Defendo os professores sempre que posso, pasmo perante a notícia que diz que a Fenprof e a Federação Nacional da Educação planeiam uma greve para o dia 21 de Junho, dia de exame nacional para muitos alunos.
Posso simpatizar com a causa – progressão na carreira, melhores condições – mas não tenho como não considerar esta atitude como um acto de bullying aos alunos. Os anos de exame nacional são difíceis para qualquer estudante. São jovens, preocupam-se, entram em pânico, são pressionados pelos pais e constantemente recordados do exame e da proximidade do mesmo pelos professores. O stress é muito. Gasta-se dinheiro em explicações (quem pode), faz-se pesquisa na internet e descarregam-se textos de exames de anos anteriores. Muitos adolescentes perdem noites, têm pesadelos, distúrbios alimentares, roem as unhas, e por aí fora.
A par disto, os jovens que estão no 10º ano ou a terminar, no 12º, têm ainda uma pressão adicional. É que o mercado de trabalho está mau, as notícias sobre a crise fazem parte da banda sonora das suas curtas vidas deste sempre e há um discurso pessimista que é, parece, inevitável. Depois temos ainda aquela máxima que advoga que é importante ir para a faculdade. Há sempre uma alma que lá debita o cliché destes tempos: sem uma licenciatura não vais a lado algum. E o melhor, acrescenta a mesma alma, é fazeres já mestrado e, mesmo assim, nada está garantido.
Ora, a vivência de tudo isto nos nove meses em que dura o ano lectivo é, no mínimo, motivo de stress, de angústia e de grande dúvida. Muitos são os alunos que não sabem verdadeiramente o que fazer a seguir. Ah, existem os psicotécnicos, dirão. Sobre isso muito haveria a dizer, mas agora não vamos por aí.
Para perturbar mais ainda os alunos que estão no primeiro ano do secundário ou que são pré-universitários, a Fenprof e a Federação Nacional da Educação anunciam que os exames podem ter de ser adiados, os professores vão fazer greve (ou ameaçam apenas para fazer paragonas nos jornais?).
Com todo o respeito pelos professores, a pergunta é: não podiam pensar no que isto causa aos miúdos que estão a preparar-se para ir a exame? Ou não lhes ocorreu? O argumento que esta data chama mais a atenção para os problemas dos professores é, no mínimo, triste. E, se é forma de chantagem perante o Ministério da Educação, diria que não é motivo para prejudicar centenas e centenas de alunos que hoje se perguntam como é que isto vai ficar. Até dia 21 de Junho muita água correrá debaixo da ponte, já se sabe. Para os miúdos será apenas uma greve de nervos.
P.S: Acabo de ler que o governo tem como garantir os serviços mínimos de forma a não prejudicar os exames nacionais de dia 21 de Junho. Vou ali explicar isso a três adolescentes em stress, a ver se ficam melhor.

Tem razão Patrícia! Até eu, um defensor do direito à greve começo a ficar sem argumentos perante estes despropositos. É em dia de exames, vésperas de feriados, etc…
E também me indigna de certa forma este silêncio cúmplice dos Sindicatos quando comparado com a agitaçãono no governo anterior. Não posso com a instrumentalização política dos Sindicatos pois é meio caminho andado para perderem credibilidade e força política. E os Sindicatos são fundamentais na defesa daqueles que trabalham
Excelente exposição.
Vai de encontro a conversa com a minha filha mais velha, que é professora, e que demonstrava absoluta indignação para com o procedimento sindical.
Muito bom. BFS.
Chantagem, disse bem.
Sou professor aposentado.
Fiz greve muito poucas vezes.
Podemos questionar as verdadeiras intenções de uma greve.
Mas questionar as consequências de uma greve é, no limite, questionar o direito à greve.
João de Brito