País real.


vidabreve,

Ligo a televisão e vejo uma ama, filmada à socapa, a espancar bebés, um fuzileiro a receber sopapos na camarata, uma Kátia a esfaquear uma Vanessa com dezassete golpes de x-acto, uma menina dos olhos da sua avó pontapeada no YouTube e um bife sovado até à morte pela boa juventude do Algarve — aparentemente porque era turista e andava na rua, coisa rara em Albufeira. As caixas do multibanco não têm tido mais sorte: são arrancadas, arrombadas, esventradas e sequestradas com abandono por veículos de alta tonelagem. Na Buraca e na Paiã digladiam-se gangs rivais. Em Almargem do Bispo há velhinhas mortas perdidas em caves desde o primeiro governo de Cavaco Silva: a vizinha? Durante uns anos cheirou, sim senhoras, mas ósdepois habituei-me.

 

O Crespo faz beicinho e denuncia a violência das imagens, dos tempos, dos costumes. O convidado acena com beatitude: é a civilização do espectáculo, da crise de valores, da ausência de referências, de um vazio espiritual que só a religião preenche. Ou então: é a civilização da desigualdade, da segregação urbana, da pobreza abjecta e da ostentação das elites. Ou ainda: é a civilização da improdutividade, do desemprego protegido, dos calaceiros e dos drogados, dos desprezo pela ordem, das fufas e dos maricas. Ou a civilização da carne, que rejeita os vegetais; a civilização dos estrangeirados, que importa a violência da América; a civilização dos imigrantes, ciganos, pretos e brasileiros que corromperam a alminha branca e impoluta do pobre Zé Luis; a civilização do aqui e agora, do curto prazo, de uma mocidade que não conhece o sacrifício, do culto do corpo, do culto da imagem, do culto da Britney e da Lady Gaga, a civilização da bulimia e da anorexia, a civilização dos jogos de computador e do sexo por conveniência, por correspondência, por desfastio. Oh, a civilização do sexo…

 

Crespo faz beicinho e acena com a cabeça. Tanta, tanta civilização, meu deus.

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