Pedras


Maria Dulce Fernandes,

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Provavelmente já tinha tomado alguns. Não sou de beber, mas pélo-me por um bom gin&tonic sempre que entro em fase de transgressão e quando tomei por resolução um post no blog por dia, estava seguramente alienada, demente, insana, ou simplesmente um nadinha alterada.

A inspiração não é algo que se tenha na mala ou na carteira ou haja lá por casa sempre uma nova, bem arrumada e ainda por estrear com as etiquetas da marca numa gaveta do camiseiro. 

Ou se tem ou não se tem, tão simples como isto.

É como o cabelo, por exemplo. Se o tenho, posso cortá-lo, enfeitá-lo, ondulá-lo… a infinitude de tratos que posso dar ao cabelo é imensa. Se não o tenho, sou careca, tento disfarçar com perucas, capachinhos, chapéus, mas como dizia o actor, desses, há muitos, os palermas, os falsos inspirados.

Saí do trabalho mentalmente exausta. Apesar de ser Verão era de noite e pensei para comigo que o mundo me passa ao lado e só reparo que faz um barulho ensurdecedor.

Fui pelo caminho a contar as pedrinhas e a adivinhar em qual cairia cada pingo da chuva que se abatia de mansinho. Podia ser inspirador, quem sabe. Li não sei onde que o Björn Ulvaeus escreveu o “Take a Chance on Me” quando chegou a casa depois de caminhar pela chuva e atentar na melodia que os seus passos entoavam quando tocavam nas pedras molhadas da calçada.

Quem sabe o mesmo não aconteceu a Beethoven quando cozinhava, ou a Bach quando polia com suavidade e perícia o seu orgão preferido, ou até mesmo a Wagner enquanto passava o espanador nos livros da biblioteca do tio Adolf.

Não, decididamente hoje não desceu em mim qualquer bafejo de Erato, Melpômene, Polínia ou Talia, portanto, e sem mais delongas, vou fazer uma lasanha, uma deliciosa e fantástica lasanha e ai de quem se atravesse no meu caminho e me difame a arte!

20 comentários em “Pedras”

    1. Balio… há quanto tempo é que comenta os meus postais? Diga-me com sinceridade, o balio lê mesmo o que comenta, ou só lê na transversal?
      Alguma vez na vida, eu compraria comida pré-cozinhada congelada? O balio chega, lê na transversal e nem comenta, inventa.

  1. E ainda diz que não estava inspirada. Então o que é este “grande texto”, a acompanhar uma “grande foto” (que fui rever, confesso…), senão o resultado de uma boa inspiração? Acredito piamente nos exemplos que apresenta porque eu tenho aproveitado muito com as minhas obrigatórias “caminhadas” destruidoras do colesterol, como fonte de inspiração. Então escrevo até nos talões de multibanco, seja textos seja desenhando pautas musicais que depois preencho com gatafunhos, a alinhar em chegando a casa… Uma vez, parei na rua para escrevinhar uma coisa destas junto a um carro; pouco depois a dona acorria aflita pensando que eu era um polícia que a estava a multar… Uma solene gargalhada para desfazer o equívoco deixou a senhora tranquila. E eu segui com mais uma ideia anotada.

    1. Sabe, eu nem devia dizer isto, mas quando ando por aí e alguma coisa me desperta a vontade de escrever, gravo uma mensagem de voz e oiço depois. Têm sido muito úteis, mas é um procedimento muito pouco ortodoxo.

      1. Pois é, Dulce, mas o problema é que eu, como se pode perceber pelo uso dos talões de Multibanco, não tenho desses telefones que dão para MBwai’s, para fotografar, para gravar mensagens de voz, etc… Não tenho nem quero, enquanto puder. Assim, sinto-me mto mais próximo dos cadernos de conversação e dos sarrabiscos de notas do grande Beethoven… Mas, na maior parte das vezes, é mesmo a minha memória que ainda “grava” bastante bem…

  2. « Ó rua do Capelão
    Juncada de rosmaninho
    Se o meu amor vier cedinho
    Eu beijo as pedras do chão
    Que ele pisar no caminho

  3. Não sei se bubeu na foto mas gosto daquela inversão de andares terminais em nuvem aterrada nos paralepípedos.
    Não imagino qualquer sonata sobrevinda de culinária beetoveniana.Sei apenas de uns ovos lançados pela janela do apartamento vienense. Nem quero imaginar.Bebia o seu copito,lá isso.
    Lasanha,venha ela mesmo em digitais etéreos.
    Textos leio quando calha,calhou bem.
    hipólito tanas

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