Os comentários da semana


Pedro Correia,

«Patrãozinho? As contradições entre o discurso colonial, pleno de valores humanísticos, e as atrocidades em seu nome cometidas deixaram marcas profundas na sociedade portuguesa.
Muitos, talvez de forma inconsciente, ainda alimentam o imaginário de um Portugal que se julgava escolhido pelo Destino para tirar outros das trevas do atraso cultural e civilizacional. E o reflexo discursivo é o uso do “inho” em vez de negro.

“Sou analfabeto.
A comida das livrarias
É indigerível para mim eu sei.
E sobre isso infelizmente só há duas opiniões
A tua opinião quando me bates.
A minha opinião quando apanho”
José Craveirinha»

 

Da nossa leitora Helena Ferro de Gouveia. A propósito deste post do Rui Rocha.

 

 

«A Rainha não escolheu de livre vontade quem era o seu sucessor, ela antecipou a subida ao trono daquele que pelas leis da Constituição democrática do seu país é o seu herdeiro. Também convém ter em conta que o papel de um monarca não se esgota na impressão emotiva nos seus cidadãos e que reside muito na objectiva eficiência do seu papel na estabilidade dos governos, esses sim democraticamente eleitos, e no zelo pelo correcto funcionamento da res publica. Parece um paradoxo é certo, mas funciona graças a estas famílias cuja máxima é o serviço publico e o distanciamento em relação às manobras políticas e ao espectro partidário, mantendo a imparcialidade necessária à arbitragem do jogo político e assegurando como ninguém mais conseguiria a unidade e a identidade nacionais. Nunca como agora, na Europa, essa coisa essencial e inofensiva (afinal, como se diz no post, não é verdade que a Rainha “não tem muitos poderes”?) é um activo inestimável no património de um povo. Alguma vez um Presidente da República teria esta força? Nunca, pelo simples facto de que é uma caixa de ressonância do sistema partidário e só teoricamente deixa de ter cor política.
A monarquia é, exactamente por “separar as águas”, um regime representativo muito próximo da perfeição, agora sem qualquer risco de perversão, porque limitado aos (afinal poucos) poderes constitucionais. Era bom que se discutisse, sim: talvez se limpassem tantas teias de aranha da cabeça das pessoas (afinal, quem são os conservadores?)
Quanto à empatia pelo novo Rei, a figura da mulher ajudará certamente e, já agora, convém pensar na Rainha de Inglaterra, que não distribui sorrisos e choca pela sua performance excessivamente institucional. Mas que é o orgulho da Nação inglesa.»

 

Do nosso leitor Henrique Pimentel. A propósito deste texto do João André. 

3 comentários em “Os comentários da semana”

    1. É óbvio que não existe. Mas todo o discurso colonialista português assenta numa defesa de supostos valores humanistas, uma cruzada civilizacional e a mitologia em torno do “bom colono” não desapareceu. Como escreveu aqui recentemente jpt em Portugal “indiscutíveis-se” o colonialismo.

      1. Percebo-a. Mas essa do bom colono só pode funcionar por analogia. Se verificar o tipo de colonialismo levado a efeito pelos portugueses, comparativamente, a franceses, ingleses, italianos… direi que estamos no topo.
        No caso do colonialismo português um dos erros, iniciais, foi o de pensar que poderia fazer um Portugal do Minho a Timor, mas só mais tarde compreendeu que assim não era. O professor Adriano Moreira compreendeu isto muito bem. Com erros, nem tudo foi mau.
        Não podemos julgar um tempo à luz do nosso tempo, mas podemos usá-lo como farol.

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