Judite Sousa, que tem Marcelo Rebelo de Sousa à sua frente e não precisa portanto de chamar por ele, fez-lhe ontem vinte e duas vénias em forma de título académico: Marcelo – profere ela, num ritual sincopado – é o “Professor”. Isto acentua a aura do visado: podia ser violinista ou ourives, mas não seria a mesma coisa. Prestamos tributo às formas de tratamento com ancestral desvelo: o verniz de modernidade não resiste a dois minutos de televisão.
Penso rápido (3)
Pedro Correia,

“Neste país em pequenino, respeitinho é que é precisio” ( cito de memória )…
O’Neill, sempre actual. Escrevendo sobre o Portugal de ontem. Que é o de hoje e o de amanhã.
Quando fui trabalhar para uma universidade americana o meu superior hierárquico era um professor mais-que-catedrático, famosíssimo no campo científico em questão. Eu tratava-o sempre por “Professor” e ele queixava-se de que eu era a única pessoa ali que o tratava dessa forma: todas as outras pessoas, desde os estudantes até às secretárias, tratavam-no pelo nome próprio. Na América todos se tratam pelo nome próprio (na Rússia tratam-se pelo nome e patronímico).
Aqui houve um ministro que vinha dessa cultura e mal aterrou em Portugal e disse que gostaria de ser tratado pelo nome próprio foi enxovalhado e ridicularizado pelas bempensâncias de turno. Bastou isso para se tornar politicamente irrelevante, fizesse ele o que fizesse.
Exacto.
Ontem, Marcelo gastou substanciais minutos da sua missa dominical a falar de futebol.
Neste ponto até estou de acordo com Jorge Jesus: doutores a falar de bola?! Já chegam os jornalistas especializados, os treinadores desempregados, os antigos jogadores. Irra, que é demais.
É a ditadura das audiências. E cedeu o lugar em antena, mais depressa do que é costume, para dar lugar a mais um espectáculo-realidade (‘reality-show’ em português técnico).
Caro Pedro Correia,
Sinceramente não me choca. O Marcelo tem direito (pleno) ao título e é nossa tradição – por oposição à anglo-saxónica, por exemplo – em usar-se títulos académicos. Já, por outro lado, a “mania” de tratar por “Dr.” pessoas que têm licenciaturas e bacharelatos devia morrer de uma vez por todas (os médicos são a excepção evidente): o Senhor e Senhora chegam e sobram nesses casos.
Em relação aos EUA, acho piada ao facto de não usarem os títulos, mas os cargos eleitos vêm todos com título a reboque: ninguém diz “Obama”, é tudo “President Obama” – e o título mantém-se após deixarem o cargo, o que é francamente estranho.
Carlos, a questão essencial aqui – e por isso me dei ao trabalho de contar até 22 – não é o título académico, que pertence com todo o mérito ao Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa. Para efeitos académicos, como professor de Faculdade de Direito, ou para efeitos políticos, enquanto membro do Conselho de Estado.
Refiro-me à linguagem televisiva, onde a constante invocação de títulos académicos, totalmente a despropósito, é mero ruído. Que funciona apenas como muleta vocal: nada tem de informativo.
Nem precisamos de ir à televisão: fiquemo-nos pelas situações mais comuns de diálogo. Se estivermos, você e eu, a falar frente a frente nenhum de nós necessitará de chamar o outro: estamos ali, olhos nos olhos, qual a necessidade de tal evocação, tenha cada qual o título académico ou a carteira profissional ou a condição social que tiver?
Tratar vinte e duas vezes Marcelo Rebelo de Sousa por “professor” num só trecho de Jornal das 8 da TVI é algo revelador sobre muita coisa que me dispenso de sublinhar por ser tão óbvia.
Certo, eu percebi. Mas sendo um “frente-a-frente”, não é uma conversa particular, onde esses títulos podem (eventualmente e com a devida autorização expressa ou tácita) cair. Neste caso específico, acho que só peca por defeito – gostava mais de ver os entrevistadores tratar as pessoas com o devido respeito e distânciamento. Com Senhor(a), Doutor(a), Professor(a) e por aí em diante. O mesmo se aplicaria inversamente aos entrevistados. Se for uma entrevista “pessoal” (i.e. não profissional, não política), tudo bem. Nas outras, a distância pode ter um efeito higiénico importante.
Não há distância que resista a “Professor” multiplicado por vinte e dois, Carlos. Que tanto vale para o professor Marcelo Rebelo de Sousa como para o professor Eduardo Lourenço ou o professor António Damásio ou o professor Jesualdo Ferreira (e porque não hão-de os jornalistas televisivos, que muitas vezes são também professores universitários, ser igualmente tratados dessa forma pelos entrevistados-seus-colegas?)
Vinte duas vezes depois, deixa de ser tratamento atencioso e educado para se tornar ruído. Apenas ruído.
Novamente, não discuto isso. Concordo que podia perfeitamente utilizar um “neutro” Senhor, especialmente como vocativo, após “estabelecer” o título uma ou duas vezes.
Quanto ao Sr. Jesualdo Ferreira, que eu saiba não é Professor Catedrático (que, já agora, é o único academicamente correcto para Professor).
Peço desculpa se isto parece “pedante”, mas enerva-me a soltura com que se usa (mal) os títulos em Portugal e nunca mais esqueci a verdadeira lição que o Sr. Henrique Neto deu na minha faculdade quando o trataram por Engenheiro. Que não era engenheiro, apenas Senhor. Naquele caso, com um “S” muito maiúsculo.
Pois, Carlos, já vi, Carlos, que estamos em franco desacordo nesta matéria, Carlos, eu acho que quando duas pessoas estão frente a frente, Carlos, não precisam, Carlos, de estar sempre a chamar uma pela outra, Carlos, pois estão lá e não fogem, Carlos, mas cada um, Carlos, fica com a sua tese, Carlos, eu entendo que numa conversa de vinte minutos alguém chamar vinte e duas vezes Professor ou seja o que for a quem tem pela frente, Carlos, mais não é do que ruído, Carlos, ou uma muleta verbal incómoda, Carlos, ou sinal de manifesta insegurança, Carlos, ou sei lá o que mais, Carlos, já escrevi catorze vezes o seu nome, Carlos, agora já faz quinze, Carlos, isto é, dezasseis, e para atingir a interlocutora do Professor ainda me falta escrever mais seis, Carlos, agora só falta cinco e daqui a pouco dá o Portugal-Alemanha e o país vai parar, Carlos, eu quero ver também e depois hei-de comentar, Carlos, isso propicia uns bons bate-papos, Carlos, até os senhores professores catedráticos gostam de falar disso.
E eis o seu nome escrito vinte e duas vezes, Carlos, perdão, vinte e duas é só agora, Carlos. Tudo está bem quando acaba bem.
Acho que não estamos em desacordo, eu é que terei interpretado mal o post. Pensei que o “foco” (para evitar o horroroso “enfoque”) era no utilizar do título “Professor” e não na repetição. Na repetição absolutamente de acordo, mas podia ser Professor, Senhor, Marcelo, o que fosse. Quanto ao título, não venho nada de incorrecto, como aliás tinha já dito.
Estamos de acordo quanto a isso. Cortesia merecida, sim. Mesuras exageradas e repetitivas, não.
Finalmente percebeu. Desculpe meter o bedelho, mas só depois ali do “desenho” o senhor lá chegou. Concordo com o post ! Além da repetição irritante, o uso do “ó” é a cereja em cima do bolo, de mau gosto.
Ora, Marcelo não é nada sexy.
http://www.youtube.com/watch?v=soJix7Xf7 ho
Deu-me um mote original.
Pior mesmo, só Judite de Sousa a dizer – também vezes sem conta – “Mas, ó Dr. Medina…, um must de elegância jornalística e não só.
Não costumo ver esse. Aliás, se visse tudo quanto é apresentado em antena pela mencionada jornalista, não me sobraria tempo para fazer mais nada. É, sem dúvida, a recordista nacional em presença na pantalha.
Não me surpreende. O Pedro não viu como o ex-ministro da Economia foi gozado pela nossa «Intelligentsia» (modo de dizer; não temos tal) por ter pedido para ser tratado apenas pelo seu nome próprio, Álvaro? É um país de gente pequenina, que se curva pela frente e espeta um punhal pelas costas.