Primeira incursão à Feira do Livro de Lisboa, ao princípio da tarde de hoje, ainda antes da sessão de abertura oficial. Vou para espreitar, mas trago de lá algumas compras. A preços módicos, como eu gosto. Excepto uma extravagância – provavelmente a única que este ano ali farei.
Atraiu-me desde logo um álbum da Taschen sobre cinema negro a um preço especial: 6,5 euros. Rapidamente fiquei com ele: acabo de o pôr numa estante cá de casa.
E que mais?
Da Relógio d’Água, trago Paixões Passadas, uma colectânea de prosa jornalística assinada por Javier Marías – talvez o melhor escritor espanhol da actualidade. No pavilhão da Presença, fixo-me noutro grande nome da literatura espanhola contemporânea: Rosa Montero. Também em textos jornalísticos, sob o título Paixões. Ela explica num pequeno texto introdutório: trata-se de uma série inicialmente publicada no suplemento dominical do diário El País “sobre as grandes paixões da história”. Mais um para o saco das compras.
Na Tinta da China encontro dois títulos que constavam da minha lista mental de prioridades, já a pensar nas férias de Junho: Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco, a biografia do saudoso escritor e jornalista lançada em 2012 por Nuno Costa Santos, e Um Gentleman na Ásia, de Somerset Maugham – um dos mais recentes títulos desta editora, de que muito gosto.
De um alfarrabista trago uma novela de Tolstoi que nunca li, A Sonata de Kreutzer, a um preço quase simbólico. Três euros.
E despeço-me enfim deste dia inaugural com a já mencionada extravagância: o grosso volume (483 páginas) de entrevistas dadas por Jorge de Sena entre 1958 e 1978 (ano da sua morte), agora enfim reunidas em livro. Outra obra recém-editada, com a chancela da Guimarães.
Muitas horas de leitura em perspectiva. Livros que ficam como lembrança deste primeiro dia já com calor de Verão.


Tretas
Caiu-lhe mal o jantar?
A Sonata de Kreutzer e um livro fantástico. Fala do amor como nenhum outro que li até hoje. De certeza que vai gostar.
É capaz de ser o primeiro destes que começarei a ler, talvez ainda hoje.
Gostei muito do comentário de José Menezes .
Profundo , inteligente , sensível , digno de um espírito superior .
Vou usá-lo com os meus netos cada vez que peguem num livro .
E vou fingir que é ideia minha , desta vez vou mesmo impressioná-los !
Julgo que apanhou o espírito da coisa, meu caro. E dito em franciú ainda deve soar melhor.
Diz-se “trête” ou “tretáss”?
Trête. Quando reiterada, é retrête.
Pedro, é uma maldade escrever isto quando há gente que pela primeira vez não cumprirá um ritual semelhante ao que descreve… Dito isto, dos que refere li os de Marías, Tolstoi e Assis Pacheco — todos excelentes, sendo que o de Tolstoi é superlativo. Se estivesse por aí, compraria o de Rosa Montero, escritora que muito admiro e aprecio. Aliás, aproveito e deixo-lhe um magnífico texto dela que, creio, vem mesmo a calhar nesta caixa de comentários: iempre-me-ha-dado-pena-la-gente-que-no.h tml)
«Siempre me ha dado pena la gente que no lee, y no ya porque sean más incultos, que sin duda lo son; o porque estén más indefensos y sean menos libres, que también, sino, sobre todo, porque viven muchísimo menos. La gran tragedia de los seres humanos es haber venido al mundo llenos de ansias de vivir y estar condenados a una existencia efímera. Las vidas son siempre mucho más pequeñas que nuestros sueños; incluso la vida del hombre o la mujer más grandes es infinitamente más estrecha que sus deseos. La vida nos aprieta en las axilas, como un traje mal hecho. Por eso necesitamos leer, e ir al teatro o al cine. Necessitamos vivirnos a lo ancho en otras existencias, para compensar la finitud. Y no hay vida virtual más poderosa ni más hipnotizante que la que nos ofrece la literatura.»
(http://thecatscats.blogspot.pt/2011/07/s
Obrigado pela citação que aqui deixou, Carlos. Sou admirador há muito de Rosa Montero, que comecei a ler enquanto colunista do ‘El País’ e prossegui enquanto leitor de livros inesquecíveis, como ‘A Louca da Casa’ e ‘Instruções para Salvar o Mundo’.
Há dois ou três anos, vi-a numa mesa ao lado da minha num restaurante de Lisboa. Sem o menor tique de presunção ou vedetismo, correspondendo exactamente à ideia que fazia dela.
Quanto ao Porto, é totalmente inaceitável a ausência da Feira este ano. A cultura deu lugar ao vruuuum-vruuuuum dos carrinhos a acelerar: isso é qu’induca, isso é qu’instrói…
«A Louca da Casa», é para mim, em termos de ficção, o seu melhor. E gostei muito (e gosto, pois volto a ele inúmeras vezes; até da capa gosto) do livro de ensaios do qual retirei a citação.
Quanto ao Porto, enfim, nada a acrescentar.
O Porto já-fumega…
Por acaso, passei por lá hoje – bom ambiente, bom tempo, mas não achei os preços nada módicos. Muito pelo contrário – salvam-se os caixotes de edições usadas ou danificadas, e os alfarrabistas (e mesmo nesses já fiz melhores negócios).
Vários dos livros de que falo custaram-me entre três e seis euros, João. Mais barato é difícil.