A causa é justa


José Meireles Graça,

 

Confesso: houve muitos discursos no Congresso do CDS, no qual estive como convidado, que não ouvi.

Não por sobranceria: para muito militante é a oportunidade de se dirigirem aos seus camaradas (não gosto de “colegas”, que é paleio de putas, digo-o sem desprezo nem por elas nem pela profissão, nem de “companheiros”, que é coisa de sociais-democratas, t’arrenego) e significar que o partido devia fazer assim e assado, e o país deveria ir por aqui e por ali, e tudo isso em poucos minutos. Tanto pior se isto atira a duração pela noite dentro – a alternativa dos discursos alinhados e a coreografia severamente controlada não tem lugar no CDS e ainda bem.

Ouviria mais se se pudesse fumar lá dentro e as cadeiras não fizessem doer o rabo, mas sem ir ao extremo de me coibir de vir arejar – cá fora, ocasionalmente, encontro um ou outro amigo que aprecia, como eu, uma boa desconversa, e lá dentro a maior parte dos discursos são, fatalmente, chatos, faz parte.

À chegada, os convidados pagavam 20 Euros (os congressistas mais) e achei muito bem: se o partido está falido e já não tem subvenções públicas, só quem com ele simpatiza o pode aguentar. Incidentalmente, um congressista insurgiu-se contra a punção (portuguesmente: somos completamente a favor de sacrifícios desde que sejam outros a fazê-los), mas pouca gente aplaudiu.

Coisa curiosa e, creio, inovadora: um grande pavilhão cheio de gente que não tem, pela sua esmagadora maioria, esperança de conquistar ou manter lugares, e que paga para estar ali a defender, ou contribuir para a defesa, de uma certa ideia de país.

O CDS é o CDS e as suas três famílias apareceram, veementes, a liberal muito mal representada por vários dos seus corifeus ou terem abandonado o partido ou se terem posto à margem.

O discurso do líder cessante foi lamentável, por não ter resistido a um acertar de contas: por muitas razões de queixa que tenha da oposição interna – e mais surda ou menos surda nunca ela cessou de existir no partido – e difíceis as circunstâncias objectivas em que começou e viveu o seu mandato, sair com elegância implicava reconhecer esta verdade simples: perdeu nas urnas e explicar a derrota como uma consequência da oposição interna é o mesmo que dizer que o eleitor, porque é burro, não levou isso em conta. Francisco Rodrigues dos Santos, que teve assinaláveis méritos (recordo o surpreendente desempenho num frente-a-frente com Ventura, por exemplo), nunca deu sinais de perceber o eleitorado do CDS, que sempre julgou ser apenas o que cabe nos limites estreitos de uma democracia-cristã muito feita de proclamações, e muito centrada em questões sociais fracturantes. Nem, num momento crucial da vida do partido, entendeu que recorrer a pretextos jesuítico-jurídicos para se eximir a ir a votos só podia cair mal nos militantes e na opinião pública. É curto. Ademais, no campeonato das indignações sortidas, a fazer as vezes de um estudo cuidado de soluções a apresentar, o espaço já estava razoavelmente preenchido pelo condottiere Ventura.

Outros dirigentes apareceram, carregando na mesma tecla: ai que se os derrotados do Congresso de Aveiro se tivessem mantido calados o resultado eleitoral teria sido outro. E Cristas (a mesma que teve um resultado notável em Lisboa, in illo tempore, e que tirava, nos debates no Parlamento, Costa do sério), e até Portas, também chegaram a levar pela medida grande, este último porque parece que tem influência, e não a deveria ter. A compreensão do problema que representam o Chega! e a IL, ambos pescando no mesmo eleitorado que dantes era, em parte, cativo, foi pouco aflorada.

Este poder deposto vai agora renascer como oposição interna. E está muito bem assim, que isso faz parte da tradição do partido. Espera-se que Nuno Melo, se não conseguir levar água ao seu moinho, não sirva, na hora da despedida, o discurso da vitimização, nem se preocupe excessivamente com o que dizem ou deixam de dizer os defensores da linha justa. Estes tendem a achar que o CDS ideal é o que coincide com as suas ideias, nunca se dando conta que partidos bacteriologicamente puros há dois: o MRPP, que existe como curiosidade, e o PCP que, curiosamente, ainda existe.

Num excelente (como peça de oratória) discurso, Manuel Monteiro repescou os seus cavalos de batalha nacionalista e eurocéptico, a par de um programa económico que incluía coisas discutíveis como a recuperação do aeroporto de Beja, tudo envolto num dedo em riste algo prometeico. O Congresso aplaudiu, entusiástico: a qualidade do discurso, a figura que faz parte da história do partido que serviu e o apoio, algo contrafeito, a Nuno Melo. Eu também: receber condignamente um ex-dirigente é uma obrigação, a boa-fé e integridade da personagem inegável, e do bloco de ideias fixas alguma coisa compro.

Paulo Portas apareceu, de manhã, a horas em que eu ainda meditava no quente. E não deve ter sido pequeno sacrifício vir de Lisboa e regressar no mesmo dia, porque à noite tinha o seu programa habitual na TV. Deve ter achado que devia dar o seu contributo para que não lhe escaqueirassem de vez a herança, e deu.

Nuno Melo tem pela frente uma dificílima tarefa: os liberais dos quatro costados têm a IL, os indignados da democracia e que querem meter todos os parasitas, todos os corruptos, todos os maus condutores, e infiéis aos seus cônjuges, e drogados, e criminosos, na cadeia, o Chega!, de modo que as sobras ficam para o CDS. A gente que julga que o país se pode governar pela encíclica Rerum Novarum não é suficiente, e nada garante que o PSD de Rio, que é um socialista de boas contas, e que por isso afastou o eleitorado que preferiu o original ao sucedâneo, não venha a evoluir para a direita.

Porém. Porém. O sucesso da IL e o do Chega! são, a prazo, o seu insucesso, porque o tempo mostrará que ambos são partidos fatalmente sujeitos às mesmas vicissitudes dos outros, desaparecendo o encanto da novidade; e o PSD clássico, isto é, o albergue espanhol que está na sua natureza, nunca foi incompatível com a existência do CDS. Finalmente, a tribalização do espaço político à direita não é por si incompatível com o sucesso eleitoral e governativo. De modo que o CDS, a senhora madura que já passou por muitos assados, talvez tenha duas ou três coisas a ensinar a essas jovenzinhas cheias de tesão e com uma forte corrente de ar entre as orelhas. Veremos.

Amanhã refilio-me. Desconfio que a quota não será a miséria que era dantes, porque os tempos são outros. Mas a causa é justa.

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11 comentários em “A causa é justa”

  1. Vou copiar para aqui o que escrevi como comentáro num postal passado:

    “Na minha opinião falta mostrar o CDS como um Partido de CAUSAS: defesa da Família (travar a queda da natalidade; políticas ativas de proteção da parentalidade…) qualidade de vida dos idosos (envelhecimento ativo, benefícios fiscais ás famílias com idosos a cargo, mais articulação com o “terceiro setor”…); defesa da dignidade da Vida Humana (reforço da rede de cuidados continuados; atenção redobrada à saúde mental…); atenção ao real tecido económico nacional (revisão do IRC das pequenas empresas; crédito fiscal para alívio da tesouraria…)
    Os Partidos mais pequenos ganham vida com a defesa de valores – basta ver o crescimento que o Bloco conseguiu enquanto “partido das questões fraturantes”. O CDS deveria retomar um discurso de Valores e Causas, e deixar a “governabilidade” ao “centrão”. Porque sempre que nos “chegamos ao Poder” pagamos caro nos resultados eleitorais subsequentes.”

    Concordo inteiramente com uma coisa: o Francisco Rodrigues dos Santos nunca percebeu a pluralidade interna do CDS, e por consequência, do seu eleitorado.

    Eu, pessoalmente, filiei-me no CDS por ser um partido personalista, que é o único em Portugal a reconher a validade da Doutrina Social da Igreja. Mas com esta minha sensibilidade, sempre gostei de atender e avaliar os contributos da chamada “ala liberal”. Custou-me muito ver a forma pouco leal como se deslocaram para o espectro da IL…Por que sempre acreditei que eles, tendo uma visão muito própria do Estado, tinham inteligência para intuir (se não entender) que um país como o nosso – com quase 25% da população a viver acima da Pobreza apenas pela intervenção estatal – não se pode dar ao luxo de passar a ter um “Estado Mínimo” de um momento para o outro!
    Dentro do CDS sempre detetei a presença de pessoas cuja única afinidade com o partido era acreditarem ser este “a DIREITA”. Uma “velha guarda” pouco simpatizante dos valores democráticos, saudosa da “velha senhora”, que via no CDS uma forma de se enquadrarem na vida política. São cada vez menos, felizmente. Nunca tiveram grande aceitação dentro da hierarquia partidária… e sairam quase todos para o Chega (ainda bem!). Mas eram uma “sensibilidade” dentro do Partido, e correspondiam a uma parte do nosso eleitoriado.

    O Francisco Rodrigues dos Santos, defendendo uma “pureza ideológica” próxima do que me fez filiar no CDS, sempre me perturbou! As suas atitudes e pesnamento eram de facto “jesuíticas” – e o meu entendimento é mais…franciscano!

    Espero sinceramente que o Nuno Melo consiga recuperar o partido. Eu vou continuar ao dispor para colaborar seja como for! O CDS faz muita falta ao país. “A Causa é Justa”: venha lá refiliar-se, José Meireles Graça!!

  2. o PSD clássico, isto é, o albergue espanhol que está na sua natureza, nunca foi incompatível com a existência do CDS

    Mas o CDS é outro albergue espanhol!

    O CDS, tal e qual como o PSD, é (ou era) um albergue espanhol de conservadores, reacionários, liberais, e católicos fundamentalistas. A única diferença é que o PSD tinha também sociais-democratas.

  3. Gosto muito de ler JMG, e mesmo quando sinto dever acrescentar qualquer coisa, como aconteceu no último artigo publicado no “Observador”.
    Hoje despertou-me a influência das experiências pessoais na diversidade humana. Passei seis longuíssimos meses em Mafra – onde tinha só prometido voltar se o convento estivesse a arder – a ouvir detestáveis licenciados pela Academia Militar a bramar: colegas são as putas, nós somos camaradas. Ainda hoje a palavra camarada me desperta uma imediata rejeição.

    1. Os colegas da escola ou do trabalho podem ser bons camaradas, mas os camaradas militares são outra coisa muito superior: morrem para nos salvar a vida. Sei do que falo.

      1. Pois, eu também sei. 8 de Maio de 1926, 25 de Abril de 1974. Todos camaradas. Agora há mais camaradas. Estão nas televisões e são majores-generais.

  4. os convidados pagavam 20 Euros (os congressistas mais)

    Então convidaram as pessoas e depois obrigaram-nas a pagar? Eu acho isso muito mal! Quando se convida alguém, paga-se-lhe.

    Pergunto: quem eram os congressistas? Todo e qualquer militante do CDS que se tivesse inscrito? Ou somente um número selecto de militantes?

  5. Anarca participei como fundador do PPD e da AD para contrariar o pcp.
    entre nós tudo se resume a ‘entusiasmo urinário’

  6. Amanhã refilio-me. Desconfio que a quota não será a miséria que era dantes

    Depois diga aqui (pode ser em reposta a este comentário) quanto é a quota. Estou interessado.

  7. Pavilhão cheio não seria tanto assim.
    A ideia de aparecer, sozinho, com um simplório carro 4L poderia fazer pensar na rodagem feita por Cavaco na viagem à Figueira da Foz.
    A viagem de ontem foi muito mais curta e Cavaco trocou um BMW por um Citroen.

  8. Muito bom, como sempre. Admiro a fé clubista, mas preferiría deputados uninominais selecionados e apoiados pelo CDS, numa bancada do mesmo, bem preenchida, em número e qualidade. Afinal só houve uma Meireles por ali.
    Os constitucionalistas, usurpadores do poder em Abril, profissionais do ramo, bem sabiam ao que iam e como manter inexpugnável o seu poder político, bem assim como manter o pessoal bem açaimado pelo nunca devidamente sufragado texto.

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