Jornalismo ZEN.


Luís Menezes Leitão,

Confesso que não tenho paciência nenhuma para assistir a políticos travestidos de comentadores. O comentário pressupõe distanciamento sobre o que se comenta, o que alguém envolvido no combate político manifestamente não tem. Mas em Portugal entrou na moda os políticos com ar mais senatorial vestirem o fato de comentadores. Foi assim sucessivamente com Marcelo Rebelo de Sousa, António Vitorino, José Sócrates, Marques Mendes, Santana Lopes e Francisco Louçã. Claro que os mesmos pretendem convencer-nos de que a sua carreira política terminou, e que por isso estão à vontade para comentar, mas tal é completamente falso. Marcelo Rebelo de Sousa construiu laboriosamente a sua campanha presidencial na televisão e José Sócrates, se o tivessem deixado, também o teria feito.

 

Mas o que me choca mais não são esses espaços de verdadeira propaganda política, que as televisões permitem, e que já se sabe que esses políticos aproveitarão no seu próprio interesse. O que me preocupa é a figura do jornalista ali presente que, ou faz de ponto, ou assiste passivamente a autênticas manipulações sem fazer a mínima correcção ou esclarecimento ou sequer uma simples pergunta. Com a honrosa excepção de José Rodrigues dos Santos, que muita polémica deu, os jornalistas alinham pacificamente nestas verdadeiras operações de propaganda.

 

Vem isto a propósito do momento ZEN de Francisco Louçã, em que ele resolveu comparar as questões de Assunção Cristas no parlamento sobre o combate aos fogos com declarações anteriores da mesma de que, como pessoa de fé, aguardaria pela chuva. O problema é que essas declarações de Assunção Cristas, proferidas em 21 de Fevereiro de 2012, eram relativas à seca e não aos fogos, que não se verificam no pico do Inverno. Quem referiu que a chuva poderia combater os fogos foi Catarina Martins, mas sobre ela obviamente que Louçã não abre a boca.

 

Não me espanta nada que Louçã use o seu espaço televisivo para operações de manipulação, uma vez que nunca esperei dele outra coisa. O que me espanta é que esteja uma jornalista presente a permitir esta operação sem um único comentário ou questão ao entrevistado. É com este tipo de jornalismo ZEN que a comunicação social vai perdendo credibilidade.

12 comentários em “Jornalismo ZEN.”

  1. Uma vergonha, decerto! Mas também existem politicos travestidos de jornalistas. E quando assim é, que dizer, senão morder o lábio?

  2. Jornalistas feitos cronometristas com elevado e degradante grau nas conversas Judite/Marcelo. Escola permanentemente reciclada.

  3. Lindo é a Catarina Martins a falar para multidões do BE com tanto direito de antena como António Costa ou mesmo o Presidente Marcelo.

    Até parece que fala com o à vontade tanto de fogos, furto de armas, abortos, adopções ou uniões.

    Mas as televisões e quem lá está é que sabem!

  4. Desde que vi, depois do debate entre Mário Soares e Cavaco Silva para as presidenciais, João Soares como um dos comentadores (dizia ele, para mostrar a sua isenção, “o dr. Mário Soares” – talvez pela mesma razão se tenha abstido de chamar “o gajo” a Cavaco Silva), deixei de dar qualquer crédito às cabeças falantes que aparecem na televisão.

    Honra lhe seja feita: Ricardo Costa, num “Expresso da Meia-Noite”, ao anunciar as autárquicas de Lisboa como tema da semana seguinte (nas quais o irmão era candidato), disse que não estaria a moderar essa emissão “por razões óbvias”. Não sei se é sério – mas pelo menos tentou parecê-lo.

  5. Eu continuo a pensar que Louçã é um dos poucos economistas, refiro-me naturalmente aos que têm vindo a aparecer, em Portugal com talento e conhecimento para antecipar resultados com bastante lucidez.
    Porém a matéria política, no caso vertente, na sua generalidade, é de teor meramente especulativo. E isto é assim, e continuará a ser assim, na medida em que a sociedade é maioritariamente composta por seguidores. O indivíduo não tem vindo a ser preparado ou educado a ser líder de si mesmo; e porque acontece assim, é natural que os comentadores se aproveitem desta fraca exigência individual e colectiva para debitar frases panfletárias.

    Comentei aqui que era necessário, nos locais mais críticos, criar um sistema de prevenção comprometido, tal como criar pontos de captação de águas da chuva, e sensores de temperatura dispersos pelo terreno, para que se humidificassem os solos no sentido de se evitar incêndios quer por ignição espontânea quer por ignição criminosa.
    Sobre Pedrógão temos uma outra leitura da tragédia:
    https://sol.sapo.pt/artigo/570564

    Continuo a pensar, ao contrário do roubo de armamento em Tancos, que não há motivos para demissões de quem quer que seja. Sugiro que se faça a leitura correcta das situações e ao invés de responder com quantidade de meios se responda com qualidade na prevenção, agindo sempre por antecipação.

    Quanto aos comentadores televisivos ou televisionados, é chão que dará pouca uva no futuro. Os comentadores agora são os bloguistas. É aqui que se tem vindo a revelar a existência de alguma reserva de pensamento que supera o status vigente.

    Se as pessoas quiserem ler o futuro, olhem para o exemplo de Trump que não só venceu as eleições americanas como também varreu toda a media estabelecida. E o homem continua a twitar. Usando sempre frases curtas e lapidares.

    Creio que o Luís foi buscar outros exemplos para poder atingir Louçã mais confortavelmente. Estou errado?

  6. “Confesso que não tenho paciência nenhuma para assistir a políticos travestidos de comentadores.”
    Acredito que sim… o que não serve para demonstrar a infalibilidade, a superioridade, ou seja lá o for, dos “comentadores” travestidos de políticos em detrimento dos “políticos travestidos de comentadores.”. É apenas um “acho”… e tem todo o direito a isso o que, apesar de tudo, é muito pouco, para quem quer “comentar” sobre assuntos políticos!

    “O comentário pressupõe distanciamento sobre o que se comenta, o que alguém envolvido no combate político manifestamente não tem.”
    Se for o “distanciamento” que V. tem manifestado aqui (http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/user/syntagma) a “coisa” fica explicada… basta recuar um pouco mais de dois anos para perceber isso: “Passos Coelho pode orgulhar-se de ter dirigido o governo que conseguiu levar a bom porto o país, depois da situação mais complexa que qualquer governo teve em Portugal desde 1975, em grande parte por culpa do governo anterior. Como primeiro-ministro, revelou-se especialmente em dois momentos extremamente difíceis. O primeiro foi em Julho de 2013, quando segurou o governo, perante a demissão irrevogável do seu parceiro de coligação, Paulo Portas, evitando que a coligação se desfizesse, como sucedeu à AD em 1982 quando Freitas do Amaral tembém decidiu abandonar o barco. O segundo foi em Julho de 2014, quando recusou envolver o dinheiro dos contribuintes no colapso do BES, não repetindo assim o que Sócrates tinha feito com o BPN. Passos Coelho apresenta a seu crédito ter conseguido evitar novos resgates e ter colocado o país novamente a crescer.” (http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/?skip=150&user=syntagma) já para não falar de tudo mais…

    “Claro que os mesmos pretendem convencer-nos de que a sua carreira política terminou, e que por isso estão à vontade para comentar, mas tal é completamente falso.”
    Claro, eu até o percebo: “eles” julgam que nos convencem que deixaram de ser cidadãos e passaram a eremitas – Marcelo Rebelo de Sousa (judas iscariot!) é o exemplo mais flagrante a apontar (quando e onde é que MRS tentou “convencer-nos de que a sua carreira política terminou, e que por isso est(aria) à vontade para comentar” fica por explicar) ou algo mais elaborado como “José Sócrates, se o tivessem deixado, também o teria feito”?

  7. “Claro que os mesmos pretendem convencer-nos de que a sua carreira política terminou, e que por isso estão à vontade para comentar, mas tal é completamente falso.”
    Claro, eu até o percebo: “eles” julgam que nos convencem que deixaram de ser cidadãos e passaram a eremitas – Marcelo Rebelo de Sousa (judas iscariot!) é o exemplo mais flagrante a apontar (quando e onde é que MRS tentou “convencer-nos de que a sua carreira política terminou, e que por isso est(aria) à vontade para comentar” fica por explicar) ou algo mais elaborado como “José Sócrates, se o tivessem deixado, também o teria feito”?

    “Com a honrosa excepção de José Rodrigues dos Santos, que muita polémica deu, os jornalistas alinham pacificamente nestas verdadeiras operações de propaganda.”
    E que “honrosa excepção” o JRS demonstrou para com os que propagavam que não havia alternativa à NAA (“não há alternativa à austeridade”), à islamofobia disfarçada de pseudo-“interpretações históricas” e ao “branqueamento” do fascismo em Portugal? Deu polémica? Claro que deu – era isso que ele pretendia… ou V. acha que ele é moralmente superior ao MRS? Os seus “objectivos” é que são diferentes!

    “Vem isto a propósito do momento ZEN de Francisco Louçã, em que ele resolveu comparar as questões de Assunção Cristas no parlamento sobre o combate aos fogos com declarações anteriores da mesma de que, como pessoa de fé, aguardaria pela chuva. O problema é que essas declarações de Assunção Cristas, proferidas em 21 de Fevereiro de 2012, eram relativas à seca e não aos fogos, que não se verificam no pico do Inverno.”
    Admira-me que alguém que é capaz de “interpretar” as declarações de Assunção Cristas, “como pessoa de fé”, não tenha conseguido compreender as de FL, “como pessoa de ironia” no “momento ZEN”: tenho a certeza de que ele não só sabia o que V. “descobriu” (que elas “eram relativas à seca e não aos fogos”) como conseguiu reduzir esse discurso da AC a uma espécie que tem muito mais a ver com o da esperança na intervenção divina, para a seca ou para o fogo, que, se eu não consigo contrariar em qualquer , não consigo descobrir validade no mesmo. O “post” de Catarina Martins no Twitter https://twitter.com/catarina_mart/status/876721327578783744) só pode ser entendido, por quem queira que se queira manifestar como “comentador travestidos de político” e tendo em consideração o historial do BE nessa matéria, como uma ironia – os BEs, pelo que julgo saber, não são muito dados a posições “de fé”! Nem nas intervenções divinas, nem nas da mãe “divina” natureza!

  8. “Não me espanta nada que Louçã use o seu espaço televisivo para operações de manipulação, uma vez que nunca esperei dele outra coisa.”
    “operações de manipulação”? De quê? De políticos declaradamente comprometidos com uma causa como sempre foi o FL? De tentar enganar quem não, politicamente, o conhecia? V. começa a portar-se como o mais perverso do que todos os perversos “políticos travestidos de comentadores.” – FL só “manipula” quem já é “manipulado” ou, admito, quem está aberto a ser “manipulado” pelo BE… enfim, nada mais, nada menos, do que poderia dizer acerca da sua ladainha.

    “O que me espanta é que esteja uma jornalista presente a permitir esta operação sem um único comentário ou questão ao entrevistado. É com este tipo de jornalismo ZEN que a comunicação social vai perdendo credibilidade.”
    É surpreendente como ainda o “espanta” que “uma jornalista” aceite pacificamente todos os discursos que nada têm a ver com os que lhe caiem no goto perante um panorama em que, no Ocidente, o jornalismo apenas reproduz o discurso oficial dos partidos e da classe dirigente: FL é apenas o foguete que mantém a aparência de, nos média oficiais, haver uma constante festa democrática. A “credibilidade” da comunicação social perdeu-se, precisamente, com sugestões, interpretações, posições em que manobras políticas – muito mais evidentes do que a dos políticos! – se manifestaram e impuseram absolutamente!

  9. Eu de facto assisto frequentemente aos debates de carácter político (mas não tenho carreira política). Considero a política um dos aspectos mais importantes e interessantes da vida. Mas também penso que há demasiados comentadores que são políticos (e fingem não o ser) pelo que ás vezes me parece que não estou a ouvir um comentador mas sim estou a assistir ao tempo de antena em que um sujeito está, disfarçadamente, a fazer propaganda dos seus pontos de vista. Neste caso tenho de aguçar mais a minha atenção para distinguir o que é mera auto propaganda do que não é. Chega a ser mais estimulante do ponto de vista intelectual. Mas concordo que devia haver mais comentadores que não fossem políticos profissionais.
    Quanto ao papel do jornalista tenho duvidas de que deva intervir com a sua opinião. Quando assisto a estes programas interessa-me a opinião do entrevistado, não do entrevistador. Jornalistas que falam demais aborrecem-me porque a respectiva opinião não interessa.

  10. Cá por mim, concordando ou não, sempre considerei F. Louçã um homem de grande cultura e inteligência. Um homem invejável pela sua capacidade … por isso desperta tanta inveja aos candidatos a intelectuais.

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