Convidado: JOSÉ CARLOS PEREIRA


Pedro Correia,

 

Porto turbulento

 

Rui Moreira apresentou no sábado a sua recandidatura à Câmara Municipal do Porto. É um mero formalismo, pois o autarca portuense há muito que assumira esse propósito.

Rui Moreira foi eleito em 2013 por um movimento que teve a sua base na burguesia liberal da cidade, nos homens de negócios endinheirados da Foz e de Nevogilde, o meio de onde é oriundo o próprio autarca. A isso juntou o apoio mais ou menos discreto de Rui Rio, seu antecessor, tendo beneficiado, ainda, do facto de grande parte da cidade se ter mobilizado para travar a candidatura populista de Luís Filipe Menezes (PSD), que tinha deixado em Gaia um rasto de despesismo, endividamento e alguma leviandade.

A vitória de Rui Moreira, contudo, não foi suficiente para governar em maioria, pelo que o novel presidente teve de procurar quem lhe desse a mão. Manuel Pizarro (PS), que ficara em segundo lugar nas eleições, decidiu viabilizar essa aliança, contra muitas vozes no interior do seu partido, que já então se interrogavam sobre a situação em que ficaria o PS nas eleições de 2017. A aliança entre o PS e o movimento de Rui Moreira encontrou pontos de vista comuns e os socialistas acabaram a assumir dois pelouros determinantes para a cidade, habitação social e urbanismo, nas mãos de Manuel Pizarro e do prestigiado Arq. Correia Fernandes.

 

Tudo parecia um mar de rosas na relação entre Pizarro e Moreira, de tal modo que o PS, talvez inebriado pelo exercício do poder, precipitou-se no apoio à recandidatura de Rui Moreira, sem qualquer negociação prévia de políticas e de lugares na vereação. Estava visto que as coisas só poderiam acabar mal, como por várias vezes antecipei.

Rui Moreira, aliás, está longe de ser inquestionável e unânime – o processo Selminho, que envolve uma empresa imobiliária do presidente e da sua família, aí está a fazer o seu caminho, os tiques persecutórios em relação à imprensa fazem lembrar os piores tempos de Rui Rio, a obra pública teima em ver a luz do dia, a proliferação de jobs for the boys é evidente na Câmara e nas empresas municipais (com lugares de destaque entregues a pessoas que vão do número dois e putativo sucessor de Valentim Loureiro em Gondomar até quadros com elevadas responsabilidades na gestão de Menezes em Gaia…) – pelo que nunca compreendi o cheque em branco que o PS passava a Rui Moreira. Só para garantir alguns lugares à mesa da vereação?

 

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Depois de declarado o apoio, de cada vez que o PS se referia à recandidatura de Moreira ou algum responsável do partido reivindicava uma participação forte nas listas, como seria natural face aos resultados de 2013, logo surgia uma personagem secundária do movimento presidencialista a dizer “alto e pára o baile”. Como escrevi em determinada altura, o PS parecia “estar prisioneiro do caminho que seguiu e completamente nas mãos de Rui Moreira e dos seus primeiros apoiantes, que olham de soslaio para tudo o que seja socialista”.

Na verdade, Rui Moreira e o seu movimento inorgânico deitaram mão de argumentos serôdios para romper a aliança com o PS. No fundo, creio eu, foi o que sempre pretenderam, depois de manietarem Manuel Pizarro e de diminuírem as possibilidades de êxito do PS.

O vereador socialista e presidente da Federação Distrital do PS deslumbrou-se e foi ingénuo na forma como deixou que o PS fosse capturado pelos interesses de Rui Moreira. A sua posição como candidato é agora demasiado frágil para poder almejar a vitória. Resta saber como reagirá, no futuro, no caso de Rui Moreira voltar a ganhar sem maioria, como prevejo.

 

E o PSD? Perante a dificuldade de encontrar um candidato forte para disputar umas eleições consideradas perdidas à partida, avança com Álvaro Almeida, um universitário desconhecido do grande público e antigo responsável pela Entidade Reguladora da Saúde, que se limitará a procurar reunir os votos do eleitorado mais fiel ao partido. O apoio público que Rui Rio lhe concedeu vale pouco se traduzido em votos.

Nos sectores mais à esquerda, a CDU apresenta a experiente Ilda Figueiredo, que não terá dificuldade em renovar um lugar no executivo municipal, e o Bloco de Esquerda viu-se obrigado, por razões de saúde, a trocar o ex-líder João Semedo pelo repetente João Teixeira Lopes. Com este triste desenlace, o Bloco viu-se privado de um candidato que estaria em condições privilegiadas para alcançar o primeiro mandato do Bloco na Câmara Municipal e os portuenses perderam a possibilidade de contar com um excelente vereador.

 

 

José Carlos Pereira

(blogue INCURSÕES)

10 comentários em “Convidado: JOSÉ CARLOS PEREIRA”

  1. pelo que nunca compreendi o cheque em branco que o PS passava a Rui Moreira. Só para garantir alguns lugares à mesa da vereação?

    Talvez sirva aquela máxima de não sei quem “Keep your friends close—your enemies closer”. Assim é mais fácil dar golpadas ou, como se diz na gíria, “abraços à antónio costa”

  2. Bem-vindo novamente ao DELITO, José Carlos. Com esta interessantíssima “incursão” pelos bastidores autárquicos do Porto, a que convém prestar cada vez mais atenção. Um abraço.

  3. Bom dia, José Carlos!

    Para entender melhor o seu artigo gostaria de saber a sua simpatia politica.
    O que critica, no seu artigo, a Rui Moreira, subtilmente também no excerto: “Rui Moreira foi eleito em 2013 por um movimento que teve a sua base na burguesia liberal da cidade, nos homens de negócios endinheirados da Foz e de Nevogilde, o meio de onde é oriundo o próprio autarca”, pode ser assacado a qualquer candidato de qualquer cidade e de qualquer partido.

    Quanto ao processo Selminho, os terrenos já pertenciam à família antes de Rui Moreira chegar à Câmara. Por este andar só os desempregados, os desalojados e os despojados podem candidatar-se a Edil.

    Se Rui Moreira tem feito obra, na cidade do Porto? Só se for subterrânea, que eu até hoje não vi nada. A dinamização da cidade tem sido feita por agentes privados

    1. As minhas simpatias residem na esquerda democrática. Não sou inscrito em partido nenhum, mas é por aí que costumo alinhar. O que escrevi é compreendido por quem conhecer bem o Porto e as suas idiossincrasias. O tecido social burguês da Foz ou de Nevogilde está muito distante da socialista Campanhã. Quanto à Selminho, a verdade é que a generalidade dos portuenses desconhecia estas incursões imobiliárias de Rui Moreira e o diferendo que essa sua empresa mantinha com a Câmara de que se tornou presidente. Também concordo que a obra de Rui Moreira está por conhecer.

  4. Cá pra mim, diz-me a experiência que a maioria dos JOBS devem ser PS. De cada vez são 100.000. E assim o desemprego baixa sempre.Caras novas por todos os serviços públicos por onde passo é mato.Só os cegos não vêem.

    1. “Caras novas por todos os serviços públicos por onde passo é mato” Como? Não queria que o desemprego baixasse??

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