Portas de regresso ao jornalismo


Pedro Correia,

hqdefault.jpg

 

Detesto perder tempo com tudólogos que nada percebem sobre coisa alguma e começam cada frase por «eu acho que»: abundam nas televisões e fujo deles a sete pés. Abomino os trombeteiros do apocalipse que não perdem uma oportunidade para atemorizar e deprimir os compatriotas, reproduzindo em antena os piores rumores que circulam sobre o nosso futuro colectivo: trocam factos por “cenários”, pintados em cores bem negras, convictos de que isto lhes garante gordas “audiências”.

O paleio é imenso, mas as alternativas são mais escassas do que parecem: muitos destes palpiteiros limitam-se a copiar o que outros dizem, numa espécie de confraria do plágio mútuo consentido. Devemos ser criteriosos nas escolhas para nos mantermos realmente bem informados, preservarmos o quociente de inteligência que nos coube em sorte e ampliarmos o prazo de validade da nossa sanidade mental. Isto leva-me, por estes dias, a reservar o direito de admissão em termos ainda mais severos: não é qualquer um que me entra em casa a impingir mercadoria contrafeita.

Daí valorizar tanto as excepções à regra. Destacando, desde logo, as intervenções de Paulo Portas no Jornal das 8 da TVI, agora com uma rubrica intitulada “Estado da Emergência”, que costuma funcionar como remate dos telediários. Vale a pena ouvi-lo: ficamos sempre a aprender alguma coisa com ele a propósito desta pandemia sanitária à escala global que ameaça ter efeitos económicos e sociais devastadores. Com base factual, argumentos serenos e a atitude didáctica de quem procura persuadir pela razão em vez de procurar “transmitir emoções”, como está hoje em voga. 

Percebe-se que há ali investigação séria e pesquisa junto de fontes credíveis a caucionar o que debita em dez minutos diários. No fundo, é um Paulo Portas de regresso ao jornalismo. Mostrando a muitos jornalistas como devem proceder para difundir informação fundamentada e rigorosa.

Parece fácil, mas não é. Fácil é espalhar boatos e semear o alarmismo nas redes sociais, aterrorizando os incautos. A isto temos que dizer basta. E aprender, em definitivo, a separar o trigo do joio, distinguindo informação de lixo. É um acto de elementar higiene cívica.

21 comentários em “Portas de regresso ao jornalismo”

  1. Tipo o moralista de caca Bento Rodrigues e o tanso das contas Jorge Buescu? Insuportáveis. Deviam era levar um par de chapadas no fuço.

    1. sim, é difícil de suportar os telejornais hoje em dia. quando se pede racionalidade máxima dão-nos lições de bom comportamento muitas vezes até contraditórios, reportagens em frente a lares de idosos e música clássica. mais um aspecto a ter em conta para os historiadores do futuro quando analisarem esta distopia em que nos metemos, porventura até o mais importante, se a crise de saúde pública se revelar (como todos esperamos) menos grave do que neste momento aparenta ser.

      quanto a Jorge Buescu, creio que é um caso singular. antes de isto dar para o torto apareceu na televisão a dizer que estava optimista e que o bicho não era tão perigoso, enganou-se e toca de meter dados no excel, qual máquina de fazer chouriços, e sacar daí umas curvas bem perigosas e uns tsunamis que vão engolir médicos.

      o que é engraçado e curioso nesta crise é que no caso português, como todos os defeitos e mais alguns que lhes quisermos encontrar, os líderes políticos, Marcelo, Costa e Rio, surgiram sempre com um discurso calmo e ponderado e, apesar de tudo, actuaram cedo e relativamente bem. agora é esperar que não se transformem em ditadores. veremos se a distopia dura 2 meses ou 20 anos…

  2. Não me admira que Paulo Portas seja um bom jornalista. Admiro-me foi como Paulo Portas, ex jornalista do Independente, chegou a Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal e de seguida a consultor da Mota-Engil para o mercado Sul Americano, incluindo Venezuela e posteriormente a consultor da Pemex, uma petrolífera mexicana .

    Paulo Portas faz parte daquele modelo de político que, usando o Estado enriqueceu . Faz parte daqueles políticos que atestam a mediocridade do do modelo da política portuguesa e explicam a decadência moral de um país.

    https://www.google.com/amp/s/www.cmjornal.pt/exclusivos/amp/paulo-portas-fatura-36-mil-euros-por-mes

    Livro do dia :

    https://www.wook.pt/livro/os-privilegiados-gustavo-sampaio/15057911

    1. Paulo Portas é isso tudo, mas também aprendeu que o populismo de dedinho em riste dá maus resultados a médio longo prazo. está-se a fazer às presidenciais daqui por 6 anos e o resto é o trabalho de casa que os chicos espertos normalmente negligenciam, mas que os homens inteligentes, como ele e Marcelo, sabem que é essencial. pesquisa, boa aparência, linguagem redonda, ponderação, cultivar boas amizades, etc.

    2. Enriqueceu? Pensava que já vinha de uma família abastada — daquelas que não precisam do Estado para nada a não ser para manter tudo na mesma.

          1. Exacto. Quando estivermos a precisamente 2 horas e 12 minutos do fim do mundo (diziam que era em cuecas mas afinal é de roupão), começo a ver o filme!

    3. Então e os submarinos ?

      No resto, ele quase sempre comenta ou faz jornalismo de notícias/gráficos/etc. já publicados no estrangeiro. Assim também eu.

  3. Não precisamos ser muito inteligentes para compreendermos que Paulo Portas se prepara intensamente para o seu “simples” tempo de antena diário. Prefiro o jornalista ao político. Mas julgo que ele prepara o campo político através do jornalismo sério.
    Não interessa, aquilo de que precisamos agora é dele tal qual se apresenta. Dá um baile a muito comentador

  4. Para combater este clima depressivo provocado pela pandemia do Covid19, penso que devíamos procurar um mecenas que esteja disponível para financiar o trabalho de um informático competente, para este conceber um “vírus bom”, vírus que, no momento em surgem nas TV os telejornais tremendistas (ou outros programas que seguem a mesma linha), aparecesse um boneco num canto dos écrans exibindo um cartaz com os dizeres: “pela sua saúde mude de canal”.
    No meu entender esta ideia (se concretizada) constituiria um autêntico e proveitoso serviço público.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *