
Por volta dos meus 35 anos, tinha o cabelo mais branco do que a minha mãe e era senhora para “uns quarenta e tal”, de acordo com a opinião geral das pessoas que comigo privavam, mesmo que fosse por alguns minutos. Tenho ideia de uma reportagem da BBC que produziu os respectivos agradecimentos, e em que elogiavam a Dulce como “a smashing old girl”. Tinha 40 anos. Nesse mesmo ano, a minha filha entrou para a Faculdade de Letras e pediu-me um presente para comemorar o acontecimento. Pediu-me que pintasse o cabelo. Gostei de pintar com madeixas. Ficou bem. Deixou-me mais leve, talvez com menos 5 anos em cada perna, mas também apreensiva por ter sido influenciada por opiniões alheias, porque nunca fez muito o meu género. De um momento passei de parecer dez anos mais velha a parecer 10 anos mais nova. Isto requeria muita atenção, não me fosse tornar na segunda D. Maria Alpalhão, que parou nos 50 anos, de tal modo que o próprio filho chegou ao ponto de lhe ganhar por quase seis anos em idade.
Durante 16 anos fui escrava da tinta. É que não tinha volta a dar à maldita raiz! Ou pintava, ou ficava com uma bandolete branca que ao longe dava a ideia de uma cabeça partida e enfaixada. Era feio, dava a ideia de desmazelo, de relaxo, de enxovalho. Um dia o cabeleireiro ia tendo um chilique quando lhe disse que cortasse até a tinta sair toda. Tinha três dedos de cabelo branco. Esteve meia hora a convencer-me que para ficar com corte ficava à pente 4, o que seguramente iria odiar depois. Talvez tivesse razão, mas ficou a promessa de que o faria quando nascesse a minha neta. Foi doloroso de ver, mas pronto. Acabou-se a tinta. Cabelo curto, bob, sei lá, mas sem outra cor que não a própria.
Sempre fui uma pessoa aberta a ideias, ideais, opiniões, debato mas aceito os pontos de vista dos outros, porque Deus nos livre da mentalidade de carneirada. Mas no que toca a colorações capilares, era finca-pé aquela conversa troca-tintas e manter o único ponto de vista válido, assertivo e exacto, o meu.
Ao fim ao cabo, com tinta ou sem tinta, a idade acaba sempre por nos apanhar.

Portanto, durante 16 anos a Dulce foi obrigada a, quer quisesse quer não, ir meia dúzia de vezes por ano ao cabeleireiro pintar o cabelo, e pagar por esse serviço.
Chega-se à conclusão que pintar o cabelo é como tomar cocaína na forma de crack, toma-se uma vez e fica-se logo viciado, e daí para a frente é sempre a gastar dinheiro com a maldita droga!
Sob determinado ponto de vista, LL, é mais ou menos isso.
Foi uma espécie de contracto socio-culturo-familiar, em que o custo, o valor e o benefício pesavam enormemente e se degladiavam constantemente.
Terá no fundo sido uma vitória da preguiça? Quando confrontada com essa explicação não encontrei fundamento credível para a rebater, essa é que é essa.
Nem laivos de comparabilidade, caro Luís Lavoura. Nem resquícios aproximativos.
Cocaína fica-se regalado por dentro, tinta no cabelo fica-se ornado por fora. Neste caso específico, ornada.
Ora como o que não se vê não se sabe, consequentemente não alegra nem entristece, satisfaça-se a vida com o que se mostra.
Viva, Maria Dulce: tem andado muito arredada destas lides. Que “passou-se?”

Olá Cunhado! Viva!
Uma semana e tal após me fartar de ler e ver TV todos os dias, e também porque a neta estava triste e com saudades, convenci o meu marido a fazer uma cena de filme por dia o melhor de 10 takes, cinco dias, cinco filmes, assim uma coisa em bom, que é como quem diz, palhaçada total.
Tenho perdido o tempo que tenho a mais com esses projectos, mas se tem ajudado a passá-lo rápido e à gargalhada? Nem lhe conto!
No dia 1 de Junho já regresso ao trabalho e ao “novo normal”🙄🙄🙄🙄, ou seja … ainda não sei bem.
Maravilha!
Assim todos aderissem ao mesmo, brincar e e soltar a criatividade para o “novo normal” de distanciamento social, – mas nunca marital, – que o safado do bicho ia ver-se tão gozado que dava de frosques num ápice.
Pois o cabelo, o meu, também foi coisa que deu brado, foi épico.
Nasci com ele todo puxado para a frente e durante toda a minha vida manteve a sua indómita vontade. Nunca consegui mudar nada nele, – o que a bem da verdade pouco me importava até as meninas começarem a reparar a preceito nas popas desses espalhadores da desgraça dos infelizes desvalidos de cabelos esticadinhos para a frente, – James Dean, Elvis, Rock Hudson, Ricky Nelson e outros brilhantinas da mesma maléfica estirpe destroçavam corações, relegando-me para o último patamar da visualização feminina da época, senão mesmo ao mais vergonhoso ostracismo.
Ora aquela malta de cabelos domáveis, deram em plagiar os ditos e alcançaram sucesso ímpar. Adesão feminina por unanimidade.
Ainda havia uma ou outra menina de coração mais generoso que aventava: mas ele até é um gajo porreiro, que eu pedi-lhe para dizer à minha mãe que não fui ao baile e estive a estudar com a irmã dele, e ele foi; mas depois as outras gozavam com ela e as popas voltavam à ribalta.
Foram tempos agonizantes.
Eis senão quando e sem que indícios precursores o dessem a entender: Aleluia! faz por ali a sua aparição o doutor Jivago e a minha desfavorecida existência mudou para incomparavelmente muito melhor.
Um excelente fim-de-semana, saúde e divertimento.
Mas sabe uma coisa? Muitos dos rockabillies do meu tempo de miúda acabaram por se resignar à moda do risco ao lado, daqueles riscos de 20cm com cobertura, capice?
Bom fim de semana
Fez muito bem em livrar-se da tinta, Maria Dulce. É um descanso e o penteado fica muito bem. Como fez bem em pintar quando lhe apeteceu.
Lembro que aos 19 anos no bar da faculdade uma amiga olhava para mim horrorizada e dizia-me: já tens mais brancas, vais ficar uma madeixa branca! Ri-me, sabia que era coisa de família, que a minha avó e o meu pai tinham tido o cabelo todo branco ainda na casa dos 30. Aos 35 anos, apesar de não ter ficado com o cabelo mais branco do que castanho, deu-me um vaipe e comprei uma caixa de tinta, mas felizmente nunca cheguei a ter coragem de usar. Apesar de insistências várias, sobretudo nos cabeleireiros onde só entro para cortar o cabelo. A ideia de ter uma cor que não fosse a minha causava-me repulsa. E não tenho nada contra a tinta, nos outros fica muito bem. Por isso me surpreendeu uma colega de trabalho ao dizer-me (simpática) que admirava as pessoas que tinham coragem de assumir as brancas. Vejo a coisa ao contrário, precisaria de ousadia e lata para me ver diferente daquilo que sou. Isso sim.
No desempenho das minhas funções, faço por “parecer bem”, o que na minha opinião significa que o todo no geral seja agradável do ponto de vista dos sentidos.
Mas tenho que me sentir bem nesse bem parecer.
Finalmente consegui juntar o útil ao agradável, e Isabel, nunca me senti tão bem… bem se tivesse menos 10kg, seguramente sentir-me-ia melhor, mas isso é matéria para outras lides.
Au naturel, tchin tchin!
Tchin. tchin! 🙂
E não se martirize com os10kg, no meu caso são 40 a mais e sei que a coisa vai regressar aos eixos. Tudo tem os seus tempos.
sei que a coisa vai regressar aos eixos
Costuma-se perder o peso que se tem a mais antes de morrer.
Obrigadinha pelo ânimo, ó Lavoura.
Isabel, não sei se dá para animar, mas o que o Luis disse não é verdade. Muitas vezes, para notarmos alguma diferença, temos de esperar alguns dias depois de mortos “:)
Um diz mata, o outro esfola… é tão mórbido que só a rir. Mesmo.
Ah bom, Vorph, assim estou muito mais animada. Nesse caso não corro o risco de recaídas. 😉
Credo, LL, sempre tétrico.
Posso juntar-me ao clube, Isabel?
Também nunca pintei o meu. Cheguei a pôr aquelas coisas para dar reflexos acobreados, que saíam ao fim de 2/3 lavagens, mas quando apareceram os brancos deixei de pôr (aliás, era a cabeleireira que punha – e até deixei de ir lá para não me aborrecer). Descobri que era capaz de cortar o cabelo como eu queria e tem sido um descanso… e um ganho de tempo e dinheiro.
O meu receio era ficar com um ar desleixado, mas acho que consegui gerir bem o problema : tenho madeixas naturais e só tenho pena que não esteja já todo branco, assim como o da Dulce.
🌻
Maria
Tchin tchin, au naturel Maria!

É um tipo de liberdade muito pessoal.
Viva a solidariedade das brancas, Maria 🙂
E viva a liberdade. Que cada uma de nós faça aquilo que lhe dê na real gana.
Bom fim-de-semana.
Confesso que já pintei (oxigenei, pintei, já não me recordo) a barba. Mas não para tapar as brancas. Achava, na altura, que o tom da minha barba não ia com a do meu cabelo. Agora já não.
Se vamos tomar a oxigenação como tinta, tenho que confessar que comecei a oxigenar o buço com, sei lá, 14 anos? Sempre tive uma farta bigodeira, mas isso era coisa que se tratava indoors e rapidamente com um pó que se misturava com creme e do qual agora não me lembro o nome. Era eficaz, mas não o ideal, ao ponto de brilhar ao sol e o reflexo transparecer nas fotos. Isto até ao advento da cera depilatória, era o que se podia fazer para efeminar um pouco mais a pubredade .

Não sei se a oxigenação do Pedro o torna considerado na familía dos pintalgados ( e ex, claro).
Beijo grande para si e os seus.
Obrigada! Beijoca para si!
É mais prático sem tinta. Mas passamos a ter a nossa idade. O que, bem vistas as coisas, pode ser uma honestidade física e até uma adequação da parte ao todo. Uma consonância até mais harmoniosa.
Bom fim de semana, Dulce.
É muito mais prático e saudável, Maria. O meu cabelo estava a ficar fraco com camadas sobre camadas de tintas e peróxidos durante anos a fio . Parecer ter a idade que tenho, não me incomoda nada. Como diz o outro, a idade é um estado de espírito. Sou uma jovem então. Os anos não me pesam, a gordura, essa pesa um bocado, mas depois de 65 dias em casa, uma Maria Mexida como eu , tem que ser baby steps.

Peço desculpa, Bea. Estava a falar por tepefone com a Maria e…
E quero eu ser uma jovem de espírito… ai ai
Enquanto não tive brancos e o meu cabelo era todo preto, até de vermelho pintei. Assim que apareceram os brancos, acabaram-se as pinturas e os cabeleireiros não implicam. E, mesmo com as minhas madeixas brancas e onduladas, vai-se lá saber porquê nascem assim, dão-me sempre menos 10 a 15 anos. Cabelo preto com raiz branca ia ficar uma fortuna e sinto-me bem assim!!! Bom fim de semana a todos.
Tchin tchin! BFS