Livros que deixei a meio (14)


Pedro Correia,

 

 

O SOM E A FÚRIA

de William Faulkner

 

Já houve um tempo, vejam lá, em que tive a pretensão de ler obras de todos os galardoados com o Nobel da Literatura. Mesmo os de figuras para mim tão ignotas como Sully Prudhomme (o primeiro contemplado, em 1901), Theodor Mommsen (1902), Bjørnstjerne Bjørnson (1903), Gerhart Hauptmann (1912), Verner von Heidenstam (1916), Karl Adolph Gjellerup (1917), Carl Spitteler (1919), Władysław Reymont (1924), Grazia Deledda (1926), Sigrid Undset (1928), Erik Axel Karlfeldt (1931), Frans Eemil Sillanpää (1939), Johannes Vilhelm Jensen (1944), Shmuel Yosef Agnon (1966), Harry Martinson (1974), Odysséas Elýtis (1979), Jaroslav Seifert (1984), Wisława Szymborska (1996) e Elfriede Jelinek (2004).

Tive de contentar-me com muito menos: li até hoje obras de 28 escritores que receberam o Nobel — incluindo alguns que nunca se aventuraram pelos rumos da ficção literária, como T. S. Eliot, Bertrand Russell e Octavio Paz, e também Winston Churchill, autor de um só romance, intitulado Sevrola, mas distinguido pelo Comité Nobel devido à sua monumental obra como historiador, designadamente da II Guerra Mundial, de que foi um dos mais notáveis protagonistas.

 

Sempre gostei de estatísticas. Pelas minhas contas terei lido 78 livros destes 28 escritores, mais de metade dos quais saídos da pena de oito magníficos: Ernest Hemingway (Nobel de 1954), Albert Camus (1957), John Steinbeck (1962), Alexandre Soljenitsine (1970), Gabriel García Márquez (1982), José Saramago (1998), J. M. Coetzee (2003) e Mario Vargas Llosa (2010).

Entre os norte-americanos, e além dos já mencionados, li obras de Sinclair Lewis (1930), Pearl Buck (1938), William Faulkner (1949) e Saul Bellow (1976). Autores bem diferentes, cada qual representativo de uma época e do imaginário dominante que se lhe encontra associado — o proselitismo missionário protestante em regiões remotas, sobretudo na China, no caso de Pearl Buck; a América do sul profundo, com sólidas raízes rurais, no caso de Faulkner; a América da comunidade judaica, urbana e cosmopolita, no caso de Bellow; as mudanças sociais no interior dos EUA, designadamente entre as duas guerras, no caso de Lewis.

 

 

Dos escritores com maior fama, Faulkner foi o último a que cheguei. Talvez por ser aquele de cuja temática me encontrava mais distante. Ao contrário de muitos dos seus confrades das letras, este patriarca do Mississípi foi essencialmente um homem sedentário, fiel na vida e nos livros à região que o viu nascer. Criou até um condado de nome impronunciável — Yoknapatawpha — para situar várias das suas histórias de uma América que parecia condenada a ficar à margem da História.

Deste Sul profundo nos chegaram, e não por acaso, alguns dos melhores escritores norte-americanos — de Mark Twain a Harper Lee, passando por Tennesse Williams, Carson McCullers, Truman Capote e Flannery O’Connor.

O mais complexo, na forma e no tom, é Faulkner — elogiado com maior fervor pela crítica europeia do que pela norte-americana, por vezes insensível às suas obsessões temáticas, ao seu peculiar regionalismo e sobretudo aos seus exercícios de linguagem, dinamitando convenções literárias.

 

Há escritores para ler no Inverno e há escritores para ler no Verão. Faulkner deve ser lido no Verão, com temperaturas altas e o sol a morder-nos a pele, em sintonia com os extensos cenários rurais dos seus romances, povoados de paisagens por vezes áridas, à semelhança das relações humanas.

Comecei precisamente num Verão a ler aquele que é talvez o mais célebre dos seus romances: O Som e a Fúria, que toma emprestada uma expressão idiomática popularizada por Shakespeare em Macbeth e que o mundo inteiro adoptou. É um romance também para ler no Verão porque exige tempo e disponibilidade física e mental: tem uma estrutura complexa, com a cronologia diluída e as frases das personagens sobrepondo-se como num coro polifónico — uma técnica que Vargas Llosa utilizaria mais tarde, de forma brilhante, no melhor dos seus romances, Conversa n’ A Catedral.

Faulkner exige muito de nós também por isso. Devemos estar atentos à minúcia do idioma — aos sotaques, às imprecisões do discurso oral transpostas para a escrita. É um esforço que compensa: estamos perante um dos monumentos da literatura do século XX.

 

Fui lendo O Som e a Fúria crescentemente fascinado. Confesso que por vezes parava, voltava atrás, relia algo que me parecia não ter ficado suficientemente descodificado.

Como um puzzle a ser construído, peça a peça, esta escrita labiríntica vai-nos iluminando à medida que a desvendamos.

Li cerca de dois terços do livro, pertencente à excelente colecção Ficção Universal, da editora Dom Quixote.

Mas cometi um erro: interrompi a leitura para dar prioridade já nem sei a quê. O Som e a Fúria exige dedicação exclusiva, não é obra para ser partilhada com outros títulos.

Fui castigado: quando pretendi voltar, semanas mais tarde, havia uma espécie de barreira entre mim e este romance do norte-americano distinguido em 1949 com o mais célebre galardão literário (no mesmo ano em que o português Egas Moniz recebeu o seu controverso Nobel da Medicina).

 

Sou forçado a cumprir a penitência: terei de o ler novamente de início, mas desta vez sem interrupções de qualquer espécie.

Enquanto leitor, julgo que será a penitência que cumprirei com maior gosto em toda a minha vida.

 

Imagem do meio: Faulkner na sua casa em Oxford, Mississípi, fotografado por Henri Cartier-Bresson (1947)

18 comentários em “Livros que deixei a meio (14)”

    1. Gosto. Mesmo quando é difícil. Ou sobretudo quando é difícil. Há certos escritores que dão luta – mas uma luta leal e que vale a pena travar. Faulkner é um deles.

  1. Do Faulkner apenas tenho o “Luz em Agosto” daquela colecção dos Nobel do DN.
    Mas o Pedro contou bem os que leu?
    É que eu li 46 autores e acho pouco…
    Na minha estante tenho 84 livros (só do Saramago são 22 e do Gabo 11).
    Como alguns livros que li eram da biblioteca, deverei ter lido mais de 100.
    🙂 Antonieta

    1. Sim, Antonieta, fico-me pelos 28. O Nobel mais antigo que li foi Rudyard Kipling (galardoado em 1907), o mais recente foi Vargas Llosa (em 2010).
      Contabilizo apenas livros completos. Claro que li muitos poemas de escritores “nobelizados” como Yeats, Tagore, Montale e Vicente Aleixandre. E vi peças de Pirandello, Shaw, Pinter e Dario Fo.
      Mas não contabilizo poemas nem peças, apenas livros lidos do princípio ao fim.

      1. O meu mais antigo também foi o Kipling e a mais recente a Alice Munro. Desde o Saramago apenas não li o Tranströmer (só 5 ou 6 poemas) e o Mo Yan.
        Claro que só estou a contar livros completos, caso contrário seriam mais.
        🙂 Antonieta

  2. Curiosamente, tenho o mesmo desafio a longo prazo. Li até ao momento, cerca de 10 prémios Nobel (aos 28 anos ainda tenho muito por ler), sendo que o melhor livro de laureados que li até ao momento foi o “Ensaio Sobre a Cegueira” do Saramago e tenho dois ódios de estimação: o “Por Quem os Sinos Dobram” do Hemingway e o “Já Então a Raposa Era o Caçador” da Herta Müller – ambos leituras dolorosas, por razões diferentes. Há 2 anos que ando a comprar livros de Prémios Nobel (o objectivo é ter 1 de cada) e ainda me falta um longo caminho…

    Ainda não li Faulkner e dele só comprei o “Santuário”, mas “O Som e a Fúria” é um dos próximos livros da minha lista de compras. É sem dúvida um dos que mais curiosidade tenho de ler, por haver uma grande unanimidade quanto à sua dificuldade e qualidade.

    1. No Hemigway o melhor é começar pelos contos. No Faulkner, nada melhor do que começar por esse mesmo: ‘Santuário’. Um romance negro passado no Sul cheio de sol.

      1. Obrigado pelas sugestões Pedro, que vou sem dúvida seguir. O Hemingway é de facto uma pedra no sapato, por ser tão elogiado e a minha experiência com ele ter sido tão má, e queria mesmo ler outras coisas dele para ver se a nossa relação se recompunha. Estava a pensar aguarrar em “O Velho e o Mar”, mas vou então ler antes os contos.

        1. Contos primeiro. ‘Um Gato à Chuva’, ‘Um Lugar Limpo e Bem Iluminado’, ‘As Neves do Kilimanjaro’, ‘Colinas com Elefantes’, ‘A Capital do Mundo’, ‘Acampamento Índio’, ‘Pais e Filhos’, ‘Os Assassinos’, ‘O Grande Rio de Dois Corações’.
          Logo a seguir, ‘O Velho e o Mar’.
          Verá que vale a pena, meu caro João.

  3. Não fiz contabilidades, assumo que já tive essa meta de ler pelo menos um livro de cada um dos laureados com o Nobel, tomei consciência que havia muitos sem Nobel que deveria ler em primeiro lugar.
    O som e a fúria li-o mesmo no último inverno… não precisei do calor, mas teve dedicação exclusiva numa saída de trabalho durante as noites no hotel. Gostei muito, o que não é sinónimo de facilidade, antes pelo contrário, o primeiro capítulo até que percebesse o puzzle custou… depois saboreia-se e se reler sei que será uma nova descoberta.
    Llosa usou uma técnica com algumas semelhanças, mas foi-me mais fácil ler aquelas conversas e fui um dos primeiros Nobel que li, há já muitos anos e nunca mais deixei de ler este escritor, tal como GG Marquez, Mann, Hemingway sem me saturar, o que infelizmente não aconteceu com Saramago, escritor que já tem um livro que deixei a meio: “O ensaio sobre a lucidez”.
    Alice Munro é a escritora que lia e torcia por um dia ganhar um Nobel e aconteceu.
    Há mais Nobel nas obras lidas como Churchill, Bellow, Camus, Laxness, etc. mas já sem ser para alcançar a meta que deixei pelo caminho.

    1. É evidente que não conseguiremos ler todos os Nobel, Carlos. Julgo que vários deles não estão sequer disponíveis em inglês ou castelhano (já para não falar em português) e não são editados há longos anos nos próprios países de origem.
      Não se pode ler tudo. Mesmo que não fizéssemos mais nada.
      O melhor, portanto, é aprofundarmos o conhecimento da obra daqueles escritores de que já gostamos e que nos tocaram muito. Foi o que decidi fazer a partir de certa altura.

      1. Até porque alguns dos galardoados são mesmo uma desilusão…
        Aliás parece-me até que tenho mais escritores favoritos sem Nobel do que com ele.
        E com os filmes e os Óscares passa-se mais ou menos a mesma coisa.
        🙂 Antonieta

          1. Pois. A lista de escritores excepcionais que nunca receberam o Nobel é imensa. De Proust a Marguerite Youcernar, passando por Kafka, Conrad, Zweig, Borges, Malraux e tantos outros.
            Com os Óscares passa-se exactamente o mesmo. Hitchcok, por exemplo, nunca foi galardado com a estatueta de melhor realizador. Tal como Chaplin. E Orson Welles. E Nicholas Ray. E muitos etc.

  4. Não desista!!!
    Pois vale muito terminar esse livro, é gratificante.
    Confesso que voltei várias linhas, e por vezes voltei capitulos inteiros, mas recompensou tudo, Faulkner é sensacional.

    Depois deste li vários livros dele (Absalão, absalão, Os desgarrados, O Intruso, Palmeiras selvagens, Luz em agosto…)

    Abraços de Brasil

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *