Os embuçados


jpt,

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Sobre comentários o João André botou Censuras. Aduzo dois pontos, questões antigas no bloguismo, e que continuam a ser invocadas por alguns comentadores.

 

O primeiro é o da censura. Tal como o João André cortou comentários no seu pertinente Bolsonaro e Trump, também eu o fiz no meu A propósito de Bolsonaro. Um dos comentadores anónimos que ali me insulta refere-se de forma crítica ao meu “artigo”. Eu friso que não se trata de um “artigo” e ele riposta abrasivo, menorizando a diferença. Esta aparente minudência denota que há leitores que,  até pela relativa semelhança dos respectivos suportes, associam um blog a um sucedâneo de um jornal – onde há “artigos” -, de um qualquer órgão de comunicação social. 

 

Ora, ainda que tenha havido blogs com dimensões empresariais ou políticas, este suporte não é comunicação social. Alimenta espaços de publicação pessoal, mais ou menos intimista, e outros de índole conversacional, sítios convivenciais (o João André referiu que o entende como a sua casa, eu prefiro dizê-lo uma mesa de tasca, café ou bar, pois uma tertúlia em espaço público). Ou seja, um blog não tem opinião com responsabilidade social, ela não é “editada”. Como tal, e por definição, não há censura no bloguismo. E quem a invoca, quem reclama ter sido censurado, só mostra que desentende a coisa-blog. Em suma, num blog não há censura, só entra o que o(s) bloguista(s) quer(em). É antipático cortar comentários? É egocêntrico, vaidoso, atrevido, etc? Pode ser, até tudo isso. Mas nunca é censura.

 

O segundo ponto, que vem associado, é o anonimato.  Muitos dos comentários anónimos, agressivos e insultuosos ou apenas malevolentes, derivarão dessa incompreensão. Leitores que vêm dos sítios dos orgãos de comunicação social não apreendem que mudaram de contexto e mantêm a atitude. Por um pormenor eu depreendo essa deriva, nos remoques ao meu próprio anonimato, dado que assino jpt. Ora, qualquer leitor habituado a um blog percebe que os autores estão identificados na (antes) célebre “coluna dos links”. A incompreensão disso, logo invectivadora, mostra o desconhecimento da mecânica de leitura de blogs.

 

Mas o fundamental é a continuidade da atitude de quem chega dos sítios empresariais noticiosos, onde os comentários são muito abrasivos, enfrentando a “comunicação social”, seus ditos interesses esconsos e empresas proprietárias, mas muito também porque não são são interactuantes com os locutores, autores ou seus representantes. Tendem assim a ser espaços de invectiva, visceral e anónima. E daí, num fugaz clic, acedem a espaços, blogs, que são outro campo, o qual possibilita, requer e até potencia outro tipo de atitude dialogante (mesmo que guerreira). E que, acima de tudo, presume outro tipo de identidade: a explícita.

 

Como digo, este é um espaço de conversação. Ainda por cima sem qualquer agenda, explícita ou implícita, não serve os interesses (esconsos ou escancarados) de empresas – contribuirá um poucochito para o tráfego da SAPO mas, caramba, também não é por aí -, partidos ou igrejas, nem dá dinheiro ou estatuto aos bloguistas. É uma tertúlia, gratuita. Com gente que pensa de maneira diferente. O mais normal, educado, curial, numa tertúlia é que as pessoas se apresentem. No mundo real. E neste mundo real de hoje, este espaço antes dito do “éter”, agora falsamente dito “virtual”. Um tipo chega a um espaço, intervém numa conversa e começa por se apresentar.

 

E quando se entra no debate abrasivo, que também tem espaço para existir, isso ainda mais se impõe. Já várias vezes escrevi que não só defendo o direito ao insulto como reclamo o dever do insulto. E pratico-o. Lembro, por exemplo, que há alguns anos, poucos, um blog muito afamado, interessante, publicado por gente de peso intelectual, publicou fotogramas dos filmes roubados a um arquitecto há cerca de 30 anos. Ao ver o postal eu comentei, insultando pais, mães, mulheres e ânus do bloguista e dos seus co-bloguistas. Como é óbvio e nem sequer é preciso explicar porquê. E claro que botando o meu nome (mais o email e essas coisas identificadoras). Passado uns meses um simpático investigador, a quem eu até já apresentara um livro, chamou-me a atenção para uns textos seus que acabara de colocar naquele mesmo blog. Eu respondi-lhe “ai V. escreve no …? então leve lá o link para o meu comentário sobre o que penso de vocês, bloguistas desse tugúrio”, algo que lhe tinha escapado. Ele respondeu-me muito incomodado, ofendido até, e depois nunca mais me disse nada. Um outro bloguista dali, que sempre me mandava carinhosamente os seus livros deixou de mos enviar. Publicou o ano passado um, magnífico. E eu lá o comprei, que isso é outra coisa. 

 

O insulto é isto. É um tipo, estúpido ou não, a invectivar outro(s). Coisa entre pessoas, nomeadas e nomeáveis. Muitos dos insultantes anónimos respondem “que lhe interessa saber o meu nome, se sou pessoa desconhecida?”, no sentido de não ser personagem pública. Mas nós não somos “personagens públicas”, somos pessoas, com nomes. E num espaço conversacional como este é assim que interagimos. Seja para as concordâncias, seja para discordâncias. E muito mais para o insulto. Vem aqui um gajo (gaja?) e diz-me “desonesto”? E nem sequer diz quem é? Um comentador, num recente postal do Pedro Correia, diz que os anónimos animam o blog. Gente a insultar os bloguistas, sem sequer se mostrarem? Isso anima? Isso é bafiento. Pungente. Não é ofensivo. É mesmo pungente.

 

Caramba, que não fique ninguém embuçado nesta sala (de tertúlia). E que, se for caso disso, depois se faça o beija-mão real. E que se cante o fado. E isso sim, anima.

25 comentários em “Os embuçados”

  1. Mas o fundamental é a atitude de quem chega dos sítios empresariais, onde os comentários são muito abrasivos, enfrentando a “comunicação social”, seus ditos interesses esconsos e empresas proprietárias, mas muito também porque não são são interactuantes com os locutores, autores ou seus representantes. Tendem assim a ser espaços de invectiva, visceral e anónima. E daí num fugaz clic acedem a espaços, blogs, que são outro campo, que requer e até potencia outro tipo de atitude dialogante

    Posso estar enganado, mas acho que a violência verbal na comunicação online não se deve tanto à natureza e às regras próprias do espaço que está a ser editado (na dicotomia que deu como exemplo: um sítio de um jornal mais corporativo ou um blog pessoal mais intimista etc). Alguma coisa terá a ver com isso, mas creio que se deve sobretudo:

    1. à ausência dos filtros que existem na comunicação tradicional (como por exemplo a presença física do interlocutor ou um espaço neutro de comunicação) e;

    2. ao facto de que se o autor de pantufas no seu espaço pessoal (no seu blog, em sua casa, no seu computador, etc) — o leitor/comentador também está no seu espaço pessoal (em casa, no seu computador, no seu browser, etc) e daqui resulta que a propriedade e a natureza do espaço do blog fica diluída e que nenhum desses espaços é neutro ou tem uma mediação

    Essas situações são também amplificadas pelo outro facto de que tanto ou autor como o leitor estão, naquele momento, sozinhos. É uma comunicação muda, que não tem o feedback da comunicação presencial. Eventualmente, ao longo do tempo da frequência de um mesmo blog, desenvolve-se alguma relação de cortesia que a frequência regular de um sítio acaba por tonificar (e a partir daí a questão da identificação é irrelevante) mas não é nunca na mesma medida nem na mesma capacidade que a da interacção presencial dentro de um grupo “real”.

    1. Antes de tudo penso que tem razão no que diz. Em relação ao seu ponto 1. o que tentei – de forma atabalhoada, o postal não está muito bem conseguido mas não quis retardá-lo para uma reescrita – é que num sítio de comunicação social os comentadores não interactuam com os autores (presumo que assim seja; ainda que haja a hipótese de alguns jornalistas/articulistas se dedicarem a esse diálogo) e que essa “frieza”, sublinhada pelo caracter empresarial e até “meta-social” (a “comunicação social” muito mal-vista e sentida porque disseminadora de más notícias ou dotada de agendas de esconsas – lendo o Es Nossa Fe dá para ver o verdadeiro ódio que em determinados nichos a Cofina atrai), se traduz numa in-comunicação potenciadora da agressividade, sendo que esta já está presente à partida, dada a tal má-relação com o “poder” associado à comunicação social.

      Quanto a 2. claro que sim, a solidão (o estar sozinho, melhor dizendo) ao teclado induz comportamentos – do comentador e do bloguista – diversos do que a associação real e potencia o “porradismo”. E isto não é, evidentemente, uma mesa comensal, nem há quem peça uma rodada nem um terceiro que matize a agressividade dialogante. Mas eu aludo a uma ética comunicacional: um blog é isto. Para quê replicar modalidades de intervenção típicas de outros contextos assentes noutros princípios e com outros objectivos?

      1. num sítio de comunicação social os comentadores não interactuam com os autores (presumo que assim seja; ainda que haja a hipótese de alguns jornalistas/articulistas se dedicarem a esse diálogo) e que essa “frieza”, sublinhada pelo caracter empresarial e até “meta-social” (a “comunicação social” muito mal-vista e sentida porque disseminadora de más notícias ou dotada de agendas de esconsas – lendo o Es Nossa Fe dá para ver o verdadeiro ódio que em determinados nichos a Cofina atrai), se traduz numa in-comunicação potenciadora da agressividade, sendo que esta já está presente à partida, dada a tal má-relação com o “poder” associado à comunicação social.

        Sem dúvida alguma, também. Até porque as caixas de comentários dos jornais, sobretudo exibindo alguma filiação ideológica, são naturalmente um espaço de cacetada — e daí terem inventado as “denúncias” em que os comentadores residentes e afiliados, correm com os intrusos. Policiamento do cidadão sobre os seus congéneres — tão bonito. É a elevação da cultura democrática que os jornais online hoje em dia gostam de fornecer às massas.

        O post está óptimo, no worries.

        1. Há falta de interacção com os autores massacram-se uns aos outros (a bem do tráfego nos sítios). É natural (no verdadeiro sentido etológico) que depois sigam aos blogs abocanhar os restos que por lá subsistem …

          (obrigado)

        2. Comentadora quase desde que surgiram as caixinhas no Expresso, não mudei postura nem estilo quando, há menos de dois anos, comecei a comentar também na blogosfera.

          Coleccionei inúmeros insultos que me foram endereçados, mas infelizmente quase todos repetidos por falta de originalidade dos muitos insultadores. Coleccionei e colecciono, embora muito raramente devolva galhardetes.

          Por isso, caro V., refuto a tese da solidão ao computador ou do espaço de ninguém ou, até, da ausência de terceira figura: é apenas uma questão de respeito.

          Também é por vezes uma questão culinária, pela salada de falta de Princípios e narcisismo; e embora reconheça validade a todas as opiniões, é difícil encetar ou manter diálogo com alguns comentadores, não pelas opiniões expressadas mas pela forma usada – a falta de respeito que evidenciam pelos outros. Quando os comentários se resumem a isto, coloca-se a questão “expôr a nódoa ou manter a parede limpa?”
          Nós, comentadores, podemos saltar por cima – mas irrita ter que saltar e com isso arriscar perder o pé. Porque os comentários são continuidade do postal, espera o autor e esperamos nós que acrescentem c(v)alor à conversa. E não acusaremos o autor se nos depararmos com uma manta de retalhos? 🙂

          1. Julgo que o comentador não resume a questão à solidão face ao computador. Mas matiza a minha consideração deste espaço blogal como de uma tertúlia real, de um verdadeiro convívio, em que a proximidade, o face-a-face e a intervenção de terceiros, matiza, pela empatia ou por auto-censura, a emergência da agressividade. Pois os princípios que V. refere são existentes mas nessa existência comportam a sua necessária transgressão (eu aludo ao insulto que pratico, o que pode ser considerado uma transgressão desses princípios de urbanidade – eu não o considero assim, mas haverá quem considere; e aduzo aqui, como verdadeira violação de urbanidade, estar a trocar opiniões com duas pessoas que não se apresentam. E, homem da minha geração que sou, ainda posso comprovar alguma abertura para trocar meia dúzia de palavras com um tipo da mesa ao lado sem saber quem ele é, antes da curial entre-apresentação, mas nunca o farei com uma mulher. Mas aqui faço-o, em evidente suspensão até ética). E os limites (auto)impostos a essa trangressão, o evitamento dos tons demasiado abrasivos, a tão comum aqui contestação espúria apenas pela mania de contestar, o insulto imediato, têm como limitação a sanção moral. Ora os anónimos que andam pelos blogs (e pelos sítios da comunicação social) invectivando meio-mundo o que evitam é essa sanção moral. Quando se lhes diz – e às alcunhas também (uma vez, num debate similar, uma dessas anónimas dizia-me que tinha direito aos seus heterónimos, como se fosse um avatar de Pessoa. Há pessoas que não têm mesmo noção de si mesmas) – que se devem apresentar respondem, de modo tifipicado, “quer o meu IP, a minha morada, o meu NIB/NIF/BI?”, como se estivesse em causa uma sanção jurídica, penal, policial, o que mostra bem as visões conspiratórias, meio paranóicas, que se têm da vida. Quando não se trata de intentar sanções jurídicas mas sim de sanções morais – aquele José Silva, nome que será comum mas que não é um difuso “José Silva”, é alguém que tem este tipo de atitudes, e como tal é avaliado, é inserido (ou não) num diálogo. Mas isso são “especificações” que quem chega na mera truculência, vingativa, não apanha, não quer apanhar.

          2. Falei na solidão do computador pois foi a expressão usada antes; a solidão não a defino por quem nos rodeia mas por quem em nós habita. Porque a todas as invocações feitas por jpt e por V., eu evoco a minha experiência e respondo: tudo isso liga-se ou desliga-se com uma coisinha fundamental, o Respeito pelo outro. Porque até para insultar é preciso respeito – não se insulta a indiferença.

            Sobre a urbanidade das apresentações… concordando, nem assim deixo de ouvir quem não se apresenta, que nisto da democracia é um indivíduo, um nome, um voto mas ao indivíduo reconheço o direito do anonimato. Apenas tenho pena da perda de identidade entre comentários – um anónimo não deixa histórico nem fio condutor. E agora sou eu que lhe digo: há 20 anos que sou Sarin. Mas sempre tive um perfil na net que me permitisse mais solidez do que a alcunha – aqui, o sublinhado nesta leva a um perfil e, deste, chega-se a um outro perfil noutra plataforma (Disqus) ou a um blogue ao qual raramente aludo mas onde consta no cabeçalho um i de informação.

            Reconheço o direito ao anonimato. Só não reconheço o direito à intolerância. À falta de respeito, enfim… mas noto com frequência que quem se sente por mim insultado não se apercebe que, a menos que chame imbecil ou idiota, estou a devolver um cumprimento endereçado do centro das próprias insensibilidades. Porque também há o respeito com vistas curtas.

            Enfim, chegamos ao ponto das sensibilidades – são elas, afinal, que nos definem o estilo usado para nos dirigirmos ao mundo, intergaláctico ou microesfera.

          3. Eu reconheço o direito ao anonimato. Mas tenho o direito de me relacionar com ele nos meus termos. Ou optar pela exclusão. Um diálogo, mais do que uma fugaz interacção (a senhora pode-me dizer onde é a rua ..?) presume uma reciprocidade, mesmo que assimétrica, e essa estabelece-se na apresentação, duas (ou mais) pessoas interagindo. NA internet é diferente mas, e não me vou repetir, andar a afrontar outros sem cumprir isso é um entendimento muito pobre …

          4. Esse “mas” foi devidamente sublinhado e reconhecido já noutros postais.

            E obviamente que cada um define os termos que aceita nas conversas em que participa – mais ainda quando estas começam “na casa”, “na mesa da tasca” ou “no burgo” de cada um. (Este burgo é a minha definição, pois quem chega, propositadamente ou por engano, pode passear em silêncio pelas ruas de postais, sentar-se à conversa nas tascas e até optar por ser residente já que chamamos casa aos sítios onde nos sentimos bem).

            Todos os dias são dias para crescermos mais um pouco, na erudição ou na lucidez, na sensibilidade ou nas relações com o mundo. Crescermos ou não depende apenas da dimensão daquilo que nos enche. Que por vezes é também aquilo que nos esvazia por corrosão e cansaço.

          5. Em falei em estar sozinho diante do computador (no nosso espaço) — não tem nada a ver com a solidão. É mais a ideia de um espaço onde o comportamento está um pouco fora das regras sociais.

          6. Assim o compreendi, a esse sentido: sozinho que não solitário. E diante do computador. Mas posso aduzir, no âmbito deste postal, juntando essa situação a uma sensação (condição?) de solidão no mundo, com este protestando, incógnito, através de comentários. Eu, francamente, prefiro protestar assinando …

          7. Eu, francamente, prefiro protestar assinando …

            Porque é o artista principal — os figurantes não precisam de nome

            Não era o Borges que dizia que a História da Literatura seria exactamente a mesma se todos os livros fossem anónimos?

          8. se o Borges diz eu logo aceito. Mas, vamos lá a ver, isto não é literatura, é ramerrame E quanto ao que diz acima eu até de mim mesmo vou mobília, quanto mais o que exagera …

          9. Foi assim que o li; chamar-lhe solidão do computador foi liberdade de estilo, invocação também do algum alheamento que ocorre quando se navega.

  2. Num blogue moderado só há a quantidade de insultos permitida pelos moderadores. Alguns moderadores aceitarão esses insultos como parte do pacote que é um blogue, outros não. O que nenhum deveria aceitar são trocas de insultos entre comentadores, porque há profissionais do insulto que só entram num blogue para contrariar. Acho que foi aqui no Delito que chamaram puta à minha mãe, assim para começo de conversa. Não acho censura cortar comentários desses. Aliás, quem quiser experimentar censura experimente ir discordar em certos blogues de esquerda a ver se publicam.
    Os nomes, pois. Eu realmente apresento-se quando me sento a uma mesa, ou sou apresentado – pessoal, este é o Tó – mas raramente debito o nome completo, muito menos a morada e número de contribuinte. E num café estou a ver as caras. Num blogue não vejo nada, não sei se Fulano se chama Fulano, se é um fulano, vários, ou uma fulana, ou um bot.
    Os administradores dos blogues têm acesso aos IPs, e, se for preciso, às moradas dos IPs – e quanto a mim isso basta. Já notei por alusões que há “vários” comentadores com o mesmo IP, e que há IPs muito suspeitos.
    O “social” da net é quase só lixo. Ainda há dias John Oliver comparou o Facebook a uma sanita, com vantagem para a sanita. As secções de comentários de quase tudo não são “abrasivas”, são uma estrumeira a céu aberto. Se permitem isso em nome da liberdade de expressão estão a prestar um péssimo serviço à liberdade de expressão.
    Eu sou o António, e é esse o meu nome. Se algumas vezes apareço aqui anónimo é porque limpei os cookies. Os meus amigos chamam-me Tó, e alguns nem se devem lembrar do meu nome todo, e eu não sei quem aqui está, não vou pespegar aqui o cartão de cidadão. E para quê? É a coisa mais fácil colocar um nome, uma foto, um link para um perfil – e ser tudo falso.

    1. e, se for preciso, às moradas dos IPs

      Os admins não. Só o ISP (neste caso o fornecer do serviço de internet do comentador) e só com um mandado judicial, felizmente. Ainda não chegámos ao ponto de “muita gente no facebook” querer para isso acontecer. Já basta os culpados sem julgamento.

      Aliás, nessas coisas de culpados só porque acho que sim têm pinta disso só admito que julguem e condenem socialistas sem o devido julgamento.

    2. António V. só não tem razão nessa imagem do Facebook. É um suporte comunicacional, de interacção. É o que as pessoas são. Por ser bloguista, e também por ter escrito na imprensa em Moçambique, para além das relações da vida, tenho imensas ligações no FB. E vejo de tudo, desde as opiniões, experiências, quotidiano, piadas, notícias (para além de ser um suporte apreciável para aceder a jornais e revistas e outras fontes informativas, mas isso parece ser esquecido nessas críticas). Há coisas mais interessantes outras menos, mas isso é como fora do FB.
      Quanto ao que diz sobre os perfis de comentadores – claro que sim, dá para falsificar e há também o manuseio, o apagar de cookies que refere, etc. Mas julgo ser óbvio que eu refiro a atitude subjacente à participação nos blogs, nos comentários: optar por um comentarismo agressivo ou apenas irritante, mas esconso, clandestino, anónimo não se deve às questões tecnológicas que refere. Pode-se comentar anonimamente tipo “muito bem, apoiado”, “interessante”, “não gosto” e pronto. Mas, pelo menos; se se quer vituperar o texto e o autor ao menos então que se ponha o verdadeiro nome. Como eu disse acima o comentário, em especial mas não só se enfático, concorre a uma sanção moral (“o seu texto é maravilhoso, o senhor é genial” concorre imenso para isso, convoca o “quem será este tipo? demente, iletrado, ou está a gozar comigo?”). E é o “risco” dessa sanção moral que dá corpo à proclamação – e é uma cobardia (não por fugir à tal perseguição via IP, ou outra – que nem me passa pela cabeça -, e, já agora, julgo que o SAPO não dá os IPs, mas outros sistemas de blogs dão) – o comentário anónimo que se exime a isso.

      1. O Sapo dá os IP.
        Ou moderação activa ou registo de IP, penso que não há alternativa.

        Depois de ter sido assediada – não o assédio de alguns no Fé! mas o assédio obsessivo, constante e persecutório – demorei algum tempo a ceder a tal invasão de privacidade do outro: o registo do IP usado (Sou das que pergunta se pode gravar o número de onde ligam, aquele mesmo número registado no meu telefone – não por utilitarismo do número, mas por respeito pelo interlocutor). Nunca me escondi nem privatizei o meu perfil, nisso não cedi e espero não ceder, mas repugnava-me poder saber o IP de quem tão diligentemente se fazia sombra. Até que me lembrei que na comunicação toda a mensagem tem um emissor, e que apesar de a minha liberdade acabar onde começa a do outro, não posso dar ao outro liberdade para diminuir a minha. Foi, digamos, uma percepção das proporções. Como mecanismo dissuasor funciona, mas preferia passar sem necessidade de mecanismos tais. O tal respeito.

        1. Mas há aqui uma diferença. Já amigas e bloguistas conhecidas me disseram que tiveram problemas, alguns desagradáveis e outros mesmo graves, devido a assédio – até físico – derivado das interacções bloguísticas/facebuqueiras, e nisso se compreendem os mecanismos de segurança. Mas isso tem outros contornos – isto parece conversa de “género” mas … é-o mesmo, pois um tipo não tem o mesmo tipo de problemas. Eu posso – como já me aconteceu – ficar irado e até mesmo ser pessoalmente prejudicado devido a coisas acontecidas devido ao bloguismo (ou outro suporte) – ser indexado como homofóbico por uma ONG do BE (o que para um antropólogo pode ser letal aí em Portugal), ter textos públicos a pedir o meu despedimento por bloguistas socialistas ou ser listado no meio de bloguistas fascistas por jornalistas conhecidos. Isso irrita, claro, e pode ser prejudicial (e mais quando um tipo não pertence ao meio patrimonializado lisboeta). Mas não são agressões ou assédios pessoais, e isso é algo comum acontecer às mulheres.

          1. Efectivamente, foi quando me descobriu mulher que o irracional agudizou a perseguição. Ao ponto de verificar no meu perfil cada artigo comentado para ir colar peçonha, independentemente do tema. De puta a assassina (por defender o aborto), de apelo à perseguição a ameaças de me procurar, enfim… algo que normalmente ignoraria mas que se tornou impossível ignorar por se meter debaixo dos meus pés. Até quando perguntei em fórum se havia forma de bloquear o acesso a um elemento (não havia; ou tornava privado o perfil ou nada a fazer; bloquear o utilizador apenas me impediria de o ler, não a inversa), a reacção foi pessoalizada – e tenho para mim que foi por aí que a administração da plataforma o sinalizou. Lembro-me de algumas respostas de comentadores, conhecidos apenas do universo “comentador de jornal”, que sendo muitas vezes meus opositores e até me desconhecendo mulher, agiram solidariamente – o que derruba um pouco a teoria de que tal universo seja agressivo e impessoal. É-o também, não apenas.

            Durante anos escrevi sem que na minha escrita transparecesse o meu género – discutiam-se ideias, opiniões, o género não altera a sua validade… Mentira, só depois de um descuidado “obrigada” ter levado à minha identificação como “gaja” é que comecei a ter alguns (poucos, é certo) a mandar-me para a cozinha em vez de discutir futebol ou política, a desvalorizar a opinião que antes combatiam com argumentos e depois tentaram calar com idiotias. Também aí vi solidariedade, e não apenas de benfiquistas ou de gentes de esquerda, o que me enterneceu. A maturidade cívica, como a vejo, consegue encher-me, quando a vejo, de emocionado carinho pelos meus concidadãos. Por vezes uma pessoa quase se esvazia de tal sentimento, ou também quase fenece 🙂

            Quando disse evocar a minha experiência, era a todo este respeito ou à falta dele que me referia. Vale o que vale, a ilustração.

            Conhecer o IP não é espiar – exibir a matrícula do carro não é espiar – mas ainda assim fere a minha sensibilidade ter de lançar mão de tal recurso para garantir um espaço mais saudável e seguro. Não devia ser assim.

      2. Caro jpt, não tenho Facebook. Mencionei o Oliver porque acho que ele notou bem o pior do Facebook e ilustrou o ponto.
        Citando vagamente o Professor Pardal, “nunca se inventará uma máquina tão inteligente que esteja a salvo de haver gente suficientemente burra para usá-la mal”. E eu não estou acima disso.

        1. Ninguém está acima disso.
          Apenas podemos fazer, se quisermos, o nosso melhor esforço para o evitar.

          A comunicação tem demasiado ruído, até de forma e de vício, nosso, do outro e até da envolvente – o que atrapalha por vezes a mensagem. Pelo erro de percepção, viciados que vimos doutras leituras sempre iguais que nos cegam às nuances, pelo preconceito que nos condiciona, pela experiência que nos limita ou liberta, enfim, ruído. O canal apenas acrescenta mais algum, irrelevante para quem se adapta mas não se transforma num alter ego de si.

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