![naom_58d4bbe34a088[1].jpg naom_58d4bbe34a088[1].jpg](https://delito.brucke-multimedia.com/images/2017/20477762_ZtZbg.jpeg)
Theresa May pronta a dar lugar a… Theresa May
1
Os actuais conservadores britânicos, indignos discípulos de Winston Churchill, revelam-se especialistas em inventar problemas. David Cameron convocou um referendo europeu, submetendo-se à pressão de franjas políticas e da imprensa tablóide, e levou com o Brexit em cima. Agora Theresa May, dispondo de uma confortável maioria na Câmara dos Comuns, antecipou legislativas confiando nos ventos da fortuna soprados pelas sondagens para negociar com maior dureza a saída do país das instituições europeias. Sai mais fragilizada do escrutínio de ontem.
2
Destas eleições emerge o parlamento mais bipartido deste século, somando os resultados dos dois principais blocos políticos, que em conjunto recolheram 26 milhões de votos. Os conservadores, com mais 5,5% (mas menos 13 deputados) do que nas anteriores legislativas, obtiveram 42,5%; os trabalhistas, progredindo 9,5% (e conseguindo eleger mais 32 parlamentares), alcançaram 40%. Excepto na Escócia e na Irlanda do Norte, o mapa eleitoral britânico está agora praticamente pintado a duas cores: o azul conservador, dominante sobretudo na Inglaterra rural do centro e do sul, e o vermelho trabalhista, revigorado na cintura das duas principais cidades (Londres e Birmingham) e no País de Gales. O UKIP, que os tudólogos de turno há um ano anteviam como força imparável da política britânica, foi varrido do mapa parlamentar.
3
Apesar do fracasso do partido antes liderado por Nigel Farage, o Brexit não foi negado nesta consulta aos britânicos. Isto porque a única força política de dimensão nacional no Reino Unido que advogava sem rodeios um regresso à integração europeia, com a convocação de um novo referendo, era o Partido Liberal Democrata, que registou um ligeiro recuo em percentagem (fica-se pelos 7,4%, perdendo 0,5%) embora tenha feito eleger mais três parlamentares – num total de 650. E o Partido Nacional Escocês, abertamente pró-europeu, recebeu uma severa reprimenda dos eleitores (sai com menos 19 deputados e baixa 1,7% na percentagem global). O que afasta do horizonte a possibilidade de um novo referendo sobre a independência escocesa, já rejeitada nas urnas em 2014.
4
Theresa May exerce funções governativas desde 2010 – primeiro como ministra e desde o ano passado como chefe do Executivo. É compreensível que tenha sofrido um desgaste, acentuado pela ziguezagueante campanha eleitoral que protagonizou, marcada por erros incompreensíveis – a começar pela recusa em debater com o líder trabalhista, Jeremy Corbyn, que a criticou duramente por ter desmobilizado quase 20 mil membros das forças da segurança enquanto tutelou a pasta da Administração Interna. Um facto tornado ainda mais chocante com o atentado de 3 de Junho em Londres, que causou oito mortos já na recta final da campanha.
5
Dito isto, há que não perder de vista os factos. Este resultado eleitoral não pode ser comparado com expectativas nem com sondagens: há que compará-lo com outras eleições. E a verdade é que os conservadores, embora com margem mais estreita e forçados a um acordo pós-eleitoral, venceram estas legislativas. Parlamentos sem maioria absoluta monopartidária e governos de coligação são realidades comuns em toda a Europa. E já também no próprio Reino Unido, onde em 2010 Cameron ficou a 20 lugares da maioria absoluta, vendo-se forçado a formar com os liberais democratas um Executivo que durou cinco anos. Até à vitória eleitoral de 2015, em que os eleitores o premiaram enfim com uma maioria mais ampla, que aliás de pouco lhe serviu.
6
Outro facto: o Partido Trabalhista não vence uma eleição nacional no Reino Unido desde 2005, quando ainda era liderado por Tony Blair. Nestes doze anos de jejum a principal força de oposição britânica já teve três líderes (Gordon Brown, Ed Miliband e Jeremy Corbyn). Todos falharam no decisivo teste eleitoral, incluindo o agora tão incensado Corbyn, que viu o seu partido ficar com menos 56 deputados do que os conservadores. Não seguiu os conselhos de Blair – veterano vencedor de três eleições legislativas – e fez mal. Como se costuma dizer no futebol, o segundo lugar é o primeiro dos últimos.
7
É possível perder nas urnas e vencer nos telediários? Sem a menor dúvida: este escrutínio britânico demonstra bem isso. Desde ontem à noite, vemos desfilar nas pantalhas analistas políticos de diversas cores zurzindo May como “a grande perdedora” das legislativas britânicas, consideradas “um desastre” para os conservadores. Voltamos ao confronto entre expectativas e resultados, que costuma contibuir para a deturpação dos factos.
8
Mas as coisas são o que são e não como gostaríamos que fossem. Afinal Theresa May prepara-se para suceder a Theresa May: ao fim da manhã de hoje foi encarregada pela Rainha de formar governo e dará agora total prioridade a um acordo entre os conservadores e os unionistas da Irlanda do Norte (conservadores também), iminente no momento em que escrevo estas linhas. Juntos, os Tories e o DUP norte-irlandês reúnem 328 assentos parlamentares – mais dois do que o limiar da maioria absoluta. Aliás na prática mais seis, pois os sete eleitos pelo Sinn Fein, também na Irlanda do Norte, por tradição não tomam lugar na Câmara dos Comuns. Esta rapidez de decisão é um exemplo para seguir em Portugal, onde por vezes se demora mais de um mês para iniciar um novo ciclo político. Será assim tão difícil? Aposto que não.

Obrigado pela análise. Sucinta e informativa, dá – me um bom resumo do que foram as eleições britânicas, eu que não vejo televisão, nem leio jornais. Confio no DO e no equilíbrio de Pedro Correia para me manter a par do que se vai passando (não quero tencas, con c de cedilha, maldito telemóvel).
Quanto a seguir os conselhos de Blair, pergunto: Blair não foi o carrasco do Partido Trabalhista?
Alguma coisa Blair saberá. Afinal, depois dele nunca mais o Partido Trabalhista britânico venceu uma eleição nacional.
(agradeço as suas palavras iniciais)
A propósito deste bocadinho do seu texto:
“…Dito isto, há que não perder de vista os factos. Este resultado eleitoral não pode ser comparado com expectativas nem com sondagens: há que compará-lo com outras eleições. E a verdade é que os conservadores, embora com margem mais estreita e forçados a um acordo pós-eleitoral, venceram estas legislativas. …”
Existe contudo outro facto que foi a intenção declarada de Theresa May de aumentar a sua maioria parlamentar pois considerava isso importante para negociar o Brexit. Não se trataram portanto de eleições próximas do final do mandato (a estabilidade será sem dúvida uma qualidade apreciada pelos conservadores e não se devem fazer eleiçãoes a propósito de tudo e de nada) mas de umas eleições convocadas com o propósito específico de aumentar a maioria absoluta já existente. É por ter falhado completamente esse objectivo essencial nestas eleições que é natural dizer que a Theresa May foi derrotada.
Quanto ao Corbyn é também legítimo falar de vitória face à previsão definitiva da opinião publicada de que o partido trabalhista ia desaparecer nestas eleições, continuando afinal a ser a principal alternativa aos conservadores.
Tem razão no que refere, claro. May queria negociar com Bruxelas numa posição mais forte, sai afinal mais fraca deste escrutínio. Saliento isso logo no ponto 1.
Dito isto, do nosso ponto de vista é até preferível que os britânicos estejam mais fracos nessas negociações. E não há drama nenhum em que saia um executivo de coligação destas legislativas. Como sou em princípio contra governos monopartidários, nada tenho a objectar.
Quanto aos trabalhistas, voltamos ao confronto com as expectativas. É verdade que Corbyn superou as sondagens e os vaticínios dos analistas. Mas tem menos 57 deputados do que os Tories – incapaz de formar governo, ao contrário do que chegou a ser aventado ontem à noite. E protagoniza o terceiro fracasso eleitoral consecutivo do Labour em eleições gerais (2010, 2015, 2017). As coisas são o que são.
E não sei porque é que o textos nesta caixa de comentários ficam tão grandes.
Confesso-lhe que também não sei.
Mas são bem-vindos à mesma.
Um excelente resultado para a Europa das nações, sendo mais um tiro certeiro na chalupa que é a UE.
Com este resultado o Brexit torna-se um facto incontornável finalmente, pois os 2 maiores partidos britânicos o assumem sem tibiezas e os pormenores do mesmo, dirão alguns serão ditados pela UE o que é errado pois a UE não existe é apenas um directório de burocratas que se acham acima das Nações europeias amparados no eixo alemão, isto levará em minha opinião a um hard brexit por parte dos britânicos que não estarão para aturar a petulância de burocratas “europeus”.
O Ukip e o seu “líder” estarão vigilantes na “europa bruxelense” e ressurgirão mais fortes que nunca…caso seja necessário.
P.S. – A morte e o caminho para a mesma a pagar imposto só mesmo vindo de falsos conservadores que são verdadeiramente neo-liberais ao mais elevado grau.
Fizeram o funeral ao Corbyn em todas as pantalhas mas numa democracia madura como a inglesa e um povo instruído e que sempre demonstrou estar do lado correcto da história mais uma vez trocou as voltas aos brainwashers de turno.
Elogiar Farage e Corbyn no mesmo comentário é obra. No primeiro caso, comprovadamente, trata-se de um elogio político fúnebre na medida em que o UKIP foi varrido do mapa eleitoral britânico.
Lá está outra vez o Pedro Correia a virar o bico ao prego.
Não elogiei nenhum dos dois no texto anterior mas faço-o agora, Corbyn porque resistiu contra tudo e todos e Nigel Farage porque derrotou os eurocratas bruxelenses no seu território.
Como se comprova, eu tinha razão. Você é um fenómeno do Entroncamento: capaz de elogiar Corbyn e Farage na mesma frase.
Dois derrotados, aliás.
Quando era nova, gostava muito de línguas, português, história, basicamente toda a componente de letras. Os números não me atraíam por aí além, mas eram necessários à média, por isso o meu pai arranjou-me um explicador para matemática e físico-química. O Sr. Paixão , ex oficial do exército, sabia daquilo a potes. Não só sabia muito para si, como tinha o dom de transmitir significados intrincados de forma simples , concisa e natural. Não só quem com ele privava aprendia o necessário a que se tinha proposto, como era desafiado a ir mais longe e a ter brio e gosto em assimilar e descobrir capacidades e conhecimentos que até então ignorava saber.
Não conheci muita gente para quem ensinar fosse uma arte.
É por isso que ler o que o Pedro Correia escreve tanto me apraz.
Excelente está sua análise. Como já foi referido, é sucinta, informativa e objectiva.
Muito me sensibiliza essa comparação que faz com o memorável Sr. Paixão, Dulce. Nome apropriadíssimo para um pedagogo.
Boa análise. Permita-me que acrescente.
Analizando a dinâmica do sistema eleitoral no RU, uninominal, realçaria um aspecto curioso:
A amalgama na insular Irlanda do Norte, supra (quase anti-) partidária DUP (Democratic Unionist Party) com 292.361 votos consegue 10 lugares (assentos).
Imagine-se por cá uma “DUP” com todos os candidatos/partidos da Madeira e dos Açores …
…
O UKIP de N. Farrage, o pai do Brexit, com 593.852 votos tem, melhor, não tem um sequer acento.
…
Tal como nos EUA um “velhinho” convence melhor uma larga faixa do eleitorado jóvem que se queixa do vestuto discurso de May. Será que o pessoal novinho acredita no Pai Natal em política ?.
Sou radicalmente contra o sistema eleitoral britânico, que estrangula as minorias.
Um exemplo: o UKIP, na legislatura anterior, apesar de ter conseguido 12,5% a nível nacional, apenas conseguiu eleger um deputado (em 650).
Não sinto a menor afinidade pelo UKIP, mas acho profundamente errado um sistema eleitoral que exclui assim forças políticas (e eleitores) que merecem representação parlamentar.
Boa análise, que não omitiu o facto crucial de que a votação no partido conservador aumentou substancialmente, pelo que não se pode afirmar que as posições desse partido tenham sido desaprovadas pelo povo, tal como na eleição anterior, em que o partido conservador obteve bem menos votos mas maioria absoluta dos deputados, se afirmou erradamente que esse partido tinha obtido grande adesão popular.