João Gomes de Almeida, no ECO:
“Mas numa coisa concordo com Fernanda Câncio: uma fação da sociedade não tem o direito de impor à maioria dos cidadãos a sua vontade. É por este motivo que acredito que os temas socialmente faturantes, ou como a jornalista refere as “escolhas do domínio da ética”, devem ser decididas por todos. Ou seja, através de referendo, tal como aconteceu com a Interrupção Voluntária da Gravidez. Isto porque nunca uma minoria deveria ter o poder de sobrepor o seu interesse ao da maioria. Certo? Não é isso que significa ser de esquerda?
Mas quando chega à hora de dar a palavra ao povo, a esquerda normalmente encolhe-se e gosta de disparar um dos argumentos mais falaciosos do jogo democrático: “os direitos não se referendam”. O tanas é que não! O povo afinal não é soberano? Foi à conta desta retórica que os partidos de esquerda têm conseguido, na maioria das vezes à pressa e atabalhoadamente, fazer passar na Assembleia da República diplomas sobre os temas que dividem a sociedade. Socorrendo-se sempre da falácia de que “estes temas só dizem respeito a quem é afectado por eles” – o que é imperativamente mentira, se partimos do princípio de que todos vivemos em sociedade e de que as transformações que se operam na mesma dizem respeito a todos.”

A mim não me parece nada simples, não. (Resposta ao título do post.)
Reconhecer um direito a outrém não é impôr-lhe a nossa vontade. Portanto, quando se diz que uma facção da sociedade não tem o direito de impôr à outra facção a sua vontade, isso nada tem a ver com direitos.
Quanto a temas socialmente fraturantes deverem ser decididos em referendo, isso depende muito. No caso do aborto e no do suicídio assistido, eu concordo que devam, porque esse temas mexem com direitos fundamentais conflituantes. Já no caso do casamento de pessoas do mesmo sexo, em que não há quaisquer direitos conflituantes, eu discordo totalmente com um referendo.
A sua discordância não me surpreende. Aliás, estava a escrever o título e a pensar “o Luís Lavoura vai adorar isto”.
Mais do que os direitos e a forma como chegam, o que me parece curioso é a flexibilidade lógica – para ser benigno – da esquerda bem-pensante.
Eu sugeriria que o Diogo Noivo, em vez de fazer comentários ad hominem e divagações sobre os seus adversários políticos, argumentasse.
Eu argumentar argumento. Coisa diferente é que o Luís Lavoura goste dos meus argumentos.
se partimos do princípio de que todos vivemos em sociedade e de que as transformações que se operam na mesma dizem respeito a todos
Pois, mas esse princípio, de que vivemos em sociedade, é mal reconhecido por muitos liberais. Um exemplo ilustre foi a baronesa Margaret Thatcher que, ao que consta, uma vez disse que não existe sociedade, o que existe são indivíduos e famílias.
É, porque Thatcher percebia o desastre que é diluir as liberdades individuais numa massa amorfa chamada “povo”.
Exatamente. Vê como estamos de acordo, pelo menos nisto?
Portanto, o argumento simples de João Gomes de Almeida é, na verdade, um argumento simplista. Porque a “sociedade” não pode pretender diluir as liberdades individuais. Porque, no fim de contas, o que interessa são os indivíduos (e as “famílias”, diria Thatcher, mas eu sobre essas tenho muitas dúvidas), não a “sociedade”.
Ora bem, chamemos, portanto, os indivíduos a pronunciarem-se sobre o tema em vez de, parafraseando Orwell, recorrer a argumentos que apelam à disciplina, por oposição ao individualismo.
Diogo, que tal referendarmos a Republica? Temos cá o Duarte Pio. A republica foi-nos imposta. E que tal referendarmos a permanência de Portugal no Euro? Alguém nos perguntou algo?
Que tal referendarmos a não existência de um salário mínimo, mas de um salario máximo, inclusive nas empresas privadas?
Que tal referendarmos a pena de morte, em Portugal, para determinados crimes?
“O povo afinal não é soberano?”
O povo é soberano dentro do limite que a politica e os políticos, e restantes forças do poder, deixam para que o povo seja soberano.
Antropologicamente os políticos são como os chefes de aldeia. Em troca da nossa submissão eles prometem-nos o aumento do beneficio comum. Qual esse beneficio comum? O que fomenta um coesão social, através de aumentos líquidos dos rendimentos disponíveis.
Qual povo, qual carapuça?
Os ideólogos nunca foram do povo. Eram da burguesia. Das elites.
O bem comum nunca foi definido pelo povo. Nem os direitos naturais. Nem a ideia de contrato social.
O Povo manda apenas num regime anárquico. O povo entregue a si mesmo, sem liderança, rege-se pela lei da selva – diversos estudos antropológicos/arqueológicos sobre este tema – o Estado natural do Homem é a luta de todos contra todos (Hobbes estava correcto; Rosseau, esse degenerado, errado).
Sou de esquerda, mas não sou estupido quanto à pseudo-virtude do povo.
Aliás só a palavra povo está cheia de estigma – quem é do povo é labrego.
Sou de esquerda porque quero proteger o meu povo de si mesmo.
“Sou de esquerda porque quero proteger o meu povo de si mesmo”: paternalismo, autoritarismo e presunção, tudo numa só frase. É obra!
Ou sou doido. Ou politicamente incorrecto. Ou as duas coisas.
Diogo permita-me a arrogância. Já me passaram milhares de páginas pela boca e pelos olhos. Contudo assumo que posso tê-las lido apenas com os olhos. Mea culpa
Por referendos não haveria fim da pena de morte, fim da escravatura, direito ao divorcio, voto das mulheres, IVG e um sem fim de avanços civilizacionais que tiveram lugar quando à sociedade estava madura para eles, mesmo se, de forma directa (o que não é o mesmo que democrática), não os teria decidido.
Logo, a expressão de vontades, opiniões e anseios por via do voto está altamente sobrevalorizada. Como já aqui se escreveu, temos que proteger o “povo” de si próprio. É isso?
“… os direitos não se referendam…”?!
Muito menos se delegam.
Quando se põe reticências ao referendo, o que se está a transmitir é o seguinte:
– O Povo é quem mais ordena, mas, como não é capaz de o fazer, faço-o eu por Ele.
Lindo!!!
João de Brito
SIm. Em parte, é isso, João de Brito.
Talvez goste de ver esta entrevista:
https://www.youtube.com/watch?v=cUiOYXGx gMQ
G.Edward Griffin On Leftist Madness & Destroying The New World Order (FULL INTERVIEW)
Quanto à facção que quer impôr a sua vontade: JRw&t=90s
https://www.youtube.com/watch?v=20hJKsQ_
G. Edward Griffin – This Thing Called Power