O único ponto de vista


Maria Dulce Fernandes,

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Por volta dos meus 35 anos, tinha o cabelo mais branco do que a minha mãe e era senhora para “uns quarenta e tal”, de acordo com a opinião geral das pessoas que comigo privavam, mesmo que fosse por alguns minutos. Tenho ideia de uma reportagem da BBC que produziu os respectivos agradecimentos, e em que elogiavam a Dulce como “a smashing old girl”. Tinha 40 anos. Nesse mesmo ano, a minha filha entrou para a Faculdade de Letras e pediu-me um presente para comemorar o acontecimento. Pediu-me que pintasse o cabelo. Gostei de pintar com madeixas. Ficou bem. Deixou-me mais leve, talvez com menos 5 anos em cada perna, mas também apreensiva por ter sido influenciada por opiniões alheias, porque nunca fez muito o meu género. De um momento passei de parecer dez anos mais velha a parecer 10 anos mais nova. Isto requeria muita atenção, não me fosse tornar na segunda D. Maria Alpalhão, que parou nos 50 anos, de tal modo que o próprio filho chegou ao ponto de lhe ganhar por quase seis anos em idade.
Durante 16 anos fui escrava da tinta. É que não tinha volta a dar à maldita raiz! Ou pintava, ou ficava com uma bandolete branca que ao longe dava a ideia de uma cabeça partida e enfaixada. Era feio, dava a ideia de desmazelo, de relaxo, de enxovalho. Um dia o cabeleireiro ia tendo um chilique quando lhe disse que cortasse até a tinta sair toda. Tinha três dedos de cabelo branco. Esteve meia hora a convencer-me que para ficar com corte ficava à pente 4, o que seguramente iria odiar depois. Talvez tivesse razão, mas ficou a promessa de que o faria quando nascesse a minha neta. Foi doloroso de ver, mas pronto. Acabou-se a tinta. Cabelo curto, bob, sei lá, mas sem outra cor que não a própria.
Sempre fui uma pessoa aberta a ideias, ideais, opiniões, debato mas aceito os pontos de vista dos outros, porque Deus nos livre da mentalidade de carneirada. Mas no que toca a colorações capilares, era finca-pé aquela conversa troca-tintas e manter o único ponto de vista válido, assertivo e exacto, o meu.
Ao fim ao cabo, com tinta ou sem tinta, a idade acaba sempre por nos apanhar.

28 comentários em “O único ponto de vista”

  1. Portanto, durante 16 anos a Dulce foi obrigada a, quer quisesse quer não, ir meia dúzia de vezes por ano ao cabeleireiro pintar o cabelo, e pagar por esse serviço.
    Chega-se à conclusão que pintar o cabelo é como tomar cocaína na forma de crack, toma-se uma vez e fica-se logo viciado, e daí para a frente é sempre a gastar dinheiro com a maldita droga!

    1. Sob determinado ponto de vista, LL, é mais ou menos isso.
      Foi uma espécie de contracto socio-culturo-familiar, em que o custo, o valor e o benefício pesavam enormemente e se degladiavam constantemente.
      Terá no fundo sido uma vitória da preguiça? Quando confrontada com essa explicação não encontrei fundamento credível para a rebater, essa é que é essa.

    2. Nem laivos de comparabilidade, caro Luís Lavoura. Nem resquícios aproximativos.
      Cocaína fica-se regalado por dentro, tinta no cabelo fica-se ornado por fora. Neste caso específico, ornada.
      Ora como o que não se vê não se sabe, consequentemente não alegra nem entristece, satisfaça-se a vida com o que se mostra.

      Viva, Maria Dulce: tem andado muito arredada destas lides. Que “passou-se?”

      1. Olá Cunhado! Viva!
        Uma semana e tal após me fartar de ler e ver TV todos os dias, e também porque a neta estava triste e com saudades, convenci o meu marido a fazer uma cena de filme por dia o melhor de 10 takes, cinco dias, cinco filmes, assim uma coisa em bom, que é como quem diz, palhaçada total.
        Tenho perdido o tempo que tenho a mais com esses projectos, mas se tem ajudado a passá-lo rápido e à gargalhada? Nem lhe conto!
        No dia 1 de Junho já regresso ao trabalho e ao “novo normal”🙄🙄🙄🙄, ou seja … ainda não sei bem.

        1. Maravilha!
          Assim todos aderissem ao mesmo, brincar e e soltar a criatividade para o “novo normal” de distanciamento social, – mas nunca marital, – que o safado do bicho ia ver-se tão gozado que dava de frosques num ápice.

          Pois o cabelo, o meu, também foi coisa que deu brado, foi épico.
          Nasci com ele todo puxado para a frente e durante toda a minha vida manteve a sua indómita vontade. Nunca consegui mudar nada nele, – o que a bem da verdade pouco me importava até as meninas começarem a reparar a preceito nas popas desses espalhadores da desgraça dos infelizes desvalidos de cabelos esticadinhos para a frente, – James Dean, Elvis, Rock Hudson, Ricky Nelson e outros brilhantinas da mesma maléfica estirpe destroçavam corações, relegando-me para o último patamar da visualização feminina da época, senão mesmo ao mais vergonhoso ostracismo.
          Ora aquela malta de cabelos domáveis, deram em plagiar os ditos e alcançaram sucesso ímpar. Adesão feminina por unanimidade.
          Ainda havia uma ou outra menina de coração mais generoso que aventava: mas ele até é um gajo porreiro, que eu pedi-lhe para dizer à minha mãe que não fui ao baile e estive a estudar com a irmã dele, e ele foi; mas depois as outras gozavam com ela e as popas voltavam à ribalta.
          Foram tempos agonizantes.
          Eis senão quando e sem que indícios precursores o dessem a entender: Aleluia! faz por ali a sua aparição o doutor Jivago e a minha desfavorecida existência mudou para incomparavelmente muito melhor.

          Um excelente fim-de-semana, saúde e divertimento.


          1. Mas sabe uma coisa? Muitos dos rockabillies do meu tempo de miúda acabaram por se resignar à moda do risco ao lado, daqueles riscos de 20cm com cobertura, capice?
            Bom fim de semana

  2. Fez muito bem em livrar-se da tinta, Maria Dulce. É um descanso e o penteado fica muito bem. Como fez bem em pintar quando lhe apeteceu.

    Lembro que aos 19 anos no bar da faculdade uma amiga olhava para mim horrorizada e dizia-me: já tens mais brancas, vais ficar uma madeixa branca! Ri-me, sabia que era coisa de família, que a minha avó e o meu pai tinham tido o cabelo todo branco ainda na casa dos 30. Aos 35 anos, apesar de não ter ficado com o cabelo mais branco do que castanho, deu-me um vaipe e comprei uma caixa de tinta, mas felizmente nunca cheguei a ter coragem de usar. Apesar de insistências várias, sobretudo nos cabeleireiros onde só entro para cortar o cabelo. A ideia de ter uma cor que não fosse a minha causava-me repulsa. E não tenho nada contra a tinta, nos outros fica muito bem. Por isso me surpreendeu uma colega de trabalho ao dizer-me (simpática) que admirava as pessoas que tinham coragem de assumir as brancas. Vejo a coisa ao contrário, precisaria de ousadia e lata para me ver diferente daquilo que sou. Isso sim.

    1. No desempenho das minhas funções, faço por “parecer bem”, o que na minha opinião significa que o todo no geral seja agradável do ponto de vista dos sentidos.
      Mas tenho que me sentir bem nesse bem parecer.
      Finalmente consegui juntar o útil ao agradável, e Isabel, nunca me senti tão bem… bem se tivesse menos 10kg, seguramente sentir-me-ia melhor, mas isso é matéria para outras lides.
      Au naturel, tchin tchin!

    2. Posso juntar-me ao clube, Isabel?
      Também nunca pintei o meu. Cheguei a pôr aquelas coisas para dar reflexos acobreados, que saíam ao fim de 2/3 lavagens, mas quando apareceram os brancos deixei de pôr (aliás, era a cabeleireira que punha – e até deixei de ir lá para não me aborrecer). Descobri que era capaz de cortar o cabelo como eu queria e tem sido um descanso… e um ganho de tempo e dinheiro.
      O meu receio era ficar com um ar desleixado, mas acho que consegui gerir bem o problema : tenho madeixas naturais e só tenho pena que não esteja já todo branco, assim como o da Dulce.
      🌻
      Maria

    1. Se vamos tomar a oxigenação como tinta, tenho que confessar que comecei a oxigenar o buço com, sei lá, 14 anos? Sempre tive uma farta bigodeira, mas isso era coisa que se tratava indoors e rapidamente com um pó que se misturava com creme e do qual agora não me lembro o nome. Era eficaz, mas não o ideal, ao ponto de brilhar ao sol e o reflexo transparecer nas fotos. Isto até ao advento da cera depilatória, era o que se podia fazer para efeminar um pouco mais a pubredade .
      Não sei se a oxigenação do Pedro o torna considerado na familía dos pintalgados ( e ex, claro).

  3. É mais prático sem tinta. Mas passamos a ter a nossa idade. O que, bem vistas as coisas, pode ser uma honestidade física e até uma adequação da parte ao todo. Uma consonância até mais harmoniosa.
    Bom fim de semana, Dulce.

    1. É muito mais prático e saudável, Maria. O meu cabelo estava a ficar fraco com camadas sobre camadas de tintas e peróxidos durante anos a fio . Parecer ter a idade que tenho, não me incomoda nada. Como diz o outro, a idade é um estado de espírito. Sou uma jovem então. Os anos não me pesam, a gordura, essa pesa um bocado, mas depois de 65 dias em casa, uma Maria Mexida como eu , tem que ser baby steps.

  4. Enquanto não tive brancos e o meu cabelo era todo preto, até de vermelho pintei. Assim que apareceram os brancos, acabaram-se as pinturas e os cabeleireiros não implicam. E, mesmo com as minhas madeixas brancas e onduladas, vai-se lá saber porquê nascem assim, dão-me sempre menos 10 a 15 anos. Cabelo preto com raiz branca ia ficar uma fortuna e sinto-me bem assim!!! Bom fim de semana a todos.

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