Manuel Monteiro
Quando chegou à presidência do CDS, que logo se apressou a baptizar como Partido Popular, não tinha ainda idade mínima para candidatar-se ao Palácio de Belém: com menos de 35 anos ninguém se senta no cadeirão agora ocupado por Aníbal Cavaco Silva.
Olha-se hoje para Manuel Monteiro e conclui-se que o tempo passa mesmo muito depressa. O rapaz magrizela de 29 anos que sucedeu ao histórico Adriano Moreira como dirigente máximo dos democratas-cristãos já é cinquentão e fala com a pose senatorial que criticava nos veteranos de outros tempos.
A política é a arte de bem gerir o tempo. Mas o jovem Monteiro, apressado, não soube aguardar que a locomotiva do poder passasse à sua porta. Se fosse uma pessoa mais paciente, talvez já tivesse chegado a vice-primeiro-ministro num governo de coligação.
Alcançado um prematuro brilharete nas legislativas de 1995, em que viu duplicada a votação do CDS e triplicado o seu grupo parlamentar, este nativo de Carneiro confirmou com pasmo como a observação de Churchill conserva plena actualidade: os adversários estão fora, os inimigos estão dentro.
Eurocéptico antes do tempo, com um discurso anti-Bruxelas uma década antes de se tornar moda, abandonou o partido em que militava desde a adolescência, fundou outro condenado à irrelevância desde o berço e retirou-se enfim para um recatado percurso académico. Aos 53 anos, amadureceu o suficiente para perder muitas ilusões mas é demasiado jovem para escrever as suas memórias, sentado na varanda ou à lareira.
«Quase sempre é preciso um golpe de loucura para se construir um destino», ensinou outro Adriano, revisitado por Marguerite Yourcenar. Nunca os ventos foram tão propícios para a direita soberanista que encontra Manuel Monteiro como um dos arautos em Portugal. Terá o “golpe de loucura” suficiente para correr rumo a Belém?
Prós – Manuel é nome muito presidenciável: já houve três inquilinos em Belém com este nome (Manuel de Arriaga, Manuel Teixeira Gomes e Manuel Gomes da Costa). Permanece um espaço por preencher à direita, que não se revê na actual coligação e poderia ser desviado da abstenção com a sua candidatura. Paulo Portas, irrevogavelmente, não votaria nele.
Contras – A imagem de pós-adolescente a que muitos ainda o associam. O seu errático percurso pós-CDS: a Nova Democracia não tardou a tornar-se velha. Transmite a sensação de que tem hoje pela política uma alergia que nenhum anti-histamínico consegue combater. Paulo Portas, irrevogavelmente, não votaria nele.

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Andou por lá, fez o que entendeu ter a fazer, não teve sucesso na Nova Democracia e foi à sua vidinha, ao contrário de muitos que, anos sem fim, nunca mais nos largam da mão.
Não vai há muito, esteve no programa de Medina Carreira e gostei de o ouvir denunciar muita da podridão que presenciou (cuja, obviamente, não acabou nem sequer se atenuou), assim como as opiniões que foi expandindo (e que não soaram como as cassetes com que casseteiros de todas as proveniências diariamente nos arruinam a paciência).
Presidenciável não digo, mas parece-me que, enquanto há mais que muitos que deitamos pelos olhos, ele merecesse mais uma oportunidade… nem que fosse como comentador mais desalinhado que as vozes do dono costumeiras…
Nem comentador é. Mas podia ser. Continua a ser um mistério, para mim, ver todos os canais de notícias de TV, sem excepção, preferirem políticos no activo fazer comentário. Como se o facto de serem parte interessada em tudo quanto comentam fosse uma mais-valia para os telespectadores.
Mais-valia não é certamente, e o que tem interesse não bate assim… Quando supomos que dispomos de um átomo de paciência para “espetar” os debates na AR com o PM (por exemplo), todos os argumentos que ouvimos já os tínhamos gramado antes e aprendido de cór e salteado. E isto diariamente. A cassetice militante, apanágio dos que sabemos, generalizou-se de uma maneira deplorável. Quando lá se consegue apanhar um António Barreto, é um luxo. (E no resto do tempo, fala-se de futebol).
Cassetice militante, sim. Consegue ser mais fastidiosa, na maior parte das vezes, do que muito do paleio sobre futebol.
E estou de acordo: é um luxo ouvirmos António Barreto.
Eu costumo ouvi-lo no canal Económico,às segundas à noite,em diálogo
com o Raul Vaz.Vou dispensando a fàtinha.
Esse canal não tenho visto. Aliás julgo que nunca o vi.
Estou como o sr. Pedro Correia (e agradeço a dica, fàtinha há muito dispensada também por aqui). No entanto, obviamente que as audiências (e influência) desse canal nem de longe se poderão comparar às da SICnotícias, TVIonline, ou RTPinformação (ordem arbitrária).
TVI24 e não TVIonline, obviamente
Sim, há uma grande diferença de audiências.
https://www.youtube.com/watch?v=HCUqo-zr Zzs
Interessante, sim.
Até que enfim que aparece aqui um protocandidato com uma idade plenamente aceitável. Um tipo em pleno uso das suas faculdades intelectuais, não um indivíduo de um passado irrevogavelmente ultrapassado e semissenil como Manuel Alegre, Mário Soares, Adriano Moreira e outros que já foram referidos nesta série.
Eu não votaria nele mas acho que sim, é perfeitamente presidenciável.
Mário Soares e Adriano Moreira, obviamente, não constam desta série.
Eu sei.
Mas, Pedro, por que não constam? Não estão eles em plena forma, física e mental, para serem excelentes presidentes da república? Tão bons quanto, ou melhores que, aquele italiano que ainda agora deixou de o ser e que tantos aplausos recebeu?
Um dos critérios que adoptei foi não incluir aqui ninguém com mais de 90 anos. Outro, que me parece óbvio, é não incluir monárquicos. Há até quem acumule, como o arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, prestigiado monárquico que na próxima semana festejará 93 saudáveis primaveras.
Republicano que sou, desejo longa vida ao Arq. Ribeiro Telles, por quem tenho infinitamente maior consideração que pela imensa maioria dos cromos da nossa democracia, como os costumo apelidar.
E lamento que ao MPT (de que foi fundador) tenha acontecido o que sabemos. Recordo-me até de, numa fase tão séria como a actual de desencanto com os partidos tanto do arco como de fora do arco ter votado no MPT (não, não foi desta última vez para o PE, desencanto não é o mesmo que admiração por demagogos populistas do mais ordinário).
lamento que ao MPT tenha acontecido o que sabemos
O que aconteceu ao MPT?
Que eu saiba, o MPT existe e está de melhor saúde que nunca: nas últimas eleições legislativas teve o seu melhor resultado de sempre (salvo erro) e não ficou longe de eleger um deputado.
O que aconteceu ao MPT é que foi usado e deitado fora por um azeiteiro demagogo populista ordinário rasteiro e que de futuro será, quando muito, objecto de piedade dos eleitores.
O MPT será objecto de compaixão dos eleitores; quanto ao azeiteiro, ignoro que grau atingirá do não raro êxito que demagogos da pior espécie provocam nos eleitores.
Tenho também imensa consideração pelo arquitecto Ribeiro Telles. E gosto de o saber ainda com tanta energia.
Tal como o dr. António Gentil Martins, com quem ainda há dias me cruzei na rua. Ia em passo bastante mai sligeiro do que o meu. E vai fazer 85 anos.
É bom que especifique quais os seus critérios. Eu (e penso que a generalidade dos leitores) nem sabia que você elaborasse esta lista com critérios fixos.
O critério da idade máxima deveria, na minha modesta opinião, ser consideravelmente apertado. Ou, alternativamente, ser eliminado. De facto, Manoel de Oliveira não estava razoavelmente lúcido aos 100 anos de idade? Eu acho que, se você considera que um presidente de 90 anos de idade faz má figura, também deverá considerar que um de 80 anos de idade também a faz (embora menos), e que um de 70 anos de idade ainda a faz (embora muito menos). Pelo menos, é assim que eu vejo as coisas. E, nas universidades portuguesas, todos os professores se reformam obrigatoriamente aos 70 anos de idade – embora alguns deles ainda estejam com essa idade suficientemente lúcidos para dar aulas.
Jamais me passa pela cabeça que alguém faça “má figura” pelo facto de ter 90 anos. A Rainha Isabel II tem 89 anos e continua a fazer excelente figura, a avaliar pela elevadíssima estima de que goza junto dos seus súbditos. Giorgio Napolitano cessou funções de Presidente italiano em Janeiro, aos 89 anos, e mantém-se como o político mais popular do país.
Entendo, isso sim, que alguém tão provecta idade pode e deve ser poupado às maçadas de uma intensa campanha eleitoral e ao desgaste que provocam as controvérsias políticas. Nada que colida com a sua capacidade intelectual. José-Augusto França, com 92 anos, acaba de publicar um interessantíssimo livro de memórias. Júlio Pomar, com 89 anos, pinta com a qualidade de sempre. O professor Fernando Pádua, um dos nossos mais conceituados cirurgiões, está em excelente forma, nas vésperas de completar 89 anos. E continua a ser um gosto escutar o professor Adriano Moreira, que tem quase 93 anos.
Talvez tenha razão na alergia! Os políticos hoje são tão maus, mas tão maus que os sérios não se conseguem encaixar em parte alguma.
Pelo menos aqui não faltarão escolhas, Fátima. Já vieram 48 e hão-de vir alguns mais.
Caro Pedro Correia
Não me diga que o as 12 caixas de VALLIUM, ainda não fizeram efeito!
Não posso acreditar que ande metido na suruma!
Não tomei Valium nenhum, meu caro. Nem imaginava que MM lhe causasse tanta aversão.
A minha ordem provisória: 1º Henrique Neto, logo depois Manuel Monteiro.
No final da série, eu próprio deixarei aqui também a minha ordem de preferência dos candidatos. Com base nas apreciações feitas pelos leitores.