por causa disso. Infelizmente há muitos que não pensarão assim, o que sempre me espanta num país tão homogéneo como Portugal. E que acham que a identidade clubística é verdadeiramente essencial. Eu sou muito sportinguista, e só espero o “mal” do Benfica e do Porto (ainda que este me seja menos demoníaco do que o anterior). Mas não me passa pela cabeça que isso me aparte dos benfiquistas e dos portistas e outros que tais.
            Cumprimentos, e votos de azar para Belém (ainda que aquele vosso feitiço de ir botar homenagem à estatua do Pepe costume resultar em vitória).

  2. O episódio não é novidade. Vi alguns «Trios de Ataque» e Rui Moreira sempre mostrou um facciosismo acima da razão ou à revelia de uma argumentação aceitável. E terminou a sua actuação, abandonando a cadeira num programa qualquer em que António Pedro Vasconcelos, de resto com educação e elegância, trouxe a colação o «apito Dourado». Rui Moreirra enfureceu-se e abandounou o programa a meio. Não me surpreende verdadeiramente que Rui Moreira regresse a este tipo de atitudes!

    1. Pois, como ponho abaixo uma ligação para um postal meu sobre essa saída de Moreira do programa. mas ainda assim ele era o melhor daquele programa de variedades. E aquele tipo de programas não apela nada ao bom senso dos participantes, diga-se. Em termos racionais são um martírio

  3. Isto cheira-me a falta de “patine” por parte de quem acha que Rui Moreira é só isto.
    Ele é isto, e isto é algo que não existe em muitos. É educado, culto, civilizado, inteligente, mas ao mesmo tempo é gente. Gente que vibra, que se emociona.
    É desta gente que o país precisa. Que a política precisa.
    Mais uma vez esta história gasta de que políticos não devem ter gostos nem cor clubística, já cansa. Isso são os que nos governam…
    Quanto ao tal de Bruno, é bom que seja amansado. Não calado pq tem o direito de falar. Mas pelo menos tentar que não seja boçal

    1. Não estou eu, nem aqui nem nunca a puxar o lustro a hipotética patine própria.
      Quanto a Moreira não pode V. retirar do que escrevi, despatinado, que não pode ter cores e paixões clubísticas. Ou que, como presidente da cidade, não possa torcer pelo sucesso do(s) seu(s) clube(s) representativo(s).
      Mas, e insisto, não é o papel de um presidente da câmara andar a invectivar nos jornais, e ainda por cima nestes termos, os presidentes dos clubes. É do mais elementar bom senso. Até porque nem são homólogos. Pois Moreira ao ser eleito passou a ter responsabilidades institucionais e isso influencia (ou devia fazê-lo) as suas tomadas de posição públicas. Sobre tudo. Não é condenado ao mutismo, bem pelo contrário. Mas a sopesar o que diz e como diz. E, já agora, se quer atacar o populismo tem muito por onde pegar, não lhe chegarão as crónicas semanais. Populismo esse que não está apenas no futebol. Vê-lo-emos nesse caminho.
      V. elogia Moreira. Ok, também aí acima lhe deixei a minha (boa) impressão. Mas talvez seja melhor não arear o pedestal, que se calhar não precisa. Em tempos botei isto, e olhe que não sou nada adepto de Sócrates. Mas permite ver os diferentes pesos e medidas que Moreira agita, pelo menos quando se chega ao futebol. E é pena: http://ma-schamba.com/924248.html

      1. “Vê-lo-emos nesse caminho?” era a pergunta que quis deixar acima
        O velho postal que liguei tem, lido agora, um acinte algo exagerado. Pois de contradições todos somos feitos. Falta-lhe alguma “patine” … Mas isso não apaga o prisma diferente com que Moreira olha para a “bola” (o seu FCPorto) e o resto. Uma pena

      2. Concordo com grande parte, e acho mesmo que não se deve arear o pedestal, pois não me parece que seja coisa necessária.
        E acho mesmo que se deve resguardar mais agora, tentando travar a emoção, pois tem responsabilidades acrescidas.
        Quanto ao assunto do link permita-me discordar, pois tal como o Rui, eu também portista, acho que vivemos num estado de direito e apesar de alguns exemplos tristes ainda continuo a acreditar na justiça.
        A grande diferença entre as duas escutas, é que umas foram escrutinadas, julgadas e consideradas ilegais e como tal não procederem a prova. Ilibando os escutados.
        As outras, e à data das afirmações, eram escutas que nem sequer foram levadas à justiça, e como tal, passíveis das mais variadas interpretações, como a que ele lhes deu e sobre elas pode, Rui Moreira, elaborar e concluir sobre a imagem (e substância?) do primeiro-ministro.
        A justiça existe para à imagem do que significa, condenar ou repor a verdade de acordo com regras e leis devidamente escrutinadas e democraticamente aprovadas.
        Como disse Victor Hugo, “O direito é a justiça e a verdade. O característico do direito é conservar-se perpetuamente puro e belo. O facto, ainda o mais necessário, segundo as aparências, ainda o melhor aceite pelos contemporâneos, se só existe como facto, contendo pouco ou nada de direito, é infalivelmente destinado a tornar-se, com o andar dos tempos, disforme, imundo, talvez até monstruoso”
        As escutas foram julgadas, os escutados ilibados, e como tal não devem repetidamente ser trazidas à baila, pois ao faze-lo e quem o faz, está a desvirtuar o sistema democrático e a por em causa a justiça que é um dos principais pilares das sociedades democráticas e livres.
        Eu na altura interpretei assim a atitude do Rui Moreira. Hoje continuo a pensar o mesmo.
        Uma atitude racional, contrastando com a atitude de quem repetidamente tentava fazer a sua justiça própria, usando os métodos que queria, ignorando sentenças proferidas e repetidas nos vários recursos.

        Um abraço

        1. Bem, concordamos então que ele não esteve no seu melhor dado que agora tem responsabilidades acrescidas, como refere (e, já agora, eleitores e munícipes sportinguistas). Não discordarei do que diz sobre as escutas aludidas no velho postal (até porque não me lembro exactamente dos seus contornos). Mas continuo com a impressão de que aludir às escutas feitas ao pessoal socrático (e a ele próprio) é relativamente incoerente com a recusa da sua consideração no caso futebolístico. Estas tinham sido “arquivadas” sem sumo? Tudo bem. Mas as outras também não constituiram prova. Certo, os políticos são sujeitos a interpretações mas ainda assim haverá alguma disparidade de pesos e medidas.
          Mas o que me parece importante é que Moreira poderá apoiar, como cidadão e como autarca, o seu clube sem esta vertente de guerrilheiro das teclas.
          Cumprimentos, até breve

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