Postais de um Fotógrafo de Bairro (IX)


Bandeira,

José Bandeira

 

Os ciclistas são gente de fibra, ia brincar e dizer de lycra mas arrependi-me, já não receiam abandonar a parte arranjada do passeio marítimo: arriscam-se à faixa de terreno que liga a estação da Cruz Quebrada à praia do Dafundo, atapetada como está de pregos, cacos de garrafa e toda a espécie de pequenas armadilhas. Um dia chegou-se um ao João e perguntou-lhe se eram “vocês” quem espalhava os pregos e os vidros no chão para depois cobrarem pelo arranjo dos pneus. Perguntou aquilo com ar compincha, parece, mas eu nunca ali vi ninguém que se prestasse a tal serviço e acho que o senhor devia ter tido mais tento no pensar, quanto mais no falar. Uns anos atrás, ao lado dos barcos, havia barracas onde os pescadores guardavam as artes. Depois a autoridade do Porto de Lisboa disse-lhes que aquilo tinha de ir, que a partir daquele momento as construções não poderiam ultrapassar os sessenta centímetros de altura. Se me pergunta, julgo que fosse para que não se vissem da marginal. Duas barracas idênticas são forçosamente diferentes se uma estiver na Carrasqueira e a outra na Linha, todos percebem isso, o rio da minha aldeia não é o Tejo e tal. Os pescadores obedeceram à letra: se não podiam ter nada à superfície, guardariam as suas coisas em profundidade. Não foi provocação, garantem, foi por necessidade que cavaram buracos no chão.

Diz-me o João que às vezes roubam aqui coisas – o mais das vezes ferro para sucata, mas também panelas, louça e talheres que os pescadores, à falta de melhor sítio, escondem dentro dos barcos e retiram nas ocasiões festivas. Ele levanta a pontinha de uma das cobertas para me mostrar o conteúdo – a maior parte das embarcações está bem cuidada, mas a verdade é que já não há quem se afoite a levá-las para o mar – e faz desfilar uma singular colecção de engodos de pesca, segurando-os entre o polegar e o indicador a que um anzol em tempos roubou a ponta. Depois aproxima-se de uma jante de camião que os locais usam para fazer fogo e aponta-a com o cigarro. “Uma vez quiseram roubar isto”, diz com cara de gozo, “mas não foram capazes de o carregar”.

É estranho pensar que a do Dafundo já foi uma das praias mais chiques da costa de Lisboa, talvez mesmo a mais chique, leia Eça e verá. Mas sabe o que dizem: as fotografias – as que têm mais de cem anos, quero dizer – não mentem jamais.

4 comentários em “Postais de um Fotógrafo de Bairro (IX)”

  1. Não tenho comentado, mas quero que saibas que esta tua série é uma delícia. Uma delícia bairrista, como um prato de arroz-doce com o melhor da vida alfacinha desenhado a canela.

  2. Posso confirmar. Apesar de já não ter 100 anos, nem possuir qualquer foto desse tempo, tenho muito presente a imagem da praia de Algés e da praia do Dafundo. A praia de Algés, nos anos 50 possuia 3 estabelecimentos balneares, o primeiro, mais junto à estação da CP possuia bar com esplanada, alugava barraquinhas e toldos de lona, espreguiçadeiras em ripinhas de madeira, colchões e banquinhos, fatos de banho e toalhas. Na borda de água encontravam-se varados vários barcos de madeira, a remos, vulgo “Chatas” com uma haste e uma bandeirinha metálica à proa com a inscrição “aluguer”, nas quais os pescadores ribeirinhos levavam os banhistas a passear.
    Na praia do Dafundo lembro-me de um estabelecimento balneário a funcionar nos mesmos moldes. E em ambas as praias, uma multidão de famílias, muitas delas, levando os seus farneis, autênticos banquetes, constituídos pelo tradicional e aromático arroz de tomate acompanhado de bolinhos de bacalhau, ou de postas de peixe frito, ou o sempre presente arroz de cabidela, ou de coelho, o inseparável garrafão de 5 litros a que por graça alcunhavam de “Kodak”.
    Em Algés, existiu um casino, onde depois foi um liceu e acho que actualmente funciona um serviço camarário ou a junta de freguesia (qualquer coisa assim). Em frente, no actual parque Anjos, existiu a primeira feira popular. Uma espécie de parque temático. No jardim em frente, lembro-me de um café o “Palácio de Cristal” feito em ferro e paineis de vidro multi-coloridos.
    Uma construção ao estilo Gustavo Eiffel, provávelmente contemporâneo com o da Praça da Figueira.
    😉

    1. Não sei o que me impressiona mais, Bartolomeu – se a sua deliciosa descrição do que aquela zona já foi, se a miséria e o desencanto que por ali grassam agora. Abraço

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