Os prémios Nobel literários


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Sobre os Prémios Nobel dividem-se as posturas do “grande público”. Face aos atribuídos às ciências naturais – Física, Química, Medicina – nós-vulgo aceitamos os laureados, crendo na justeza dos critérios dos jurados especialistas e não acedemos a hipotéticos pareceres e/ou resmungos dos oficiais daqueles ofícios, publicados, se existentes, nas “revistas da especialidade”. Um pouco como acontece nos “Nobel” metafóricos – Matemática, Arquitectura, Ciências Humanas, Economia, para referir os mais conhecidos -, ainda que sobre o Prémio da Economia de quando em vez se ouçam escassos ecos, devidos à celebridade prévia de algum laureado ou aos efeitos políticos que tenham tido (por exemplo, e respectivamente, Krugman e Sen).

Quanto aos outros dois verdadeiros Nobel a reacção é diversa. O Nobel da Política – dita como “Paz” para a retirar do âmbito da competência estratégica, “maquiavélica” por assim dizer, e a encaminhar para um putativo bem comum universalista – costuma levantar alguns achamentos. Mas não muitos, dado que a premiação abarca o contexto mundial e há um grande desconhecimento da política e dos agentes políticos internacionais, devido ao encarceramento geral nos telejornais generalistas (e, agora, nos podcasts que os reflectem). Para mais, o possível debate público desvanece-se pois os opinadores habituais dividem-se entre os habitantes dos sarcófagos da direita “profunda”, múmias sempre avessas a quaisquer premiações benfazejas pois crentes que ressuscitarão através de um blaseísmo pomposo que julgam ser cepticismo filosófico. E os zombies esquerdistas, irredutíveis avessos a quaisquer louros atribuídos à “direita” do dr. Guillotin, o que desvanece a competência dos seus constantes ditirambos face ao evidente real.

Assim, para opinar, e livremente, sobra-nos o Nobel da Literatura, até porque todos nós, os que nos damos a ler, por pouco que seja, temos os “nossos escritores”. E para isso somos competentes, pois neste “campo literário” estamos mesmo independentes da tutela dos especialistas, dos “mestres de pensamento” – é essa, aliás, a condição literária, mesmo que alguns a queiram negar. Como exemplo dessa praxis autónoma, geralmente aceite – e reclamada – lembro que quando Saramago foi premiado com o Nobel imensa gente me perguntou o que “achava” eu de tal feliz acontecimento: “porreiro” / “óptimo” respondia (consoante a cerimónia face ao interlocutor), pois que mais poderia eu dizer? E comparo com o facto de ninguém me ter questionado sobre o que tinha eu “achado” do Pritzker, quando foi atribuído a Siza Vieira e, depois, a Souto de Moura. E vou eu também assim, nessa condição de participante da “moldura humana” no estádio da Literatura mas relapso às transmissões das outras disciplinas, “técnicas”: na “vitória” de Naipaul terei (quase) saído avenidas abaixo, cachecol “A Bend in the River”, bandeira “In a Free State”, buzinando “Mr. Biswas”, gritando roufenho “Half a Life”, eufórico. Enquanto no prémio outorgado a Sen – tão mais importante, até para a minha vida profissional – terei sussurrado um “boa!” e talvez um “já viste?” para a então minha mulher, também ela desenvolvimentista…

Enfim, divago pois onde quero chegar é a esta mitificação do Nobel (literário). Acabamos por crer que aquele cioso conjunto de académicos suecos, decerto que imbuídos de um persistente luteranismo evangelizador mesclado com um árctico marxismo, manso e bem-posto, atribui um definitivo pódio da arte literária, qual a medalha olímpica do salto à vara do Serguei Bubka ou a Taça Jules Rimet capturada pelos brasileiros. Não é o caso, e isso até lhes é obrigatoriedade, são os “termos de referência” que devem cumprir. Pois estão incumbidos de premiar um escritor que promova um sentimento benfazejo – um “ideário”, ligado (no tal luteranismo) a um “humanismo” (no sentido vulgar do termo, um “humanitarismo” se se preferir). Missão ecuménica que, ainda por cima, nestes tempos globais – e pós-coloniais, com muita pressão “póscolonial” – deve aspergir a multiplicidade de visões e locais, ungir nos alhures que for possível. Ser global, por assim dizer. Ou seja, o prémio vale o que vale, é simpático, mima escritores – premiados ou não -, anima livrarias e editoras, comove especialistas críticos. E convida os leitores, os mais militantes e os mais relapsos. Mas, em termos literários, não é um troféu, é uma honraria – uma menção honrosa…

Quanto à qualidade intrínseca, ao “carácter absoluto” dos premiados? A Glória?! Isso foi respondido há já 70 anos: um escritor debruçava-se então sobre o pouco relevo dado – séculos passados – a Quevedo, por quem nutria ele grande admiração. E explicou esse quase esquecimento desta forma: “Para a glória, dizia eu, não é indispensável que um escritor se mostre sentimental, mas é indispensável que a sua obra, ou alguma circunstância biográfica, estimulem o patetismo. Nem a vida nem a arte de Quevedo, reflecti, se prestam a essas ternas hipérboles cuja repetição é a glória….“.

Desprovido desse patetismo, ou dos meneios próprios de a este promover, também a esse escritor não foi atribuído o Nobel, ainda que isso fosse habitual aventar. Tanto assim que acabou por concluir que “No darme el Premio Nobel se ha convertido ya en una antigua tradición escandinava. Cada año me nominan para el premio y se lo dan a otro. Ya todo eso es una especie de rito.“

4 comentários em “Os prémios Nobel literários”

  1. na minha longínqua juventude as galinhas tinham épocas para postura e ficarem chocas
    actualmente acontece com seres humanos e instituições
    ‘haja pachorra!’

  2. Exactamente. Há tempos, ouvi alguém dizer (não me lembro quem foi, mas tenho na ideia que foi um escritor) mais ou menos isto: “o Nobel é um Prémio sueco, atribuído por um júri sueco, que premeia quem muito bem entende”.

    Pois, o Nobel está mitificado, é verdade. Mas quem o ganha não é, de facto, o melhor escritor do mundo. Será um escritor a ter em atenção, nada mais do que isso. Não se pode premiar todos os que o merecem, nenhum prémio o pode fazer. E, se acho bem que o ganhem escritores consagrados, também gosto da ideia de o prémio calhar a alguém (quase) desconhecido (a nível planetário), cuja obra merece atenção.

    Não me deixo influenciar muito pelo Nobel. Confesso que me fez ler Saramago. Mas a última vez que me deixei influenciar, foi em 2013, quando ganhou Alice Munro. Não sei porquê, fiquei muito curiosa. E adorei, acho que ela o mereceu. Talvez leia também Annie Ernaux, vamos ver.

    1. Pois, tendemos a opinar – e contestar, mais do que tudo – sobre a pertinência de aqueles tipos nomearem quem querem. É normal, é até salutar (é forma de vivermos o nosso pendor “leitor”). Mas de facto aquela academia não tem mais valor do que aquele que lhe atribuímos – e não tanto assim absoluto, no sentido de “sacralizador”, como o mostra a lista de “despremiados” que o Pedro Correia vem mostrando. E as coisas, as reacções, às vezes são ridículas – estive há semanas a ler uma LER de há seis anos (fiz um postal sobre isso), na qual imenso se discutia o Nobel dado a Dylan, tal como em tantos outros lugares. O que é engraçado não é se Dylan mereceria ou não o prémio, ou se é legítimo o cruzar das linhas entre escritor de canções (não vale a pena evocar as crónicas, autobiográficas, que têm valor testemunhal, mais do que tudo) e escritor de ficção, poesia ou (vá lá) ensaios. O engraçado é que os doutos opinadores (escritores, professores, críticos, vulgares leitores) todos discutiam aquela premiação como se fosse… mais do que é, como se a Academia Sueca fosse o Concílio. E isso é mesmo ridículo.

  3. Saramago já tinha escrito muita coisa, mas os suecos assobiavam para o lado como já tinham feito com tudo o que falasse em português ou brasileiro.

    Até que D. Eurico Dias Nogueiras, e Sousa Lara resolveram promover o Evangelho por toda a Europa, e os suecos resolveram ler o Memorial do Convento.

    Até que enfim, conclusão, unidos somos mais fortes.

    Todos a puxar para o mesmo lado, é que é bom.

    Nunca ninguém agradeceu este empurrão destas duas figuras

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