A propósito de justiça e sorte


Pedro Correia,

Há dois conceitos que evito associar às minhas reflexões ocasionais sobre o fenómeno desportivo – e o futebol em particular.

O primeiro é o conceito de justiça. Escuto e leio muitas análises aos jogos ancoradas neste conceito – «se houvesse justiça, a equipa X teria ganho»; «a vitória da equipa Y foi justa».

Ora, salvo no que se refere a procedimentos disciplinares, a justiça não é para aqui chamada. Um desafio de futebol não é uma audiência de tribunal. Aqui o importante é vencer – por uma margem muito dilatada, de preferência, mas se for pela diferença mínima também serve. Que se vença até por «meio golo», como na velha boutade das conversas de café.

 

 

Ao pretendermos explicar tudo em futebol recorrendo ao conceito de justiça, acabamos por não explicar nada. Porque aquilo a que por comodidade chamamos injustiça é uma espécie de lei não escrita imanente a todo o jogo. Uma das mais brilhantes proezas técnicas da carreira em campo de Cristiano Ronaldo foi aquilo a que se chama um golo limpo, “injustamente” anulado pelo árbitro por alegada deslocação de Nani numa vitória da selecção portuguesa contra a Espanha.

Eu estava lá – e vi. Nunca hei-de esquecer aquele golo, reproduzido aqui mais acima.

 

É inútil insistir no contrário: não existe uma justiça poética nos estádios que resgata os verdadeiros campeões, projectando-os da relva dos estádios para esse simulacro de Campos Elíseos a que se convencionou chamar verdade desportiva. Penso nisto todas as vezes que me lembro de um dos jogadores mais celebrados da história do futebol. Diego Maradona, ele mesmo. Um dos seus golos mais famosos – e decisivos – foi marcado com a mão, à margem das leis do jogo. Passou à eternidade não como infractor, mas como lenda viva.

Onde mora a justiça em tudo isto?

 

 

O segundo conceito é o de sorte.

Diz-se que Fulano é um sujeito com sorte ou que Beltrano, figura estimável, padece no entanto do facto confirmado por todas as evidências de não ser acompanhado por essa cobiçada deusa a que chamamos Sorte. E ninguém quer figuras tocadas pelo estigma do azar na sua equipa do coração.

A sorte conquista-se, constrói-se. Dá muito trabalho. Prefiro sempre usar a palavra mérito em vez da palavra sorte. E volto a Cristiano Ronaldo: desde cedo, ainda na escola desportiva de Alvalade, onde se formou para o futebol e para a vida, o campeão madeirense prolongava as sessões de treino, continuando a exercitar-se mesmo após a partida dos colegas. Aperfeiçoou e desenvolveu da melhor maneira as suas aptidões naturais. Ultrapassou a fronteira que separa os jeitosos (que é quanto basta quase sempre em Portugal) daqueles que têm verdadeiro talento.

A sorte ajuda? Pois ajuda. Mas não explica nada. Quando Cristiano, com um remate bem colocado, cheio de força, faz tremer o poste da baliza adversária, os analistas que adoram cultivar o lugar-comum dirão: «Teve azar.» Ele será o primeiro, no entanto, a reconhecer que esteve quase mas terá de esforçar-se ainda um pouco mais para a bola entrar na próxima vez. Que poderá ser já no minuto seguinte.

 

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Foto de Robert Capa no Dia D (Normandia, 6 de Junho de 1944)

 

Experimentem usar mérito ou competência no lugar da palavra sorte.

Não é uma simples questão semântica: há toda uma filosofia de vida subjacente às palavras que escolhemos.

Cristiano Ronaldo está para o futebol como Robert Capa estava para as reportagens de guerra. Merecidamente distinguido em vida com o título de melhor repórter fotográfico da sua geração, Capa costumava dizer: «Se a foto não estava suficientemente boa é porque não estavas suficientemente perto.»

A sorte é isto. E constrói-se a todo o tempo por aqueles que beneficiam dela.

26 comentários em “A propósito de justiça e sorte”

  1. O golo de Ronaldo é mal anulado. Nani não tem interferência na jogada. Se hovesse VAR o golo era sancionado.
    Maradona foi um génio aldrabão. A FIFA deveria te-lo castigado mas ainda estávamos no pós guerra das Malvunas, havia que dar algo aos argentinos.

    1. E no entanto esse belo golo de Cristiano foi anulado – num tempo em que ainda não havia vídeo-arbitragem. Hoje seria validado, sem a menor dúvida.
      Já Maradona passou à história do futebol como o mais genial batoteiro da modalidade. E entronizado como tal por imensos arautos da “verdade desportiva”.

      Justiça em tudo isto? Não há.
      Justiça é outra coisa, aplicada a contextos muito diferentes.

      1. Não há dúvida, foi uma obra d’arte.
        Quem viu directamente a jogada não tem dúvidas quanto ao que o Ronaldo queria fazer, que era atirar para a baliza. Ele está isolado e tem que acabar a jogada.
        Agora, é o arbito que anula o golo por indicação do fiscal de linha? Não me lembro como foi, mas se o fiscal de linha levanta a bandeirinha quando a bola sai do pé do Ronaldo o Nani está fora de jogo e não sabe se a bola vai entrar directamente. Assim, só o arbito pode dar ou não continuação da jogada que claramente vê que a bola vai entrar sem interferência do Nani.

  2. Mais uma obra de arte de Cristiano Ronaldo roubada; uns anos depois contra a Sérvia, numa jogada genial ,introduz a bola na baliza que é retirada por um defensor, mais de meio metro dentro. e houve mais, acabam de lhe roubar 1 golo no Mundial porque a Adidas concorrente da Nick diz que não houve contacto na bola,nem um cabelo sequer; já a mão de Maradona……..
    Hpje poderia ter mais de 819 golos marcados em competições oficiais.

    1. Cristiano Ronaldo não tocou na bola de modo a desviar a sua trajectória. Está provado. Sentiu a deslocação do ar de um objecto que lhe razou o cabelo a grande velocidade e celebrou. Que crime!
      Odeio a inveja e ingratidão que tem povoado as caixas de comentários das redes sociais, publicadas em acervos biliares por gentinha reles com pouco o que fazer, como eu, infelizmente.

        1. E o pior, o pior mesmo, é o modo como estas pessoas bebem e regurgitam o veneno que vem estampado nas primeiras páginas dos tablóides ingleses. Não têm um pingo de patriotismo, apenas maledicência. É revoltante.

    2. Obra de arte, sim. Ele ficou furioso, como as imagens bem documentam – e com toda a razão.
      Mas depois disso continuou a marcar golos, nos mais diversos estádios, como se nada fosse. Outro, no lugar dele, talvez ficasse marcado para sempre por este grosseiro erro de arbitragem.

  3. Concordo que a sorte no futebol – e até na vida, mas mais no futebol que na vida – é uma conquista do trabalho e dedicação, aliados ao génio ou natural apetência. Na vida, alguma sorte vem também ao sujeito com a mesma marca: perseverança no trabalho, esforço, o pôr o melhor de si e estar inteiro no que faz, como sugere Pessoa e lhe está inscrito no túmulo. E basta para que o botão da sorte fique a piscar. Mas há botões da sorte que nascem avariados, outros são muito muito intermitentes (a maioria). E olhe, estou com o poeta, o melhor é cada um cumprir-se pondo o melhor de si, senão em tudo (ninguém tem auréola), pelo menos em muito do que quer que faça. Pode não lhe vir a sorte, mas vem-lhe a tranquilidade de não ter nascido em vão. No passeio da vida, julgo eu, esses são os únicos que ganham uma estrela. Que, na verdade, não lhes interessa.
    Bom dia

    1. Futebol é jogo – daí ter uma dimensão inevitável daquilo a que convencionámos chamar sorte. No entanto Cristiano Ronaldo faz tudo para combater tal atavismo, com muito esforço, muito trabalho, muita tenacidade. Contrariando o fado, o destino, as teorias do determinismo histórico e da rígida imutabilidade das classes sociais. Ele – nascido numa família muito carenciada, no bairro mais pobre do Funchal, naquela que era à época uma das parcelas com maiores desigualdades sociais de Portugal, é a prova viva de que o mítico “elevador social” pode mesmo funcionar no nosso país.
      Mas não funciona sem esforço, como maná caído do céu. Ele é também a prova viva disto. Contrariando aqueles que vivem encostados à sombra da bananeira. E podia tê-lo feito, pois não faltam bananeiras na ilha onde nasceu.

  4. ‘adidas e mal pagas’ ou ‘a fifa lhe ‘
    a bola assustou-se com o cheiro do Linic e mudou de direcção

  5. No “Imprensa Falsa”:
    Ronaldo diz que se o sensor da bola não detectou nada foi porque se danificou com a cabeçada.
    FIFA atribui golo a Bruno Fernandes mas por uma quantia a combinar até lhe pode atribuir a si, saiba como.

  6. Basta comparar um trabalhador imigrante no Catar com o rei Carlos III. O primeiro trabalha muito mais que o segundo sem sombra de dúvidas, mas o segundo tem riquezas que o primeiro nunca terá só porque a sua mãe era quem era.

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