Pontaria ao andar de baixo


Pedro Correia,

 

«No meu país não acontece nada.»

Ruy Belo

 

Ao 18.º dia decorrido desde a tragédia de Pedrógão, nem uma demissão nas estruturas sob a tutela do malogrado ministério da Administração Interna – a que podemos chamar ministério da Desorganização Interna, enredado em passa-culpas de soma zero. Nada de novo: regressámos à rotina pasmacenta neste quente mês de Julho.

Ao menos no ministério da Defesa, sem ter ocorrido um só óbito, já houve exonerações: cinco oficiais situados em patamares médios da cadeia de comando foram removidos “para não interferirem nas averiguações” em curso – espantosa justificação que vale para o  assalto aos paióis de Tancos mas não se aplica aos inquéritos que decorrem para apurar causas e culpas na catástrofe de Pedrógão. Perante a maior pilhagem de armamento de guerra confiado à guarda do Estado em Portugal, os altíssimos comandos castrenses permanecem nos seus postos, reconfigurando a noção de ética militar. Imitam afinal o criativo conceito de “responsabilidade” garbosamente assumido pelo ministro da tutela: em perfeita sintonia, todos fazem pontaria ao andar de baixo. Enquanto aguardam que o País vá tranquilamente a banhos.

Como escreveu Ruy Belo, “a boca é p’ra comer e p’ra trazer fechada / o único caminho é direito ao sol”.

25 comentários em “Pontaria ao andar de baixo”

  1. Enoja-me o que sucedeu nas últimas semanas em Portugal. Enoja-me um PM que faz pouco dos que governa, não abdicando das pomposas férias, mesmo com o que de gravíssimo se passou em Portugal. Pensará que regressado nos atira para a boca uns rebuçados de indicadores económicos e a malta esquece

    Portugal pelo que dizem saiu da Crise. Mas vejo que estamos numa bem pior, de que se calhar nunca saímos. A falência do Estado.

    Somos a anedota da Europa. Há pouco tempo tivemos um gordo espião que se enfrascava com prostitutas de Leste, viciado em jogo, que passou informações à Rússia.
    Depois morreram 64 pessoas e a culpa era apontada a uma trovoada/ fenomenos imprevisíveis, não se sustentando tal tese por decerto haver pessoas, naqueles bandos, menos desarvegonhados .

    Agora Tancos e o material roubado. Parece que as patrulhas não se faziam há 24 horas e os ditos paióis são vistos através do Google maps. A prineira justificação foi a rede estar danificada – há por aqui um padrão de mediocridade . Atribuiem- se culpa a coisas (ou aos mortos).
    Como se quem lá foi roubar dependesse, para ser bem sucedido, da integridade de uma rede de arame. Isto é mau demais.

    Portugal não é um país. É um bacio. Portugal não tem direito a hino. Apenas ao lamento.

    Falta ainda essa coisa do SIRESP/BPN/GES/PT da qual António Costa é também responsável, como anterior MAI.

    Esse Azeredo não foi da ERC? Deve saber tanto da paióis como eu de lagares de azeite…sempre os mesmos a mamarem…entreguem Portugal à REMAX.

    1. Pedrógão e Tancos.
      Sem esquecer a fraude nos exames que ficou impune, com o beneplácito do ministro da Educação:
      http://www.cmjornal.pt/sociedade/detalhe/ministerio-publico-investiga-fuga-de-informacao-sobre-exame-de-portugues
      http://observador.pt/2017/06/28/ministro-da-educacao-garante-que-exame-de-portugues-do-12-o-ano-nao-vai-ser-anulado/
      E os drones que ameaçam a todo o momento originar uma tragédia nos céus de Lisboa – também impunemente até agora:
      http://expresso.sapo.pt/sociedade/2017-06-26-Aviao-cruza-se-com-drone-em-Lisboa.-E-o-setimo-incidente-este-mes

      1. Tem razão, mais essa!! A fuga só pode ter saído do Ministério…epá, Pedro, pare lá com isso, senão corto os pulsos…prometa-me que no seu próximo post vai abordar o tamanho ideal dos seios femininos…já sei que vamos ter o Lavoura a chatear, e a Inês Pedrosa indignada, mas tanto se me dá! Aguento…

        E desculpe as falhas na ortografia, mas ora tenho um olho aqui, ora o olhar noutro lado…

      2. O Pedro Correia é muito bom a dizer mal do governo, o que é muito fácil quando não se tem que apresentar soluções.
        Ora, eu gostaria de perguntar ao Pedro Correia que soluções tem a sugerir para o problema dos drones e dos exames?
        Em relação aos drones, eu não percebo nada da matéria, mas creio já ter lido que é altamente não trivial identificar um drone no espaço e ainda menos trivial abatê-lo…
        Sobre os exames, acha o Pedro que o ministério deveria ter cancelado aquele exame e marcado um outro? Ou quê?

        1. “O Pedro Correia é muito bom a dizer mal do governo, o que é muito fácil quando não se tem que apresentar soluções”

          Para apresentar soluções politicas temos os políticos e os partidos. Para as/os avaliar temos os cidadãos.

          Sobre drones:

          O Bloqueador de Drones é um Sistema de contra-medida Eletrónica.

          Sobre os exames parece-me óbvio que os alunos não o fizeram em pé de igualdade. Portanto deveriam ser anulados

          Em:
          http://fiquelinda.com.br/seios-no-tamanho-ideal/

          1. Anular os exames causaria imenso prejuízo a imensas famílias. Teriam que ser marcados exames novos. Implicaria contratar pessoal para mais horas extraordinárias. E imensas outras complicações. É uma coisa a evitar a todo o custo.
            É verdade que houve fraude. Mas pode-se presumir com segurança que poucos alunos terão beneficiado dela. (Poucos terão tido acesso prévio ao conhecimento do que iria sair nos exames.) Parece-me péssima ideia anular os exames por uma minoria ter cometido fraude.

          2. Não os anular causará maior prejuízo ao maior número de famílias cujos filhos não tiveram acesso à desdita informação. Quanto a contratar pessoal, o Buda do Chiado sempre pode tirar proveito de uma diminuição na taxa de desemprego.

            Quanto às fraudes serem cometidas por uma minoria é natural, ou deixariam de haver fraudes – existe uma qualquer lei em biologia que fala disso.

          3. Violações grosseiras do princípio da legalidade e do direito à igualdade, avalizadas pelo ministro da (des)Educação. É caso para nos questionarmos que cidadãos está este ministro a formar.

  2. Caro Pedro,
    apesar das nossas visões muitas vezes discordantes, creio que já o disse, gosto de ler, e por vezes comentar, os textos que escreve.
    Confesso, por isso, que estava na expectativa sobre o que o Pedro iria escrever, no passado dia 1 de Julho.
    Qual o propósito?
    Não, não é por ser o aniversário do clube que ambos somos simpatizantes – ou será doentes?
    Mas por ser um dos poucos dias que nós, Portugal, nos podemos orgulhar: fomos pioneiros a nível mundial no domínio dos valores da dignidade do ser humano – o dia em que foi, neste país, abolida a pena de morte:
    Não ter encontrado, neste espaço, nenhum texto sobre essa efeméride e ver textos que mostram uma visão, do nosso ramerrame, quezilento, que este país se tornou, foi uma decepção.
    Creio, porém, que se tratou somente de um infeliz esquecimento e por isso, ainda que retrospectivamente, convido o Pedro a escrever sobre esse tema.

    Fazendo um contraponto à frase abre este seu texto «No meu país não acontece nada» de Ruy Belo. Nesse dia, 1 de Julho de 1867 o que aconteceu neste país, aconteceu à escala planetária.

    Victor Hugo, em carta publicada no Diário de Notícias de 10 de Julho de 1867, disse:
    “Está, pois, a pena de morte abolida nesse nobre Portugal, pequeno povo que tem uma grande História. Penhora-me a recordação da honra que me cabe nessa vitória ilustre. Humilde operário do progresso, cada novo passo que ele avança me faz pulsar o coração. Este é sublime. Abolir a morte legal, deixando à morte divina todo o seu direito todo o seu mistério, é um progresso augusto entre todos. Felicito o vosso parlamento, os vossos pensadores, os vossos escritores e os vossos filósofos! Felicito a vossa nação. Portugal dá o exemplo à Europa. Desfruta de antemão essa imensa glória. A Europa imitará Portugal. Morte à morte! Guerra à guerra! Ódio ao ódio. Viva a vida! A liberdade é uma cidade imensa, da qual todos somos cidadãos. Aperto-vos a mão como a meu compatriota na humanidade”.

    1. Tem toda a razão, caro António. Todos devemos orgulhar-nos dessa data ilustre, contributo civilizacional português para o mapa dos direitos universais.
      150 anos depois, lamentavelmente, a pena de morte ainda vigora em muitos países. Desde logo nos três maiores países do globo – Rússia, EUA e China. Este é um combate que todos devemos continuar a travar. Um combate sem tréguas.

      E já que falo em Victor Hugo, uma das minhas frases preferidas é precisamente dele. Esta: «Sou daqueles que não hesitarão nunca em escolher entre essa virgem chamada consciência e essa velha prostituta chamada razão de Estado.»

      Abraço leonino

      P. S. – Se puder, indique-me o seu endereço electrónico para lhe enviar um convite.

      1. Aboliu-se a escravatura e depois massacraram-se tribos em Africa, em nome da civilização…havia que tirar o preto da sua selvajaria ao som do chicote…pare lá com isso…é tudo mau demais.

    2. Partidário da pacificação pela força das armas, António Enes é nomeado Comissário Régio a 9 de Outubro de 1895 e promete à rainha D. Amélia de Orleães, na audiência real que lhe foi concedida à despedida, trazer preso aos pés de Sua Majestade o famoso tirano (Ngungunhane ) da África do Sul. O espírito com que abraça a missão é claro nas declarações que então faz:

      O Estado não deve ter o menor escrúpulo em obrigar e, se necessário for, forçar esses rudes negros da África, esses ignorantes párias, esses semi-idiotas selvagens da Oceânia a trabalhar.

      O jornal O Liberal de 27 de Dezembro de 1908, escreveria sobre Mahune e Queto, os fuzilados de Chaimite:

      Morreram heróica e corajosamente e, ao caírem fuzilados, a cada um por sua vez foi-se a eles o tenente de artilharia Aníbal Miranda e espetou-lhes uma espada no coração, praticando assim em frente aos soldados sevícias sobre moribundos indefesos, facto que constitui grave infracção das leis da guerra, punível com a pena de morte pelas leis militares

      O Diário de Notícias do dia seguinte escreve: Quando entramos nos alojamentos, do navio Africa, estavam todos os pretos deitados e o Gungunhana, que ocupava uma extremidade da tarimba, tinha o rosto coberto. Alguém lhe descobriu a cara e o preto despertou, olhando para todos com olhos desconfiados. Pouco depois, como os jornalistas e outras pessoas admitidas a bordo eram cada vez em maior número e o espaço faltasse, foi ordenado que subisse a pretalhada para a tolda, onde se faria a sua exibição…

      AntónioF pare também lá com isso….parece que toda a gente me quer ver doente!!!Não mereço…caneco

      V, ajude-me!! Triclibano venha em meu auxilio!!

  3. Serviços mínimos: O Sr. Ministro tinha obrigação em primeiro lugar, depois de comunicar ao PR, chamar os militares atingidos para pedir explicações. Em vez disso, feito guerrilheiro sem trilho, desbarata munições a praticar tiro instintivo sobre fantasmas que lhe agitam o lençol com que ele próprio cobre a cabeça.

      1. O PR é um palhaço…e aquela relação que tem com Rita Cabral , cheira-me a disfarce!!…aliás disfarce habitual nos que tremem perante santinhos e velinhas

        1. Ó Eomborcador trazer para este diálogo a vida íntima do PR é de muito mau gosto e surpreende-me que se ache normal que o faça.
          A relação afectiva entre o PR a Dra Rita Cabral, de uma enorme discrição, é assunto que só aos dois diz respeito e nós temos a obrigação de respeitar isso e não levantar suspeitas pouco dignas acerca de qualquer deles. Gostaria que lhe fizessem isso a si? Ou a um familiar chegado?
          Possivelmente o Emborcador prefere o Monsieur Hollande e as suas namoradas, a viverem no no Eliseu, pagas com o dinheiro dos contribuintes…

  4. Ouçam
    E o vento mudou
    Ele não voltou
    As aves partiram
    As folhas caíram
    Ele quis viver
    E o mundo correr
    Prometeu voltar
    Se o vento mudar
    E o vento mudou
    E ele não voltou
    Sei que ele mentiu
    P’ra sempre fugiu
    Vento por favor
    Leva o seu rancor
    Ninguém vai morrer
    Por não mais o ter
    E não tenham dó
    Que eu não estou só
    Batam-lhe ao taipal
    Oiça bem ou mal
    Nuvens não choraram
    E quando voltaram
    Soube que mentira
    P’ra sempre fugira
    Nuvens por favor
    Não tenham qualquer dor
    Eu não vou morrer
    Por não mais o ter
    Calem-se

  5. Pedir transparência nas decisões tomadas, não é pedir a anorexia do governo. Pedir responsabilidades não é pedir exposição de POCs na praça pública. Pedir justiça não é pedir que exponham todos os esquizofrénicos com a síndrome da perseguição.
    Apenas pedimos a verdade. A verdade é algo indefinido, de que nunca conheceremos a décima parte e que presentenente associamos à síndrome de Tourette : tiques, toques, truques e palavras absurdas.
    Um excelente texto, Pedro, como habitualmente.

    1. Obrigado, Dulce. Confesso que é com alguma relutância que regresso à escrita política: prefiro bem mais escrever sobre outros temas.
      Mas 64 mortos em Pedrógão fizeram-me voltar. A revolta perante a falta de autoridade do Estado, incapaz de garantir a segurança mais elementar dos cidadãos, falou mais alto. E acho inconcebível que a ministra Constança de Sousa e o ministro Azeredo Lopes ainda estejam em funções.

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