Penso rápido (50)


Pedro Correia,

Os políticos que se habituam demasiado tempo a pronunciar-se sem contraditório (e há vários, e de várias cores) passam a assumir uma pose grave e senatorial, própria de quem nunca se molha e de quem se habitua a vencer sem nunca verdadeiramente ir a jogo.
Só forma, sem conteúdo. Mas é quanto basta para granjear aplausos fascinados da nata lisboeta, sempre pronta a colar mais um cromo na vasta caderneta de senadores do regime.

A propósito, muitos comentadores falam na necessidade de “renovação” da política esquecendo que a renovação terá de passar também por eles. Fazem parte do sistema, alimentam-se da pequena intriga alfacinha. Alguns estão há 20 anos ou até mais a fazer comentário político. São parte interessadíssima naquilo que comentam. E responsáveis, em larga medida, pela fuga sistemática de leitores e espectadores das páginas de jornalismo político e dos debates políticos na televisão.

10 comentários em “Penso rápido (50)”

    1. Eis um comentário verdadeiramente luminoso e clarificador. E eu que andava convencido de que por aqui até acontecia haver contraditório (e de que maneira, pensava eu; sem dúvida afundado numa ignorantíssima ilusão). Pensava até que se procurava por aqui, e se conseguia – não graças a mim, entenda, mas a quem aqui muito prezo ler, mesmo discordando -, ir bem além da forma. Veja você que, uma ou outra vez, me ocorreu mesmo ler por aqui qualquer coisa e dar comigo a pensar “a nata lisboeta, se acaso passa por aqui, não vai gostar disto”.

      Mas não me tome por excessivamente ingénuo, peço-lhe, a “nata lisboeta” (e não só), bem sei, andará afinal, seja como for, bem entretidinha a sacar descaradamente o seu, borrifando-se de alto para o que aqui se escreva. Mesmo que o leia. Ou, talvez mais provável, mande um atento e venerador assessor ler.

      Cheguei mesmo a estar convicto de que quem por aqui escreve não seria necessariamente parte interessadíssima naquilo que comentava (não que eu veja nisso necessariamente um mal, podendo antes ser algo perfeitamente natural, lícito; como em quase tudo é uma questão de bom senso, fundamento, proporção e vergonha, de decência enfim), mas antes um seu espectador interessado. E, como a generalidade de todos nós, quero crer, que por aqui andamos a ler e ocasionalmente a comentar – destinatário final (vítima, verdadeiramente) mas não beneficiário do que comentava.

      Aí sim, por isso, em derradeira instância e apenas nessa medida, “parte interessada”. Mas um “interesse” que se dispensaria de bom grado, quero crer.

      Nem imaginava que por aqui, nesta dimensão de blogue, neste concreto blogue, se alimentasse a pequena intriga alfacinha (no que essa designação consagradamente encerra). E que nesta dimensão e neste concreto blogue se produzisse uma fuga sistemática de leitores e espectadores do jornalismo e do debate político. Haveria sim uma alternativa (cá está, uma forma de contraditório), uma outra leitura do que esse debate e jornalismo generosamente nos servem em geralmente monótona e incessante cornucópia.

      Felizmente surgiu este seu comentário.

      Costa

  1. Este Luis lavoura é outro dos insolentes comentadores…
    ….
    Parabéns por este contundente e certeiro post.

  2. Excelente e oportuno artigo, num blogue onde só não vê o contraditório quem não quer ver, pois por noma por aqui muitas opiniões contrárias vão sendo igualmente respeitadas e expostos, tanto como posts, como com comentários.

  3. Pedro, quando os escuto e leio nunca me passa pela cabeça que eles queiram dizer renovação. Antes vejo neles a ideia da restauração. Aliás, não fosse este o conceito das últimas governações!

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