Imaginemos então a seguinte situação. A final do campeonato do mundo joga-se entre o BES (Betinhos do Espírito Santo) e a SONAE (Sólida Organização Nortenha de Actividades Empresariais).
Estão em jogo mais de mil milhões de euros. O jogo é fundamental. O Presidente do BES sabe. E não quer arriscar um milímetro.
Para o BES, perder a partida significaria expor um conjunto de fragilidades internas. Há salários em atraso, activos do plantel sobrevalorizados, aquisições falhadas, esquemas tácticos muito duvidosos.
Antes do jogo, o clima de tensão cresce. Há adeptos indecisos. Uns apoiam a SONAE. Outros apoiam o BES. De um lado e de outro há quem vá mudando de opinião. Ainda faltam umas semanas para a partida decisiva.
O Presidente do BES sabe. Com todas as fragilidades, talvez seja possível ganhar o jogo. Mas o Presidente do BES sabe. E não quer arriscar um milímetro. Decide avançar com uma sondagem junto do árbitro. Estará disponível para ser corrompido?
O árbitro está disponível. O esquema de corrupção avança. Uma soma avultada faz o seu caminho percorrendo várias offshores até à conta de um primo do árbitro que, por sua vez, a fará chegar a um amigo do árbitro.
Chega o grande dia. O BES tem o jogo controlado. Defesa sólida, ataque agressivo. Tudo corre bem. O BES marca dois golos. Nada a temer. Lá mais para o final do jogo, o árbitro cumpre a sua parte. Vai marcando faltas a meio-campo para pôr gelo no jogo.
Se fosse preciso, o árbitro marcaria um penalti inexistente. Mas não é. Está tudo controlado até ao apito final.
Uns anos depois, a situação está em investigação pelas autoridades judiciais. O árbitro, o Presidente do BES e alguns intermediários afirmam que a tese da corrupção não faz sentido porque, afinal de contas, o árbitro nem teve de influenciar o jogo.
Na bancada, alguns comentadores conhecidos pela sua inteligência e clarividência, acenam a cabeça em concordância e afirmam que este é um belo argumento.
Ao mesmo tempo, estes comentadores, que não consideram a tese da corrupção credível (muito fraquinha, pá, o árbitro nem teve de fazer nada), admitem como plausível que o amigo do árbitro lhe empreste um milhão de euros, em numerário, na sequência de dezenas de conversas em código.
Como diria o próprio árbitro, porreiro, pá!

Vi primeiro no Twitter…
Yep. Este foi escrito originalmente lá 🙂
Antigamente na bancada gritava-se “… fóróááárbrito…”. Bons tempos.
+ 1a vez ****** (6).
E o público presente à jogatana, ceguinho de todo, não se apercebe da roubalheira que se está a passar mesmo à frente dos respectivos narizes…
O árbitro não precisou de marcar um pénalti inexistente porque um dos fiscais-de-linha (Armando Vara, então na CGD) tratou de inventar foras-de-jogo.