PS: não saber perder


Pedro Correia,

 

Dois artigos de opinião publicados esta segunda-feira na imprensa diária revelam que os socialistas estão a digerir da pior maneira a pesada derrota eleitoral do partido nas legislativas de domingo. Vale a pena comentá-los, um de maneira sucinta outro com um pouco mais de atenção.

 

I

O primeiro artigo, de Alfredo Barroso, intitula-se “Uma esquerda à deriva” e foi publicado no i. Ao contrário do que o título indica, nele é mínimo o apontar de responsabilidades a José Sócrates no desastroso resultado eleitoral e na calamitosa situação do País: Barroso dispara preferencialmente contra o BE e o PCP por terem contribuído para o “derrube do governo do PS”. Escamoteando que esse facto permitiu apurar nas urnas que os portugueses já não se sentiam representados num Parlamento dominado pelos socialistas. Exactamente como quando Mário Soares decidiu dissolver a Assembleia da República em 1987, escassos dois anos após as anteriores legislativas, abrindo caminho à primeira maioria absoluta do PSD.

Além da questão da substância, há a questão do estilo: o incontido azedume do articulista do i contra o vencedor destas legislativas, seu rival político, é tão óbvio que nem consegue tratá-lo pelo nome: chama-lhe, reparem bem na elegância, “o discípulo do engenheiro Ângelo Correia que nos coube em sorte”.

Um primor de nível, sem dúvida.

 

II

O segundo artigo é de Vital Moreira e saiu no Público, sob o título “O que fica”. Fiel ao seu estilo, o professor de Coimbra faz o balanço da derrota socialista deixando-a afinal por explicar. Porque o cenário que descreve deste finado Portugal de Sócrates assemelha-se muito ao país das maravilhas.

“Se, por causa da crise e dos seus devastadores efeitos, não temos um país mais próspero, temos seguramente um Estado mais eficiente e uma sociedade mais livre e mais decente. (…) O que avulta é o profundo espírito de modernização da sociedade e do País e de valorização do capital humano e material, que inspirou tanto as reformas das relações de família com as políticas sociais (na educação, de saúde e de segurança social), bem como as orientações no campo da economia e das infra-estruturas materiais.”

Desemprego? Nem uma linha. A segunda maior vaga de emigração das últimas oito décadas, que vai afastando os nossos melhores? Nem a menor referência. Responsabilidade directa de José Sócrates no descalabro a que chegámos? Nem por sombras. Sobra apenas um longo panegírico, na linha de tantos outros a que Vital Moreira nos habituou.

Repare-se nestas linhas sobre um cenário virtuoso mas inexistente:

“Nunca se tinha sido tão ambicioso no aprofundamento e na busca de sustentabilidade do Estado Social, na reforma do sistema de pensões, no alargamento e racionalização do SNS, na valorização e qualificação da escola pública, no alargamento do sistema de protecção social, incluindo no combate à pobreza. (…) Decididamente, temos agora uma economia mais apetrechada para a competitividade.”

Com textos como este, jamais o PS analisará e compreenderá os motivos da derrota. Esta complacência perante os erros próprios é, aliás, um dos motivos por que o partido chegou ao lamentável estado em que se encontra.

10 comentários em “PS: não saber perder”

    1. Espero que Vital Moreira, para bem dele, se mantenha muitos anos em Bruxelas para continuar a ignorar olimpicamente os dramáticos problemas que afectam o quotidiano de milhões de portugueses.

  1. é sempre mais fácil olhar para o lado ou varrer o lixo para debaixo do tapete. é apenas uma questão de hábito.

    os criticos internos receberam a pior de todas as despedidas de Sócrates (até pareceu um gajo sério, pouco dado às mentirinhas…). o Manuel Maria então deve ter trepado paredes.:)

    1. Nessa estratégia de “varrer o lixo para debaixo do tapete”, só foi pena que nessa tocante mensagem de despedida Sócrates – uma vez mais – se tenha esquecido dos dois milhões de portugueses em situação de pobreza e dos 900 mil desempregados (200 mil dos quais já não inscritos nos centros de desemprego).

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