Poderes de Centeno


Luís Naves,

Alguns comentadores descobriram agora que Mário Centeno é o homem mais poderoso do país, sendo o único político que não pode ser demitido e que não se pode demitir, pois em qualquer desses dois cenários Portugal ficaria sem a presidência do Eurogrupo. Esta circunstância permite ao ministro das finanças aplicar finalmente a receita financeira que o PSD de Passos Coelho defendeu, ou seja, atacar de forma mais agressiva a dívida pública, o que é uma mera questão de bom-senso perante os problemas que o Pais terá inevitavelmente de enfrentar quando subirem as taxas de juro. Enquanto o PS faz aquilo que durante anos jurou ser um erro, o PSD (em vez de elogiar a mudança) começou a defender tudo o que criticou durante os últimos seis anos: já não gosta dos cortes na despesa do Estado e pede aumentos na função pública. Rui Rio mostra que é um simples táctico, fala como um socialista do tempo da bancarrota e renega o passado do seu partido, dando a entender que tudo o que se fez durante a crise foi embaraçoso. Na realidade, as políticas que o PSD defendeu em matéria financeira são finalmente as que estão a ser aplicadas pelo PS, mas o novo bloco central que se desenha é uma pantomina efémera, onde os sociais-democratas não têm influência e onde a esquerda, que devia partilhar o lado confortável do poder, será forçada a engolir sapos até 2019. Isto não tem grande futuro, claro, como se verá mais à frente, mas Centeno será o político mais poderoso do país até ao fim de 2019.

13 comentários em “Poderes de Centeno”

  1. Assino por baixo. Gente que navega à vista não tem futuro e nós que dependemos do que eles decidem fazer, também não.

  2. O que Rio percebeu é que se pode aumentar a receita fiscal aumentado a despesa pública, via impostos indiretos. E assim o pessoal ilude-se que pelos aumentos de salários e pensões a austeridade finalmente ficou para trás independentemente do mês, cada ano, acabar mais cedo.

    Truque de Ilusionista….

    Por muitas cativações e calibrações enquanto a divida não chegar aos 60% basta um espirro lá fora para irmos de cama.

  3. Centeno será o político mais poderoso do país até ao fim de 2019

    Centeno não é um político. Ele é um técnico, que nunca fez política e até já demonstrou não ter especial jeito para ela.

    1. ..ainda bem que faz tal precisão! Ufa!

      Eu estava verdadeiramente atemorizado, “sconvolto”, com a parte “mais poderoso” – pensava que se de facto lusó-“poderosos” politicos se calibravam usando como “benchmark'” tão “poucochinha” figura […parafraseando o outro habilidoso…] ainda ficavamos mais tramados do que habitualmente..
      Ou sera que se calhar já estamos…. 8-(??

      Jorg

  4. Mário Centeno é o único político que não pode ser demitido e que não se pode demitir, pois em qualquer desses dois cenários Portugal ficaria sem a presidência do Eurogrupo

    Isso não é muito grave (aliás: não é absolutamente nada grave), ficar sem a presidência do Eurogrupo. Centeno pode perfeitamente ser demitido. Portugal nada ganha em que o presidente do Eurogrupo seja o ministro das Finanças português.

  5. Tenho preconceito básico contra gente com todos os poderes. E, pelo caminho que leva, Centeno está todinho dentro da categoria. E pensávamos nós que nos tínhamos livrado do sufoco.

  6. No fundo Rio está a seguir a mesma tática que Passos seguiu em 2010.

    Depois de lá estar marimba-se nas afirmações que fez e segue em frente.

    Talvez tenha sorte, o outro teve.

  7. E os que criticaram Gaspar batem palmas a Centeno. Curiosamente Gaspar fez o que o governo PS assinou, e nem tudo, e Centeno foi muito mais longe por iniciativa própria. A outra diferença, que diz mundos sobre este país, é que ainda ninguém cuspiu em Centeno no hipermercado.

  8. O PSD vive com o trauma de não ter sabido evitar a asfixia que produziu e também não ter conseguido, por essa via, atingir as metas a que se propunha. Claro está, é sabido, que a um longo período de retracção sobrevém sempre uma taxa de crescimento que se julga impressionante. Porém sobejariam os “cacos” para contabilizar. Os períodos latino-americanos da intervenção do FMI mostraram exactamente isto.

    Na vertente em apreço, as reversões mostraram estímulo à economia, pois há mais dinheiro disponível. Porém, com a política de cativações e o baixo investimento público, os aumentos e/ou reversões, acabam por ser comidos pela inflacção.
    O que certamente acontecerá em 2019, caso esta política prossiga, será o início do cair da inflacção, por via da redução do consumo, e a necessidade de se acautelar para 2020 mais défice primário para tentar sustentar a dívida.
    Resumindo, isso que o Luís aceita como bom será uma ruína.
    Ou Bruxelas aceita uma renegociação da dívida ou deverá oferecer mais estímulos ao investimento público.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *