
Canta o galo no toque do telefone que me desperta de um passeio de charrete conduzida por um cocheiro escuro que resfolgava ruidosamente uma névoa esverdeada e chicoteava incessantemente uma pileca esquelética, de grandes olhos apavorados, obrigando-a a arrastar penosamente o engatado por uma rua de basaltos irregulares e esburacados em gigantescas poças de água, que reflectiam um luar pálido e frio. Nunca cheguei a saber o destino da viagem. É o mal dos sonhos, serem levianos, boémios e inconstantes, tantas as vezes que chegam e partem sem hora nem memória.
O elevador fede a fumo de cigarro. Mais um que acredita na imortalidade e procura introspectivamente respostas reconfortantes, quando tudo o que encontrará é um bofe negro e quase petrificado de apostemas.
Está frio e a luz dos candeeiros projecta sombras ilusórias e assustadoras. Os meus passos ecoam a tropéis de muitos cascos e eu rio, rio para afastar o medo que me invade, medo da noite, medo das sombras… o medo. O medo é poderoso ou paralisa-te ou desvela-te uma força desconhecida e rara que faz de ti um ser superior. Sem tempo para escolhas existenciais, acelerei arvoada para o autocarro parado, que tinha dentro um punhado pessoas tristes e frias, embrulhadas, amarfanhadas e sonolentas que, como eu, esperavam poder chegar ao seu destino ao mesmo tempo que o sol.

Gostei muito, Dulce.
Também eu sou protagonista recorrente de sonhos, acordados e “dormidos”, sendo que se os primeiros são fruto de uma imaginação e por vezes de uma ousadia cujo controlo me pertence inteiramente, já no que aos segundos respeita, deixam-me normalmente abismada com o nível de fantasia, complexidade, insuspeitos cruzamentos de ocorrências, detalhes, medos, desejos jamais pronunciados, ou sequer pensados, que se afiguram quase reais. Uma infrutífera canseira.
Sempre penso escrever sobre eles, de manhã, ao acordar. Mas sempre desisto. Causam-me uma sensação estranha e desagradável, por incapacidade de os entender e de os controlar, que quero é livrar-me deles.
É isso mesmo Fátima. Normalmente lembro-me de tudo mal acordo. Tem dias em que gravo porque tem que se lhe diga. Outros são tão , sei lá inverosímeis? que fico palerma como o inconsciente se lembra de revelar tais novelos. Os sonhos dão-me sempre muito o que pensar. Não tenho memória de uma noite sem sonhos.
Sonhar com cavalos dá sorte, pode jogar no euromilhões que tem jackpot. Se sair, não se esqueça de pagar a consulta.
Karamba Carlos, se dá dinheiro sonhas com cavalos eu deveria estar rica, tal a quantidade de cavalgaduras que pova o meu inconsciente onírico!
Calma, é só os que têm ferraduras.
Todos têm ferraduras, uns nas patas, outros na língua. É com cada coice!
Ao lê-la , “veio-me à ideia” “Blues in the Night” ( o.k, o.k., um oceano de distância…e não só físico…) , mas…
JSP
Ella encurta as distâncias