Regresso aos tempos em que lia três livros alternadamente. Com o prazer de sempre, mesmo perante obras consideradas menores. Incluo neste prazer algo muito específico: a releitura. Há livros que nos tocam de maneiras diferentes, consoante a época em que os lemos. Pensei nisto há dias, ao chegar novamente ao fim de um livro que me fascinou pela terceira vez. Como tenho há muito o hábito de assinalar nos próprios exemplares a data em que concluí a leitura, fui lembrar as duas anteriores inscrições: 31 de Maio de 1983 e 16 de Setembro de 2004. Lá deixei mais uma data: 11 de Setembro de 2014.
Os livros têm este dom: são fonte permanente de recordações. E devolvem-nos até memórias de factos, pessoas e lugares que a eles ficarão perpetuamente associados.
Prestes a terminar, este foi para mim um Verão de várias e estimulantes leituras, feitas sobretudo de reencontros com autores de que muito gosto: William Faulkner, Jack London, Ray Bradbury, Georges Simenon, José Cardoso Pires, Joseph Roth, Rubem Fonseca, Ernest Hemingway, Joseph Conrad, Erich Maria Remarque, Graham Greene. Dezasseis obras em três meses.
Lembro-me de ouvir um professor que tive aos 18 anos, na universidade, perguntar aos alunos num anfiteatro: “Os senhores leram muito? Espero bem que sim, pois a partir de agora lerão muito menos. Eu li o essencial dos livros que me formaram até aos 18 anos.”
Penso pela enésima vez nesta frase que guardei na memória, tomando-a na altura pelo seu valor facial, e não posso deixar de sorrir perante a falta de capacidade de previsão daquele catedrático, pelo menos na parte que me toca.
A vida também é isto: sabermos desarrumar os ficheiros em que nos querem incluir os mais velhos e alegadamente mais sábios naqueles anos em que todas as páginas de quase todos os livros permanecem por abrir para cada um de nós.

Nestas férias li seis livros e reli um sétimo. Leitura leve para um período que se quer descansado. Cumpri aquilo a que me propus e agradou-me muitíssimo.
Khaled Hosseini transportou-me para uma realidade turva. Gostei bastante.
Vou começar com o último volume da Trilogia O Século. É em todos os aspectos, bem mais pesado. :):):)
Se há algo que me entristece, é a minha reconhecida incapacidade de conseguir passar o testemunho. A minha prole vai lendo, não lê… É está a tragédia de se ter a beleza da palavra escrita ao alcance de um clique…
Esse é um problema geracional partilhado por muita gente como nós, Dulce.
É uma boa ideia pôr a data de leitura nos livros: vou ‘roubá-la’ ;-).
Eu só costumava ler um livro de cada vez, especialmente se fosse um romance: é que, se gostasse, não conseguia mesmo parar.
Ultimamente gosto de ir alternando contos com poesia, crónicas, ensaios, biografias mas, se me aparecer um ‘daqueles romances’, esqueço tudo o resto e lá vou eu…
Este verão foi essencialmente de novos escritores, novos no sentido de desconhecidos para mim, e de poucas releituras.
Li tantos livros que até tenho vergonha de dizer, mas como não saí para férias foi o meu escape.
🙂
Antonieta
Dezasseis livros em três meses não me parece mal. Mas longe vão os tempos em que lia mais de oitenta livros por ano.
Andei em maré de releituras, como aliás se percebeu aqui no blogue. E gostei muito.
Durante anos li vários livros ao mesmo tempo. Depois deixei-me disso. Agora retomei o antigo hábito e dei-me bem com ele.
Fico satisfeito por me “roubar” a ideia, Antonieta. Verá que compensa. Eu assinalo também o local de leitura e as respectivas estrelinhas – de um a cinco.
A plasticidade e os circuitos cerebrais estão em permanente mutação (daí a suspeita que se pode atrazar o alzheimer pelo uso do cerebro) deve explicar esse facto interessante de apesar de gostarmos na mesma de um livro que classificamos de bom, quando o relemos o sentirmos diferentemente.
Tambem interessante é caminhar neste emanharado de conhecimento, informação e leitura digital e tentar ver as tendencias que isso provocam nos gostos dos cidadãos. No que diz respeito a formação e educação o que sobressai em Portugal é que a maioria nem acha a equação digna de discussão.
Reflexão interessante, a sua. O essencial, de facto, é não deixarmos de ginasticar os neurónios.