Os negacionistas da guerra


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(Bucha, Ucrânia; Fotografia BBC/Lee Durant)

Todas as guerras são porcas. Enquanto se potencia o poderio bélico cria-se um conjunto de convenções limitadoras do seu uso – em tipo de armas, na abrangência de alvos e em contextos de aplicação -, o “longo braço da lei” procurando acompanhar o “(cada vez mais) longo braço da munição”.

Nisso algo se mudam as sensibilidades, os valores, e à comum justificação por “razão de Estado (beligerante)” dos bombardeamentos de alvos civis, típicos das guerras industrializadas, sucedeu-se a sua denúncia, criminalização, e, recentemente, a contramão discursiva da esfarrapada desculpa dos “danos colaterais”. Bem como se afirmou a recusa do destratamento de civis, a necessidade de enquadramento de prisioneiros ou o aligeirar de práticas face à deserção.

 

Nada disto é linear, tudo é ciclicamente posto em causa – por exemplo, nós fuzilámos desgraçados arregimentados ditos desertores até 1917 (apesar do patético mito nacionaleiro do pioneirismo do final da pena de morte) e matámos prisioneiros durante as guerras coloniais (apesar do patético mito nacionaleiro do “modo especial de ser português”). Mas é um processo necessário, ético: a defesa da paz é concomitante à defesa da guerra – quando inevitável – feita “com modos”. É civilizacional, para usar o velho e problemático termo.

 

As imagens que chegam agora da Ucrânia são terríveis. São mais um exemplo, e tão recorrentes são eles, de guerra porca. E é isso que é relevante. Muito secundário é o facto das reacções dos nossos vizinhos, que por aqui andam botando. Mas ainda assim são de realçar, pois trata-se de gente que vai ao mesmo shopping, ao mesmo centro de saúde. E, pior, à mesma assembleia de voto. 

 

Há muitos anos que torço o nariz a esta dicotomia “direita/esquerda” – quanto ao seu conteúdo mas ainda mais quanto à sua dimensão axiológica – que anima tantas da mentes que se julgam cultas. E neste caso da guerra ucraniana a relativa irrelevância – programática mas acima de tudo axiológica – dessa dicotomia é gritante. Temos visto adesão, explícita e implícita, à via russa na esquerda – mas não só dos comunistas (PCP / BE), pois vê-se muita tralha desta de socialistas “de esquerda” e seus correlatos maçónicos, entretidos no ataque aos avatares do “mundo ocidental” e, a este propósito, a vasculharem a história recente para efeitos desculpabilizadores do que se passa agora.

 

Mas não só nesse ambiente ideológico, pois abundam discursos similares provenientes da direita, tanto defendendo a pertinência russa como também apoucando a reacção “ocidental” e apupando a imprensa que se refere a esta guerra. São os soberanistas, anti-europeístas, que aqui viram – nas suas confusas mentes – um filão para alimentar essas perspectivas. E essa gente não se restringe à mole de adeptos do CHEGA, tão atrapalhado este ficou nesta situação. É gente que ao longo dos anos propagandeou e propagandeia o seu voto em múltiplos partidos de centro/direita.

 

E desde ontem, face a estas novas imagens, pululam neste rossio moderno da “rede social”, invectivando a “encenação” ucraniana, negando esta possibilidade, enfeixados no seu negacionismo do real, patéticos prosélitos russófilos. Não são os “comunistas”. Nem os “fascistas” do CHEGA. São os burguesotes de sofá, desses que vota(ra)m “AD”. É uma ralé. Selvagem.

13 comentários em “Os negacionistas da guerra”

  1. “As imagens que chegam agora da Ucrânia são terríveis. São mais um exemplo, e tão recorrentes são eles, de guerra porca.”
    Pleonasmo, só um ingénuo acredita que há guerras limpas. Há guerras.

  2. O Terceiro Reich lembra A construção do assírio Tar, aquela fortaleza poderosa Que, diz a lenda, não podia ser tomada por nenhum exército, mas que Através de uma única palavra clara, pronunciada no interior Desfez-se em pó.
    Bertolt Brecht

    1. embora Anarca desde sempre, assisti à formação da AD, facto mal conhecido ou deturpado, como tudo nesta terra

      1. ainda que está cá V., Vortex, que nos poderá legar – um dia, longínquo, na hora da morte, um precioso caderno com todas as verdades que desconhecemos

    2. Maria Dulce Fernandes eu referi “AD”, não AD… (ok, serei mais explícito, é gente que vem votando no punhado de partidos que constituíram a AD e outros que a teriam integrado se então existentes – já para não falar de gente que se reviu ou reveria num PDC ou pequenos outros assim)

  3. Muito bem, o que é escrito apanha toda a gente e o crivo se encarregará na separação, embora não presenteie a simples razão, que também há, de quem apenas se lamenta com um ‘cá temos a merda da guerra’.
    Estas imagens que nos chegam de Bucha são muito importantes por se tratar de assassinatos de civis. Ainda não foi devidamente explicado quem estava sepultado na vala comum, e se os mortos que vemos serem homens civis à borda da estrada, provavelmente estariam a vaiar os russos a passar e um deles até tem um saco plástico com batatas.
    Que grande totós foram estes soldados russos, só faltou deixar um cartão com a identificação do executor.

  4. Agora o adepto do PUTIN, o nosso PCP, parece que tem um aliado garantido, aquele da Hungria com maioria absoluta.

  5. L’ACCUSA DEGLI ATTIVISTI
    «I responsabili di Bucha sono Omurbekov e il battaglione 51460, dall’Estremo Oriente»
    L’orrore delle fosse comuni: le foto satellitari

  6. Estas imagens que nos chegam de Bucha são muito importantes por se tratar de assassinatos de civis. Ainda não foi devidamente explicado quem estava sepultado na vala comum, e se os mortos que vemos serem homens civis à borda da estrada, provavelmente estariam a vaiar os russos a passar e um deles até tem um saco plástico com batatas.
    Assino por baixo

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