Os arranjos florais da Praça do Império


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Estas saídas maximalistas valem o que valem, mas ainda assim não é escandaloso aventar que Francisco Bethencourt será a figura portuguesa mais relevante das gerações activas nas áreas de ciências sociais/humanidades. Acaba de deixar um interessante texto sobre a polémica dos arranjos florais com brasões municipais coloniais na zona ribeirinha lisboeta.

 

Nele mostra o historial desse ajardinamento (que a maioria desconhece – tal como desconhece os próprios arranjos, já agora). E urge-se contra as petições que o defendem: uma das quais assinei. Tal como botei em tempos um texto em sua defesa.

 

Do texto de Bethencourt retiro: 1) uma ideia central; 2) uma atenção (encetada); 3) uma proposta.

 

1) Aquele arranjo, patrimonial, é datado e foi obra propagandística de um regime colonial injusto e exploratório – e então mobilizador de esforço de guerra. Concordo, sem qualquer dúvida.

 

Poder-se-á dizer que todo o património é datado, que (quase) todo o monumental foi produzido, preservado, reabilitado e, acima de tudo, assim classificado por processos de propaganda dos meios possidentes. Isso é saber básico (dessacralizador), pois necessário, sobre estas questões.

 

Mas sobre isto há dois pontos: nas imediações há um Museu de Arte Popular, construído um pouco antes pelo mesmo poder (injusto e exploratório) e ideologia. Cuja destruição foi há anos impedida, exactamente por ser ele-próprio, o Museu enquanto tal, considerado um património demonstrativo de determinada época. Tal como este jardim é um dado e assim poderá ser apresentado. Não por estagiários de comissários políticos, graduados em doutrina, mas como objecto de época, em si mesmo. Ora a questão aqui tem contornos diferentes pois estes arranjos são apresentados (pela própria Câmara) como “ofensivos”. Ofendem quem? Alguns tonitruantes actuais? Francamente…

 

2) Bethencourt enceta a atenção sobre um ponto central neste episódio, o toponímico. Como também o referi, ele lembra que os arranjos florais estão sitos na “Praça do Império”. Ora o arreganho (da edilidade, dos activistas, dos académicos) contra tais brasões associado ao silêncio sobre esta toponímia mostra mesmo a superficialidade destas críticas, a sua propensão para o mero “show-off”. Felizmente que alguém com o peso de Bethencourt o refere. Pois como contestar a minudência e esquecer o pormaior simbólico?

 

Mas recordo que na exacta era em que o Estado Novo tardio, já beligerante, instalou estes brasões municipais coloniais também edificou em Lisboa um bairro multiclassista, os Olivais, que é um explícito “bairro colonial”, e no mesmo eixo de conteúdos – nomeou os arruamentos com todos os municípios e localidades coloniais e com os soldados portugueses mortos em África. Ora a “ofensa” com estes brasões fronteiros aos Jerónimos coexiste com o silêncio diante da toponímia afro-colonial de um (ex-)subúrbio lisboeta, propaganda que reconstruía (divulgava, impregnava) o Império e consagrava os seus defensores – e isso, repito, numa urbanização que se pretendia, e foi, habitada por várias classes/estratos. Também nisto se mostra a superficialidade argumentativa protestatória destas críticas, o tal “show-off”.

 

A qual também denota outro vector superficializador: uma visão urbanística restrita ao “turístico” vigente, a preocupação com o simbólico patente numa zona “nobre”, “histórica” e assim “patrimonial” e a desatenção pela cidade habitada. Vivida, se se quiser ser radical. No fundo, trata-se de uma mescla do “épater le bourgeois” com o “para inglês [de facto “americano” de campus] ver“.

 

(Não que eu defenda a reforma toponímica dos bairros lisboetas. Sim a sua vivificação, se para isso houver agentes culturais. E não a defendo pois não acredito que os transeuntes que cruzem o popular “Bairro das Colónias” – como ainda patente nas placas camarárias – e partam da Praça das “Novas Nações”, sempre dita das “Colónias”, e cruzem da rua do Zaire até à de Moçambique, antes de ascenderem até à rua Newton ou à Poeta Milton, antes de chegarem às ruas de Liverpool e de Manchester, se sintam empolgados na defesa do Mapa Cor-de-Rosa e gritem, patriotas imperialistas, “contra os bretões marchar, marchar“).

 

3. Atento à questão toponómica, como englobante do tema floral, Bethencourt propõe a mudança de nome daquela praça face aos Jerónimos. O que tem pertinência total para quem refute aqueles brasões. Mas é tão interessante a sua proposta. Pois a esta vetusta “Praça do Império”, símbolo do mau antes, propõe que se suceda uma “Praça da Amizade”, decerto para simbolizar o bem hoje e amanhã.

 

Ora esta “amizade” é o eco, até inconsciente, do ideário da “Lusofonia”, essa proclamação acrítica da amizade/”comunhão de sentimentos” que une povos do ex-império injusto. De facto, trata-se do mero aggiornamento pós-Abril do lusotropicalismo, o reviver da comunidade de língua e sentimentos já proposta pelo tardo-salazarismo. Isto apesar de ser Bethencourt insuspeito de haver propagandeado qualquer lusofonice ao longo dos anos. Ou seja, isso é o que veicula apesar dele-próprio. Sinal do peso, subreptício, das ideologias. Mesmo num intelectual deste quilate.

 

4. É necessário purgar o património para enfrentarmos a história e melhorarmos o actual? Ok. Arranquem-se os tais floreados colonialistas. E mude-se o nome da praça tão simbólica, cartão de visita lisboeta. Substitua-se por “Praça da Diplomacia”, simbolizando uma nova era de negociações constantes entre iguais, confrontando interesses múltiplos, divergentes, contrastantes, conflituantes, convergentes, belicosos e, por vezes até, amistosos. Ou seja, depuremo-nos. Dos trinados estatais, veiculados pelos seus contratados. E, acima de tudo, reconheçamos a realidade e coloquemo-la inscrita na toponímia, se esta necessariamente “iluminista”.

 

5. E mais, bem para além desse grande intelectual que é Francisco Bethencourt: deixemo-nos de mimetizar os EUA. Nos quais as “relações raciais” (velho epíteto, a la Boxer) entre “negros” e “brancos” (e até “latinos”) advieram historicamente do comércio de escravaturas e da forma como estas foram sendo codificadas e perpetuadas em XVII e XVIII. E percebamos que as nossas “relações raciais” (“negros”/”brancos”) foram fundamentalmente matrizadas não no comércio escravista mas desde o finalíssimo XIX, num extremar de desvalorização racial de negros e mestiços. Concepções e práticas que foram então alteradas, sistematizadas e divulgadas via progressiva generalização do ensino e, depois, popularizadas pela efectiva colonização demográfica. Ou seja, em XX. Entenda-se, I República e Estado Novo.

 

Assim sendo, quer-se afrontar a memória histórica do que constituiu o racismo colonial e suas actuais refracções através de “intervenções” progagandísticas sobre o “património”? Tão extirpada foi após 1974 a toponímia e a monumentália dedicada ao Estado Novo que o caminho fácil é “intervencionar” os parcos resquícios das Comemorações Henriquinas de 1960 e afins.

 

Eu diria o contrário. Mais vale deixar em paz os bustos dos Diogo Cão, Bartolomeu Perestrelo e semelhantes. Pois são apenas anacronicamente atacáveis e, de facto, não foram constitutivos das práticas e concepções vigentes no colonialismo. Para isso dediquem-se a derrubar as evocações desses grandes agentes racializadores e colonizadores, os Afonso Costa e seus congéneres e seguidores, já que de Salazar e seus pouco resta.

 

Mas isso, “intervencionar” os grandes vultos da colonialista e racista I República, invectivar os “pais fundadores” deste regime actual e, em especial, os ascendentes do nosso Partido Socialista? Nem pensar. Pois isso não colheria simpatia estatal, não dá postos de trabalho. Nem dinheiro. E sempre são, para já, 15 milhões. O que não é pouco.

35 comentários em “Os arranjos florais da Praça do Império”

  1. Esse seu texto que em tempos botou acaba assim (permita-me que o site):

    “Deixem-se lá ficar os brasões municipais. E as avenidas Lourenço Marques, as ruas Vila Pery, João Belo, Vila Cabral, António Enes, Cidade de Salazar, etc, aqui nos Olivais. E explique-se, enquadre-se (até com informação actualizada, como juntando-lhes, mas sem os substituir, os novos nomes, mapas, histórias locais, etc) essas realidades. Saiba-se a história. Não apenas a gesta dos “egrégios avós”. Mas também a destas reformulações feitas pelos nossos “tios” embrenhados em manter algo que, de tão serôdio, não tinha já razão de ser. Saibamos como foi.

    E para isso, se for possível, e tão necessário o é, mudemos esta gente aboletada no poder.”

    E a isto, tudo se resume. Ou deveria resumir, se o bom senso tivesse alguma relevância. Mas os 15 milhões – e mais do que isso haverá, de caninas fidelidades e incondicionais submissões anteriores ao bodo – mandam muito. Vivemos uma lavagem cerebral feita com o zelo do fanatismo.

    Costa

  2. Os brasões não estão neste momento na praça, não são algo que ficou de um passado. Se os reconstruirmos, estamos a dizer que se mantém como válidas as razões que levaram à sua colocação.
    Os Jerónimos que se vêm na fotografia não são iguais ao edifício que D, Manuel I mandou construir, grande parte deles foram reconstruídos no século XIX. Não passa pela cabeça de ninguém reconstruir o monumento à maneira original e chamar os frades de S. Jerónimo para o habitarem. Esse tempo findou. Não quer dizer que o que restou do monumento não seja uma memória do passado.
    Para os florões parece que qualquer alteração é lesa pátria. Talvez porque as pessoas ainda pensam que estamos em 1960.
    De qualquer modo torna-se cansativo este contínuo bater no peito em defesa da memória do passado.

    1. Obrigado pelo comentário. Tem razão no que diz sobre o estado arruinado dos arranjos florais. Quanto ao resto que diz atrevo-me, sem qualquer atrevimento, a convidá-la para ler o meu postal.

  3. Grande (invejável) desabafo. Revigorante catarse.
    De onde semelhante letrado opinista medrou há outros. Pelo que provavelmente teremos mais de este excelente “ao correr da pena”, ou melhor, “debicar teclado”?.

    1. Obrigado. Sim, espero que haja outros a terem paciência para botarem. Sem serôdias proclamações ultra-nacionalistas (e nos últimos dias houve muitas) e sem demagogias anticolonialistas em 2021.

  4. Na luta política e ideológica não há apenas pessoas-mártires, há também objetos-mártires.
    Esses ícones servem, simultâneamente, de vitória e de derrota. Consoante o lado que faz, e o que sofre.
    Em Democracia serão os votos que reverterão ou manterão as decisões, consoante o lado que obtiver «maioria».
    A decisão de retirar os Brasões dará votos a uns, e retirará a outros.
    À medida que as contas forem feitas, o que hoje é, amanhã poderá não ser.

  5. Precisamos de monumentos à ética republicana.
    Ainda não se lembraram de arrasar o Portugal dos Pequenitos, é o que vale estar na Província.

      1. o mosteiro dos jerónimos está à disposição de todos os que o queiram ver, já essa lei não é monumento acessível a todos. Tod@s.

  6. Os 15 milhões já são certos? Ou são ainda uma recomendação da AR (que vá, o Governo terá de acatar para sossegar o Bloco?)

    1. Está em Diário da República. Mas, claro, nisto das dotações orçamentais são insondáveis os caminhos do Senhor.

      Mas isto já não é o Bloco, trata-se mesmo do pós-Bloco. E quem quiser perceber as dinâmicas que comandam este troar actual em vez de ir ler a boa historiografia sobre escravismo e sobre o regime colonial africano, libertando-se das lérias lusotropicais, o que deve fazer é procurar o discurso do exímio tacticista António Costa na noite das últimas eleições legislativas, e atentar no ápice sorridente que se lhe escapou ao saudar a eleição da deputação do Livre. E basta ver o coro de velhos turcos que apoiam esta cena, pejado de plumitivos socratistas.

      1. Há uns anos um conhecido líder partidário não se referiu ao elemento etíope da troika como um “senhor de cor” ou parecido?

      2. Glória às dotações, cativações e execuções orçamentais… Só o JPT para me fazer ir pescar o discurso de vitória do PM… Ainda não cheguei à parte que refere, tenho de ver em doses moderadas que é muito entusiasmo junto para a minha pessoa.

  7. 1. Esta disputa sobre os “símbolos”, podemos vê-la também no uso do “Hino à Alegria” de Beethoven.
    2. Pois, como escreveu Slavoj Žižek (2002), além de ser atualmente o hino oficioso da União Europeia, foi usado por todos os que foram confessos inimigos ideológicos. Concretamente Romain Rolland (chamou-lhe “a Marselhesa da humanidade”), Ian Smith (no regime do apartheid na Rodésia), Hitler (nas Reichmusiktage), Estaline, Abimael Guzman (do Sendero Luminoso), Bush, Saddam, e outros casos.
    3. Talvez seja uma fase da evolução humana.
    4. O ser-humano talvez ande perdido de si; ou queira deixar de ser o que é; ou apenas esteja em busca de outra identidade.
    5. Ou talvez um sinal antecipador, de uma reconfiguração política das fronteiras dos actuais países.

  8. “Poder-se-á dizer que todo o património é datado, que (quase) todo o monumental foi produzido, preservado, reabilitado e, acima de tudo, assim classificado por processos de propaganda dos meios possidentes.”

    Tal como quando é descurado, negligenciado e deixado ao abandono. Para que depois se possa dizer, com toda a cara de pau, “que não há retirada de brasões da Praça do Império porque não existem há décadas” (in DN).

  9. E por que não abordar o tema sob o ponto de vista da arte? Sim, porque a jardinagem e a paisagística não são apenas técnica agronómica.
    E aqui estamos de facto perante um exemplar único da mosaicultura, pela sua raridade, extensão, localização e simbolismo. Natureza e estética irmanadas num singular ex-libris da cidade e do país, que não tem por que ser efémero, e muito menos vilipendiado.

  10. E vem mais uma vez o agora auto-apodado de injustiçado José Sá Fernandes, qual patego a precisar de pisar os dentes de um ancinho, dizer que os brasões teriam de ser refeitos, porque os que lá estão não são recuperáveis.
    Como se não fosse da própria natureza da arte em questão o renovar, o refazer, o recuperar permanentes, no respeito pelo ciclo e caducidade das plantas usadas e domadas com engenho.
    Ou como se alguém estivesse a defender que os buxos que ainda lá se mantêm, apesar de todo o desleixo a que foram votados, pela vereação dele e doutros comparsas, são espécies protegidas ou de valor ambiental incalculável, e por isso intocáveis.

  11. Algo me diz que se os ditos brasões ostentassem alguma foice e martelo, ou um crescente, não estaríamos agora a lamentar o triste estado em que se encontram. Nesse caso, imagino o quão bem cuidadinhos estariam….

    1. Discordo de si. Se ali estivessem símbolos da foice e martelo já teriam sido retirados. Já o crescente, bem pelo contrário, para não se ofenderem … sensibilidades culturais.

  12. Outra falácia: que pretendem reabilitar o projecto original de Cottinelli Telmo.
    Como se o projecto não tivesse sido assumidamente provisório; como se não houvesse no seu desenho um propositado enquadramento com os dois pavilhões da Exposição de 1940 (também eles provisórios); e como se o arquitecto não tivesse defendido convictamente uma vista desimpedida entre o Mosteiro e o Tejo.

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