Politologuês


Pedro Correia,

As tribunas televisivas são tomadas, à vez, por revoadas profissionais. Houve o tempo dos sociólogos, que pareciam ocupar mais tempo de antena do que a Júlia Pinheiro. Seguiu-se a fase dos psicólogos – acompanhados pela subespécie dos pedopsicólogos – em antena até à náusea. Quando também estes passaram de moda, avançaram os economistas: um batalhão quotidiano na pantalha, cada qual revelando as receitas mais infalíveis para salvar a pátria. Vários deles, curiosamente, ocuparam a pasta das Finanças sem porem em prática as tais receitas milagrosas no exercício de tão relevantes funções. Paciência: ninguém é perfeito.

Agora chegou a vez dos politólogos: todas as semanas é revelado ao País um novo talento televisivo nesta área. Acabo de escutar mais um, que não conhecia de parte nenhuma, pronunciando-se vigorosamente contra as medidas “assistencialistas” contidas no Plano de Emergência Social anunciado pelo ministro da Solidariedade. “Era importante que não houvesse assistencialismo. Estas medidas não seriam necessárias se houvesse crescimento económico”, proclama o politólogo, com vigor.

Impossível discordar dele: “se houvesse crescimento económico” – isto é, se a anémica economia portuguesa funcionasse ao ritmo da alemã, ou mesmo da canadiana, já para não falar da turca – as medidas “assistencialistas” seriam dispensáveis. Infelizmente, num país com dois milhões de pobres e pelo menos 700 mil desempregados, com as finanças públicas em situação de pré-ruptura, como acorrer de outro modo às situações mais prementes de exclusão, miséria e fome?

Basta termos mais “crescimento económico”, proclama o politólogo recém-estreado nas lides mediáticas. A resolução dos problemas parece sempre tão fácil nuns quantos minutos de protagonismo televisivo. Em último recurso, poder-se-ia sempre anexar Portugal ao Brasil, como recentemente referia o Financial Times, numa rara manifestação de ironia. Se há país que tem registado um espectacular crescimento económico, é precisamente o Brasil. O que não inviabilizou frequentes e emblemáticas medidas “assistencialistas” tomadas pelo presidente Lula da Silva. Um disparate, concluiria o nosso politólogo, sem dúvida metódica alguma.

Enquanto o escuto, vou-me interrogando sobre que espécie de país seria este sob um governo dos campeões da teoria política. E vem-me à memória, sei lá porquê, aquele diálogo d’ Os Maias entre Carlos da Maia e João da Ega quando o primeiro, visitando a casa do segundo, descobre nesse local – sem disfarçar a surpresa – um busto do odiado imperador Bonaparte: “Para que tens tu aqui Napoleão, John?”, questiona. Resposta pronta do anfitrião: “Como alvo de injúrias. Exercito-me sobre ele a falar dos tiranos…”

8 comentários em “Politologuês”

  1. É espantoso com tanto social desde há 30 anos e sempre a aumentar o país já não esteja na senda do grande progresso…
    Mistérios do Social.
    Em França no passado em Inglaterra hoje está~se bem a ver o resultados do Social…

    Quanto a Lula. O Brasil cresce apesar dele não por causa dele, e ainda assim vai dar um trambolhão porque estão no cimo de uma bolha.

    No fim acaba quando acabar o dinheiro dos outros ou quando se forem embora.

    1. Portugal, em recessão há vários trimestres, só pode olhar com inveja para o Brasil, hoje com um crescimento superior a 7%. Mas isso não invalida que Lula – e agora Dilma – tenham posto em prática políticas de carácter “assistencialista”. Curiosamente, alguns que as criticam cá aplaudem as de lá.

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