O declínio do pensamento


Pedro Correia,

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“Fui professor e garanto-lhe que os meus primeiros alunos podiam agora ser catedráticos. Saber pensar e raciocinar está em declínio.” Palavras do escritor espanhol Félix de Azúa, em recente entrevista ao jornal El Mundo. Palavras certeiras, que ilustram a erosão cultural a que vamos assistindo nos mais variados domínios. Erosão que começa no vocabulário, cada vez mais comprimido: a cada década que passa, milhares de palavras vão morrendo por falta de utilizadores. A capacidade de decifração de textos escritos há meio século, para não recuar mais no tempo, vai-se reduzindo. Vocabulário exíguo gera pensamento estreito e dicotómico, que pretende expurgar toda a complexidade e só busca respostas simplistas, potenciadas pelo maniqueísmo da chamada democracia digital, pronta a colocar o ignorante no pedestal antes reservado ao sábio.

O erudito está hoje condenado ao ostracismo pela ululante multidão de “utilizadores” das chamadas redes sociais, dispostos a substituir o pensamento racional por emoções avulsas, inflamadas com muitos likes.

 

Voltei a reflectir em tudo isto ao ver ontem uma cena de uma série televisiva, aliás excelente, rodada em Paris por alturas do Natal. Um americano encontra-se com uma francesa numa brasserie e ela pede ao empregado: “Mon ami voudrait bien un verre de vin.” Tradução, na legendagem: “O meu amigo gostaria de um vinho verde.”

O copo de vinho [verre de vin] transforma-se num inverosímil vinho verde [sem tradução, mas que à letra seria vin vert]­, por obra e graça sabe-se lá de quê, transportando a frescura das adegas de Penafiel ou Mondim de Basto para o aconchego natalício de uma brasserie parisiense.

O contexto, a circunstância, o enquadramento cultural – tudo isto importa tanto como a carpintaria da língua quando se traduz seja o que for. Mas raciocinar é uma velharia em declínio. Para quê desgastar os neurónios se não tarda muito teremos um qualquer robot multilingue a desempenhar tão cansativa função por nós?

0 comentários em “O declínio do pensamento”

  1. Eu diria que ouvir “un verre de vin” como “vin vert” traduz mais desatenção e pressa do que falta de raciocínio…
    Suspeito que o tradutor estaria sob grande stresse, pressa, pressão financeira.

  2. É verdade que o vocabulário está cada vez mais comprimido. Mas também é verdade que muitas das palavras nele são supérfluas, perfeitamente traduzíveis por outras. É isso que constato quando os meus filhos me perguntam o significado de palavras que encontram em livros: que muitas delas são totalmente equivalentes a outras e, portanto, supérfluas no vocabulário.

    1. Supérfluas”, então. Tudo reduzido – também o vocabulário, depois da ortografia – a uma mera ferramenta básica de comunicação, reduzida ela própria ao básico. O suficiente para obedecer e seguir passivamente as ordens de quem manda, mesmo que muito convenientemente convencido da “liberdade” assim alcançada. Você lê pouco, Lavoura (deve ser coisa supérflua, para lá do indispensável manual escolar e do texto técnico que a profissão imponha, se impuser), o tem pouca memória do que leu.

      1984?

      Costa

      1. O Costa sabe Galaico-português?

        Ai, dona fea, fostes-vos queixar
        que vos nunca louv’ en [o] meu cantar;
        mais ora quero fazer um cantar
        en que vos loarei toda via;

        e vedes como vos quero loar;
        dona fea, velha e sandia!
        Dona fea, se Deus me perdon,
        pois avedes [a] tan gran coraçon
        que vos eu loe, en esta razon
        vos quero loar toda via;
        e vedes qual será a loaçon
        dona fea, velha e sandia!

        Dona fea, nunca vos eu loei
        en meu trobar, pero muito trobei;
        mais ora já un bon cantar farei,
        en que vos loarei toda via;
        e direi-vos como vos loarei:
        dona fea, velha e sandia!

        1. Não, desgraçadamente não sei (mas haverá por aqui quem ache, e com lapidar certeza, tal conhecimento supérfluo). Em todo o caso não nos será tão longínquo que se torne por si, e com um módico de esforço, completamente ininteligível. E, diga-me por favor, onde quererá V. chegar com a pergunta?

          Costa

          1. Quais as leis naturais que presidiram à evolução do galaico português para o português actual? O idioma é um conjunto de símbolos aos quais foram dados significados abstractos e regras abstractas. Portanto não percebo a celeuma contra o acordo ortográfico. Preocupa- me mais o português que se ensina nas escolas que deixa professores e alunos exaustos e frustrados com a complexificaçao desnecessária de uma língua.

          2. Como? Mas o como do não comer. O How dos simples ingleses

          3. 1. Começando pelo princípio. Foi Portugal que, em 1911, alterou a grafia da língua portuguesa sem consultar o Brasil, o que fez com que passasse a haver duas ortografias para a mesma língua. O Acordo vem resolver este erro histórico.
            2. As alterações do Acordo Orográfico facilitam a aprendizagem. Quer de crianças, quer de estrangeiros. Por uma razão simples: as palavras passam a ficar mais próximas da forma como se lêem.
            3. O Acordo Ortográfico apenas afeta um número diminuto de palavras, cerca de 1,6%. O que significa que as alterações trazidas pelo Acordo são mínimas face ao português que se escreve.
            4. As escolas portuguesas já ensinam conforme o Acordo Ortográfico. As leis portuguesas já são publicadas conforme o Acordo Ortográfico. O Governo já governa conforme o Acordo Ortográfico. A maioria dos jornais já publica conforme o Acordo Ortográfico. Parece impossível, mas tudo isto acontece sem revolta, dor ou trauma.
            5. Entrando no Acordo, é evidente que nunca poderia haver qualquer acordo com o Brasil para unificar a ortografia que não abrangesse as consoantes mudas. É que, simplesmente, os brasileiros não as afloram nem as pronunciam.
            6. E quem acha que abdicámos da nossa forma de escrita, é bom lembrar que o Brasil também cedeu e deixou, por exemplo, de usar o trema em algumas palavras, como no “u” em linguiça.
            7. Há apenas oito países no mundo que têm o português como língua oficial. E só há duas ortografias, a portuguesa e a brasileira. Chegar a um consenso quanto à forma de escrever é relativamente fácil. O que é altamente vantajoso para uma língua falada em quatro continentes por mais de 250 milhões de pessoas.
            8. Numa perspectiva egoísta, o Acordo Ortográfico contribui, de forma modesta, para que o português do Brasil se mantenha português do Brasil e não se torne brasileiro. Sim, interessa-nos que o português seja falado por mais de 200 milhões de pessoas na América do Sul.

            Pedro Almeida Cabral, jornalista

          4. Quais as leis naturais que presidiram à evolução do galaico português para o português actual? O idioma é um conjunto de símbolos aos quais foram dados significados abstractos e regras abstractas. Portanto não percebo a celeuma contra o acordo ortográfico. Preocupa- me mais o português que se ensina nas escolas que deixa professores e alunos exaustos e frustrados com a complexificaçao desnecessária de uma língua que foi feita para nos entendermos. Acho ridículo ser o Lusíadas uma obra de leitura para os alunos de português de 9 ano. Muitos termos do nosso idioma e idiomas provieram da linguagem popular, e não das academias. Por isso não me chocará que expressões que hoje os miúdos usam um dia façam parte do Bom português. A língua e os seus termos devem também reflectir os avanços tecnológicos da altura, ou ficaremos sem palavras e sem pensamento para as coisas novas

          5. Reflectir os avanços tecnológicos, sem dúvida, introduzindo novas palavras à medida que novas realidades surgem (ninguém poderá decerto negar tal coisa). Mas em que medida obrigam tais avanços (ou pelo menos recomendam, com válido e decisivo fundamento efectivamente demonstrado) à expressa e súbita supressão de vocabulário relegado à condição de imprestável velharia, como por aqui temos podido repetidamente ver desejado? Em que medida legitima isso verdadeiros cortes, puramente arbitrários, com o passado (e o étimo), em lugar da evolução natural, gradual, desde o seu tão querido – pena que como arma de arremesso – galaico-português?

            E pego nesse exemplo já tornado um clássico de desconsideração do oponente pela sua gente: porque não escrever "pharmacia"? Que superior e crucial valor nos levou a deixar de o fazer? São os anglófonos, entre outros, tão estúpidos e nós tão geniais? Onde está a grande vantagem disso? Acaso temos um povo com invejáveis capacidades de escrita e interpretação, com notáveis hábitos de leitura, graças à catadupa de acordos e reformas desde, pelo menos, 1911 e sempre visando "simplificar" a aprendizagem das massas?

            A "simplificação"? Como valor em si mesmo? A simplificação que confunde coisas, que toma um acto pelo acto de atar, que toma quem testemunha algo por quem espeta algo? Poupe-me a maior lista de exemplos da bizarria; já por aqui foram copiosamente apresentados e francamente começa a fatigar este constante embate com quem nega o óbvio.

            Sorte a sua que manifestamente parece estar do lado (manifestamente, também) vencedor. Os bárbaros já não estão às portas da cidade. Já as romperam e o saque ainda agora começou. Você é dos que o aplaude.

            Seja.

            Costa

          6. Costa, não sendo linguista tenho alguma dificuldade em reconhecer a pertinência da discussão de um AO que entrou em vigor, salvo erro, há 2-3 anos. Tudo isto me cheira a pedantismo, com laivos de naftalina. Guerrilha de Salão a la Comissão de Inquérito.

            Defendo a simplicidade no sentido da eficiência e nisso os ingleses são peritos.

          7. Os ingleses. Que não consta tenham uniformizado a sua ortografia – ou criado uma extraordinária e indefensável confusão, sob esse pretexto – com a dos norte-americanos. Uns valentes milhões mais, todavia…

            Costa

          8. Não o simplificaram porque o inglês é dos idiomas mais simples em termos gramaticais. E veja que são os falantes de língua inglesa os maiores escritores da actualidade. E qual o problema de escrever atualidade? 😃 Cumprimentos

  3. Já pensei em começar a anotar as imbecilidades que se lêem em traduções, sobretudo televisivas mas também em livros. Para além de o tradutor parecer não dominar nem a língua origem nem o português, por vezes nota-se uma total ausência de cultura geral. Não esqueço, por exemplo, que num episódio de House umas “vulcan ears”, referindo-se evidentemente a uma semelhança com as orelhas de Mr. Spock, se transformaram em “orelhas de vulcão” (volcano ears). Mas é raro o dia em que não me depare com disparates semelhantes. Enfim.

    1. Como se traduz “vulcan”? Como se traduz “vulcan ears”?

      Aquilo que você designa por “cultura geral” é frequentemente muito pouco geral. Eu quando vivi nos EUA tinha muita dificuldade em compreender muito do que os americanos diziam, porque me faltavam as referências culturais deles.

      1. Fácil: “orelhas de vulcano”.
        Além disso com a internet não há desculpa. Pesquise no Google por “vulcan ears” e verá que é bem fácil descobrir o que significa em inglês e depois fazer a respectiva tradução.

        1. Pois eu procurei na internet e vi que “vulcan” se traduz por “vulcânico”.
          Por outro lado, procurando “vulcan ears”, cheguei à conclusão de que tal coisa não existe, a não ser como referência à série americana Star Trek.
          Concluo portanto que não há tradução possível para “vulcan ears”, a não ser para quem conheça essa série americana.
          Temos portato um daqueles casos em que uma determinada expressão faz todo o sentido para quem tenha certo referente cultural muito específico, mas é, de facto, intraduzível.
          Pelo que, o tradutor que traduziu “vulcan ears” por “orelhas de vulcão” não cometeu erro nenhum.

          1. É evidente que sim. Quando a palavra não tem tradução (ou não se sabe/consegue traduzir), manda a regra que se mantenha o original: “orelhas de vulcan”. Traduzir o que não se conhece por algo aproximado, caindo no famoso erro dos “falsos amigos”, não é admissível num profissional.

  4. O contexto, a circunstância, o enquadramento cultural – tudo isto importa […] quando se traduz […] mas raciocinar é uma velharia em declínio.

    Conhecer enquadramentos culturais nada tem a ver com raciocínio. Através do raciocínio não é possível deduzir um enquadramento cultural. Por exemplo, eu suponho que nas tabernas francesas não se conheça o vinho verde, mas de facto não sei se se conhece ou não – se calhar nalgumas até se conhece muito bem! Eu também suporia que o catolicismo não seja religião muito divulgada na Coreia, mas o facto é que é.

    As referências e enquadramentos culturais são coisa que só se adquire com experiência concreta do país em questão, e isso é coisa que dificilmente um tradutor pode adquirir facilmente.

    1. Certeiro. Facilmente as coisas difíceis deixam de ser fáceis, e dificilmente as coisas fáceis são difíceis.

    2. Primeiro estude o enquadramento cultural, depois aplique o raciocínio. E não use o seu, faça-o através das regras racionais desse enquadramento cultural – antropologia cultural

  5. Saber pensar está em declínio!
    Vetusta conversa desde os tempos pelos menos dos gregos. Haveria uma idade de ouro (a mais antiga e desaparecida – um tipo de edén, onde se falava a a lingua adâmica – a de adão, o idioma divino que não fazia diferença entre a nomeação e o nomeado (sem espaço para o engano, para o subjectivismo – quase como ula linguagem matemática).Depois uma idade de prata e a seguir uma de ferro, etc.

    Ler, Jack Barzun, da Alvorada à Decadência

    https://www.wook.pt/livro/da-alvorada-a-decadencia-jacques-barzun/59915

    Ou Spencer, sobre a Decadência do Ocidente.

    De uma forma geral quem assim fala, sobre a decadência, são cientistas sociais que com a ascensão das ciências naturais se virem relegados para um secundaríssimo plano

    E as descobertas cientificas ,os planos da genética, da medicina, da astronomia, como se encaixam nessa perda de capacidade de pensar?

    Quanto à língua, ela deve também evoluir. E simplificar não é necessariamente sinónimo de se afastar da verdade – veja-se o teorema de Guilherme de Ockam.

    Penso que a língua portuguesa é excessivamente complexa sendo dificial encontrar alguém que a fale correctamente. Deveria haver uma simplificação gramatical. Pois os idiomas servem para transmitir mensagens/informação e o excesso de complexidade apenas aumenta o erro associado à transmissão de informação.

    As línguas devem evoluir e o pensamento também. Tal como existe evolução natural ela deve existir na noosfera. Evoluir no sentido de adequar.

    Vou almoçar…não fiz revisão do texto….bebam do espirito e na da letra…peço desculpa pelos erros…

  6. Caro Pedro:
    Não perca o artigo do Nuno Pacheco de hoje no Público.
    Sobre as irracionalidades do Acordo Ortográfico (eu prefiro chamar-lhe Aborto Ortográfico).
    Chama-se: «Cerá ke istu tambãe
    ce iskreve acim?»
    É um mimo e a sua leitura diverte-nos, como sempre quando fala desta irracionalidade.

    1. Deveríamos voltar ao galaico-português. Já e em força!!

      Os diré, con tristeza, lo que nunca pensé
      que os diría, señora,
      porque veo que por vos muero,
      porque sabéis que nunca os hablé
      de cómo me mataba vuestro amor:
      porque sabéis bien que de otra señora
      yo no sentía ni siento temor.

      Todo esto me hizo sentir
      el temor que de vos tengo,
      y desde ahí por vos dar a entender
      que por otra moriría, de ella tengo,
      sabéis bien, algo de temor;
      y desde hoy, hermosa señora mía,
      si me matáis, bien me lo habré buscado.

      Y creed que tendré gusto
      de que me matéis, pues yo sé con certeza
      que en el poco tiempo que he de vivir,
      ningún placer obtendré;
      y porque estoy seguro de esto,
      si me quisierais dar muerte, señora,
      por gran misericordia os lo tendré.

      Mano, ganda mitra!!!

      1. Einstürzende Neubauten:
        Gostava de perceber, verdadeiramente, o sentido da sua afirmação: «Deveríamos voltar ao galaico-português. Já e em força!!».
        Mas é areia demasiada para a minha minúscula camionetazita (cerebral).
        Talvez devesse ler o artigo, deixo-lho aqui, se quiser dar-se ao trabalho.
        https://www.dropbox.com/s/7wj1c7w8uc3i0fs/Publico-20170209.pdf?dl=0
        E já agora também este, igualmente do Nuno Pacheco: «Pirâmides, futebóis e ortografia.»
        https://www.dropbox.com/s/g9czfeqf27ofqne/Pir%C3%A2mides%2C%20futeb%C3%B3is%20e%20ortografia.docx?dl=0
        Talvez ficasse mais habilidado a falar do que parece não conhecer muito bem.

        1. Explique -me porque é que no meu tempo não consideravamos o k, y,w no nosso alfabeto e agora sim. Explique – me porque caiu em desuso o ph nas nossas palavras. Porque desapareceu também o y? Qual a lógica por detrás disto?

      2. Argumento indigno, simplista, medíocre, do que, concorde-se ou não, por aqui tem V. escrito. Vamos todos embrutecer-nos em nome da modernidade ou da simplificação, confundindo o bom senso e a exigência de um mínimo de rigor com uma alegada decrepitude sentenciada pelo triunfo da ignorância? Depois o quê, comer todos de boca aberta e defecar atrás de um arbusto?

        Vêm de todo o lado (embora pareça haver certa predominância que não surpreende) os adeptos da novilíngua

        Costa

        1. Costa, a minha área é a medicina. Esforço- me para não cair na especialidade da ignorância geral. Assumo que possa estar errado. Essa do cagar atrás de um arbusto está demais. Sendo da área da biologia estou mais habituado às leis não arbitrárias do mundo natural. Onde o erro tem consequências. O resto, este assunto das boas regras do Bom falar são apenas caprichos de homens que lutam pelo reconhecimento

          1. A minha a aviação civil (embora a formação académica pouco tenha a ver com isso), e – permita-me também notar – que consequências tem potencialmente o erro, na minha profissão… Até para mim, se sobreviver.

            Mas é irrelevante para o que aqui nos traz, pois não me desqualifica, nem a si, para ter opinião sobre as regras, o ensino, o presente e o futuro da minha língua-mãe. Não faz de mim, consciente das minhas limitações, (nem faz de si), só por si e sem mais, um “ignorante geral”.

            Não deixo de ser sensível ao empobrecimento da sua riqueza como elemento de bem mais do que mera comunicação estritamente pragmática, puramente funcional, nem ao criminoso absurdo se de pretender condicionar uma língua e a sua natural, sedimentada e defensável evolução a interesses políticos de pura submissão – ainda por cima perante quem manifestamente não brilha como expoente na matéria (e dentro das suas fronteiras, no seu universo, com plena legitimidade) – e a jogadas de milhões no negócio editorial. Ainda por cima à custa de fenomenais “entorses”.

            Quanto ao resto, enfim, “cagar” foi expressão sua. Eu – sem dúvida pior que conservador (isso sendo já uma falta assaz condenável), decerto reaccionário (coisa digna de campo de reeducação, ou mesmo medida talvez mais drástica) – acredito que o recurso ao calão é coisa que se deve moderar empenhadamente. Excepto se revelando um golpe de génio artístico ou se indispensável a benefício do que se pretende comunicar.

            Bem sei, é certo, que o que é hoje calão tempo houve em que o não era e, muito provavelmente, voltará a não o ser. Ou não tivesse havido risota, generosamente tolerada pelo professor, mas sem grandes cedências, nos distantes tempos do liceu (ainda era “liceu” e curso “geral” e “complementar” do “ensino liceal”, ou “dos liceus”; tudo seguramente sinais de um elitismo e de uma complicação inúteis e intoleráveis), quando do estudo dos Autos das Barcas.

            Mas o exemplo a que recorri – que quis deliberadamente exagerado e anedótico, mas não sei se afinal se ficará por aí -, servirá, permita-me a presunção, como invocação geral e abstracta do que vejo como um declínio geral, um embrutecimento arrogante e orgulhoso (como escreve o autor do “post”: “Mas raciocinar é uma velharia em declínio”) e que alastra por aí galopante. Você achará que não. Concordemos pois em discordar.

            Concordemos nisso e na felicidade de ainda o debatermos em linguagem escorreita e um pouco mais do que meramente instrumental.

            Kuanto ao rexto, desde ca gente nos perssebamos, está bué da bem e todo o people vai ter uma ganda nota a protugês. Certo?

            Costa

  7. Pedro, mandei para aí um comentário que espero não estar muito confuso. Não sei se também, lhe apus o meu nome artístico….versava sobre a relação entre simplicidade de informação-comunicação-erro…tinha umas alheiras na frigideira e estava com um olho aqui e o outro ali. Peço desculpa.

    Quanto à decadência do pensamento além da referência a Barzun, e à sua magnus opus “Da Decadência à Alvorada”, lembrei-me de outros dois (cientistas), que contradizem essa do pessimismo dos homens das letras

    O Otimista Racional, Como evolui o bem-estar,de Matt Ridley 
    https://www.wook.pt/livro/o-otimista-racional-matt-ridley/14939565

    O mundo está cada vez melhor. O acesso generalizado a alimentos, rendimentos e o aumento da esperança de vida alcançaram níveis muito elevados. As doenças , a mortalidade infantil e a violência caíram de forma acentuada. Embora o mundo esteja longe de ser perfeito tanto a satisfação das necessidades como os luxos são mais acessíveis; o aumento da população é mais lento; a África, depois da Asia, está a sair da pobreza; as novas tecnologias enriqueceram acentuadamente o nosso dia a dia. Os pessimistas, que dominam a opinião pública, estimam que em breve alcançaremos um ponto de não retorno e de inflexão que assinalará o final dos nossos melhores dias. Contudo, é um aviso que tem mais de 200 anos.

    Os Anjos Bons da Nossa Natureza, Porque tem declinado a violência, de Steven Pinker 
    https://www.wook.pt/livro/os-anjos-bons-da-nossa-natureza-steven-pinker/18616206

    As notícias incessantes sobre guerra, crime e terrorismo criam a ideia de um mundo cada vez mais ensanguentado. Mas neste importante livro Steven Pinter mostra-nos que a violência, pelo contrário, tem decrescido nos últimos períodos da história. Mas como aconteceu isso?
    Pinker examina os demónios interiores que nos conduzem à violência, e os anjos que dela nos afastam, mostrando-nos como certas alterações nas nossas ideias e acções permitiram aos anjos do bem triunfar. Ao mesmo tempo, o autor quebra vários mitos sobre violência, apresentando uma nova defesa do modernismo e do Iluminismo.
    Este livro dá seguimento à exploração de Pinker sobre a natureza humana, misturando psicologia com história e criando um retrato fascinante do nosso gradual domínio sobre a violência

    Além do mais argumentaria, de minha lavra, que também o sexo nunca esteve tão barato.

  8. Muito bom. Tema importante. Como, e o que, se ensina resultará na sociedade em que viveremos. Sabem-no, praticam-o, e de que forma, os regimes absolutista.

    “Saber pensar e raciocinar está em declínio”, diz o professor. “… deixar, motivar infantes e jovens a utilisar, autonomamente, o “porquê” ? …”.

    O ensino hoje motiva os alunos -que queiram ter sucesso- a exibir o que sabem que o professor, do momento, quer ouvir. Criam-se hábitos de evitar o indagar. Magister dixit, o respeito cego, escolástico, por uma autoridade na sua Cátedra ou Parlamento. Contraditório é chumbo garantido. A sociedade estiola.

    Veja o caso. Assinalou-se -apenas por exemplo- vinho, e haverá logo quem demonstre ser enólogo de primeira …. haja Deus.

    1. A sua primeira parte do texto confirma Marx. Por debaixo da supraestrutura – métodos de produção e distribuição de riqueza – subjaz uma infraestrutura – uma moral – que fundamenta e legítima quem detêm o poder. Quanto ao saber indagar sobre a verdade nunca ela esteve tão disseminada. E isso devemo- lo à democratização do acesso à informação. Quanto à memorização de conceitos é fundamental em qualquer aprendizagem ( aluno provém do grego que significa repetir).

  9. Perdoem-me a insistência que, se calhar, já é, para muitos, impertinência:
    Sempre que se aborda a problemática da língua, o foco vai invariavelmente para o léxico e, daí, por exemplo, o grande alarido à volta do AO.
    Quanto a isso não tomo partido, porque os argumentos de um e outro lado estão muito próximos da equivalência e porque, de uma maneira ou de outra, a comunicação não é significativamente afetada.
    O que realmente afeta a comunicação, porque afeta o pensamento, são os erros de sintaxe, aos milhares e cometidos ao mais alto nível, relativamente aos quais, surpreendentemente, ninguém diz nada!
    Dou apenas um exemplo:
    Hoje em dia, diz-se, correntemente – “A colher, que como, verte a sopa pelo caminho.”
    Ou seja, o comunicador come a sopa e a colher!
    Para só comer a sopa e deixar a colher para a próxima, ele deveria dizer – “A colher, com que como, verte a sopa pelo caminho.”
    Ora, uma situação destas só acontece, porque, de facto e tragicamente, as pessoas não pensam, não refletem, não raciocinam, como diz o post.
    João de Brito

    1. O pseudo-acordo ortográfico – que veio introduzir maiores diferenças do que já existiam entre a ortografia oficial brasileira e a norma portuguesa, adoptada nos restantes países lusófonos – não unificou porque esse objectivo jamais pode concretizar-se e muito menos por essa via.
      As maiores diferenças entre o português europeu, africano e asiático por um lado, e o português sul-americano, por outro, são precisamente do domínio da sintaxe e do vocabulário. Isto já para não falar da pronúncia, inevitavelmente a ter em contra sobretudo da parte daqueles que defendem uma ortografia mais próxima da oralidade.
      Estas são as diferenças essenciais. Que já existiam, continuam a existir e assim permanecerão.
      Uma boleia cá será sempre carona lá.
      Um bonde lá sempre sempre um eléctrico cá.
      Uma fábrica portuguesa no Brasil será usina.
      E o suco de lá é o sumo de cá.
      E nem no futebol estamos de acordo: lá é time, escanteio e gol; cá é equipa, canto e golo.
      Os acordistas podem limpar as mãos à parede.

  10. Excelente texto, Pedro.
    É inegável que o ensino tem decaído substancialmente em qualidade. “Eu sou do tempo” em que no Liceu se estudava a fundo o que hoje nas universidades apenas se aflora. Em demasiadas disciplinas de muitos cursos superiores, a matéria, o conteúdo é a única preocupação dos professores ( muitos deles catedráticos), com peso na atribuição de nota e sequente trânsito na disciplina. Tantas vezes o português escrito é de tal modo ilegível em caligrafia, construção, morfologia, sintaxe e conjugação verbal, que me pergunto para quando o advento do Messias que travará está geração de Doutores analfabetos.
    Quanto às traduções e legendagem, já tive ocasião de manifestar o meu profundo desagrado. Antigamente qualquer escrita antes de publicada, passava pela revisão. Agora os Words e afins têm correctores automáticose que são de bradar aos céus…

    Para o livrinho de notas do Rui Hebron:

    Episódio do CSI ( o único de seu nome:
    Na morgue, pergunta o Nick ao Documento: Do you know the COD ?
    Traduzido alegrrmente: Sabe do bacalhau ?

    Lembro-me de ter reclamado se não estou em erro para a Santa Claus. Nunca obtive qualquer resposta.

    1. «Tantas vezes o português escrito é de tal modo ilegível em caligrafia, construção, morfologia, sintaxe e conjugação verbal, que me pergunto para quando o advento do Messias que travará esta geração de Doutores analfabetos.»
      É isso, Dulce: analfabetismo funcional. Começando pela caligrafia, precisamente: há cada vez menos gente a saber desenhar letras sem formato tipográfico.
      Os chamados “correctores” são simples mecanismos de reprodução de calinadas. Qual delas a mais bizarra.
      Erros como esse mereciam ser reproduzidos na página digital desse (dessa?) tal Santa Claus (não confundir com o Pai Natal). E ficarem lá plasmados, a abrilhantarem-lhe o portefólio.

    2. Quer comparar as disciplinas e o conteúdo das disciplinas que hoje se ensinam, no secundário, com aquelas que se ensinavam há 30, ou mais anos, atrás? – em disciplinas como a biologia, a matemática, química (os miúdos do 9 ano aprendem hoje matérias cientificas que se ensinavam nos últimos anos do secundário)

      Basta dar-lhe um exemplo. Há 50 anos escrevia-se em ardósias. Hoje fala-se em tablets – Ipads (como se diz em português?) – como suporte, para as aulas, daqui a 1 – 2 anos.

      Portugal (e o progresso da humanidade) tem mais falta de engenheiros e cientistas, que puristas da língua. Afinal o que vocês, linguistas tem aportado ao progresso tecnológico e cientifico da humanidade?

      1. Também já se pintou em cavernas, escreveu em papiros… Uma coisa não implica a outra, viver na era da globalização devia tornar-nos mais informados, mais cultos, mais cuidados. Verifica-se precisamente o contrário.
        Na minha distante 4a classe aprendi a escrever ( bem e legível), estudámos história, filosofia, literatura… equações de segundo grau… tive excelentes professores cuja vocação e preocupação era ensinar bem. Aprofundar, debater, inovar.
        Não se trata de um mito urbano do tempo da outra senhora, mas da mais pura realidade.
        Nunca vi tanto desleixo com o ensino, com a língua falada e a palavra escrita em livros, guardanapos ou tablets como agora. É muito triste.

        Viva o progresso, pois claro. Pode ser em Inglês, francês , alemão, espanhol, desde que aplicado com compostura, regras e correcção à beleza da nossa língua mãe. É um direito que nos assiste a todos e que poucos reivindicamos, o de falar e escrever legível e correctamente.

  11. Escola Publica ou Publicamente controlada dá:

    ” It’s very interesting because if you look at history, we tended to treat adolescents as sort of junior adults and we didn’t — teenagerdom is a fairly recent invention and in fact we didn’t really start talking about teenagers until we had kids in school and we took kids who used to hang out with adults in adult settings, doing adult tasks where if you wanted to be respected, which everybody does, you are going to be respected by adults for being good at doing adult things.

    Then we took all those kids and instead we segregated them into schools where they were around a bunch of other teenagers and you still want to be respected by the crowd you’re part of, but now your crowd is all people your own age. So you do the stuff that impresses people your own age and the problem with that is teenagers are idiots.

    So the stuff that impresses teenagers is usually idiotic. So instead of being really good at bailing hay or fixing a plough or something like that that you might have done a hundred years before, you want to be good at drinking or dating or playing football or other things that are fundamentally more trivial but that appeal to your peer group.”

    https://www.libertarianism.org/media/free-thoughts/education-apocalypse-how-it-happened-how-survive-it

    1. Esse texto que aponta deve ter sido publicado antes da descoberta da testosterona e das suas implicações no desenvolvimento cerebral e cognitivo dos machos adolescentes. Lendo alguns estudos de antropologia verá que entre as tribos mais primitivas existem grupos de jovens que se distinguem quer das tarefas e posição social das crianças quer dos adultos. E que existem rituais de passagem realizados pelos adolescentes para a idade adulta. Nalgumas tribos o adolescente só entrava na idade adulta quando matasse. Neste caso, como em qualquer assunto biológico, as hormonas e os neurotransmissores contam. Subjectivismos deixemo- los para as pseudociências sociais. Não confunda Freud com Watson e Crick.

  12. Até vos digo mais. A maioria dos livros técnicos dos cursos de medicina / biologia / ciências são em língua estrangeira ou traduzidos para português do Brasil, o que revela a pobreza do mercado editorial nacional e a necessidade de um AO.

    1. Necessidade de um AO? Que nunca – porque isso não se faz por decreto – uniformizará a pronúncia, a sintaxe e o vocabulário, a cultura em suma ,como acima se demonstra cabalmente (custa-lhe assim tanto entender isso?).

      Se os bons manuais de estudo, os disponíveis pelo menos, estão em brasileiro (e escrevo “brasileiro” não por acaso) e nós, portugueses, temos a felicidade de entender francamente bem esse idioma – já o recíproco… -, muito bem: utilizemos esses manuais. Mas vai você passar a chamar cancer ao cancro? Pretende que todos o passemos a fazer? Com força de lei?

      Quanto ao que escreve mais acima sobre o que os “linguistas” terão “aportado” de relevante à Humanidade (suponho que se refira a filólogos, filósofos, historiadores, juristas e todos os que que ousem encontrar Saber fora das ciências ditas “exactas”), confesso que em nada me surpreende. Mas, meu Deus, isso é tão primário…

      E escrevo isto sabendo como os ditos “cursos de papel e lápis” podem ser instrumentos de práticas reiteradas e pouco exemplares (ou perfeitos exemplos delas…). Eu fiz um deles.

      Mas na “pública”. Valha-me isso. Perante si, pelo menos.

      Costa

      1. Costa, mesmo entre os especialistas do nosso idioma existem vários que apoiam o AO – veja o professor Malaquias Casteleiro. O AO não deverá por isso ser tão caótico como o pintam. Os meus filhos já o aprendem na escola. Vamos acabar com ele agora?! Está tudo doido? É como se fizessemos uma obra e passados 2 meses escavacassemos tudo outra vez. Não me parece racional

        1. As criancinhas, coitadinhas… Uns milhares, enfim. E os milhões que aprenderam a escrever português de forma correcta (ou menos violentada)? E as crianças apenas um pouco mais velhas que ainda assim o aprenderam? É irrelevante que o tenham que reaprender nesta forma aberrante?

          Um argumento muito usado pelo poder entre nós, esse que você agora invoca. Já nem se discute, já nem se defende a substância da coisa: independentemente do seu (de)mérito, quando já só um tolo impenitente e contra toda a evidência (ignorada arrogante e soberanamente, e já sem sequer uma tímida tentativa de a rebater) defende essa substância, invoca-se a sua irreversibilidade porque seria muito caro pôr-lhe fim. E assim se impõem interesses inconfessáveis, das auto-estradas às barragens, das PPPs à ortografia. E para si tal coisa é racional…

          Malaca, é Malaca Casteleiro. E o que ele fez à língua portuguesa já foi tão completamente revelado na sua maldade que só não o sabe quem não quer.

          Mas, de facto, porque não escrever “atualmente”? Ou u ke ce quiser como se kizer…

          Costa

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