
Admirável cronista de algumas das revoluções do século XX, arquétipo do intelectual que nunca deixou de ser um homem envolvido nas grandes causas do seu tempo, André Malraux testemunhou a eclosão da guerrilha urbana numa China ainda sujeita às feitorias coloniais. Destas experiências surgiram duas das suas mais emblemáticas obras: Os Conquistadores e A Condição Humana, galardoada com o Prémio Goncourt.
Este romance, no essencial, é o vibrante relato de uma insurreição falhada – decretada em 1927 pelo Partido Comunista Chinês em Xangai e reprimida pelas forças nacionalistas do Kuomintang. Se saísse da pena de outro autor, poderia confinar-se a uma narrativa de aventuras. Mas aqui o que mais sobressai é o dilema de Tchen, jovem militante comunista. Vai cometer um homicídio, liquidando um adversário político adormecido num hotel da cidade, e sabe de antemão que não regressará moralmente ileso deste crime. Antes de erguer a faca, fere-se propositadamente, numa espécie de rito iniciático: como se, ao derramar o seu próprio sangue, tornasse menos reprovável o homicídio.
Uma linha muito ténue distingue a civilização da barbárie e o homem das espécies irracionais, que matam apenas por instinto de sobrevivência ou imperiosa necessidade de defesa. Tchen mata em cumprimento de ordens superiores, agindo de acordo com a suprema razão do partido – análoga à «razão de Estado» que tem levado tantos países a entrar em guerras. Isto sobrepõe-se à voz da consciência que nos induz em sentido oposto, mandando separar o homem da fera assassina.
É a eterna questão – jamais resolvida, como nos ensinam os compêndios de História – entre os fins e os meios. Importa «dar um sentido imediato ao indivíduo sem esperança e multiplicar os atentados, não por uma organização, mas por uma ideia: fazer renascer os mártires», considera Tchen. O revolucionário torna-se terrorista, cruzou uma decisiva fronteira moral na condição humana.

chegado aqui :
“Isto sobrepõe-se à voz da consciência que nos induz em sentido oposto, mandando separar o homem da fera assassina.”
logo elegi esta digamos polemica. Mas afinal a resposta está logo a seguir :” é a eterna questao”. Pois é !
Talvez na proxima, vejamos a fusao do revolucionario com o terrorista.
Para além de que devemos merecer os mortos…