O trágico destino dos escritores


Pedro Correia,

Foi só há pouco tempo, ao ler um notável ensaio de William Styron intitulado Visível Escuridão (Darkness Visible, 1990), que me apercebi das estreitas relações entre a depressão e o ofício da escrita. É quase inacreditável o número de grandes autores que cometeram suicídio, no auge de uma grave depressão. Styron fez uma lista, que está longe de ser exaustiva: Hart Crane, Virginia Woolf, Cesare Pavese, Romain Gary, Ernest Hemingway, Jack London, Sylvia Plath, Henri de Montherlant, John Berryman, William Inge, Paul Celan, Tadeusz Borowski, Anne Sexton, Serguei Esenin, Vladimir Mayakovsky. E Stefan Zweig, Primo Levi, Paul Nizan – acrescento eu. No caso português, poderíamos mencionar, por exemplo, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Mário de Sá Carneiro, Luís de Montalvor, Manuel Laranjeira, Trindade Coelho, Florbela Espanca. 

"Apesar do raio de alcance da depressão ser ecléctico, demonstrou-se de forma bastante convincente que os temperamentos artísticos (particularmente os poetas) são especialmente vulneráveis a este mal – que, nas suas manifestações clínicas mais graves, colhe mais de 20 por cento das suas vítimas através do suicídio", escreve Styron nesta notável obra sobre uma das maiores doenças da nossa civilização (Visível Escuridão, com tradução portuguesa de Teresa Caria, foi editada pela Bertrand em 1991). O próprio Styron – galardoado com o Prémio Pulitzer e o American Book Award, universalmente aplaudido por romances como A Escolha de Sofia – sofreu de depressão. "Receamos a perda de tudo, de todos os próximos e dos amados. Há um medo agudo do abandono. Ficar sozinho em casa, mesmo só por um momento, provocava-me um pânico e uma trepidação estranhos" , recorda o escritor neste impressionante e dilacerante depoimento.

"Não mais palavras. Um acto. Não voltarei a escrever." Com estas três frases, redigidas num bilhete que lhe serviu de testamento, Pavese despediu-se da arte e da vida. O que levará um grande autor ao desespero? Quem de nós conhece devidamente os abismos da existência humana?

15 comentários em “O trágico destino dos escritores”

  1. Hoje, à entrada do Metro, no Marquês, estenderam-me uma coisa chamada Destak. Na breve viagem, aí li o editorial (!) de uma tal Stilwell – ao que me dizem, “escritora light” (?) – , que se louva no último artigo da D. Constança para denegrir a iniciativa da petição em prol da liberdade de expressão.
    Duas conclusões:
    – o subjornalismo vai de vento em popa e não há, parece, nada a fazer;
    – o socretinismo comanda, qual doença contagiosa, uma enorme rede de interesses, que se estende até à meia-tigela.

  2. à tua questão Pedro, nem me atrevo a ensaiar resposta. Desejo apenas que nunca nos vejamos perante tal abismo ..

    deixo-te algo que li de Henry James (um dos “meus” escritores), citação de que me fui lembrando ao longo da leitura deste teu (mais um) brilhante texto.

    “We work in the dark – we do what we can – we give what we have.
    Our doubt is our passion and our passion is our task. The rest is the madness of art. “

  3. Eu acrescentaria que mesmo em outras áreas da actividade artistica podemos encontrar situações semelhantes. Foi a depressão que levou génios da música, do cinema, como Kurt Kobain, Jim Morrison, Elvis, Heath Ledger (recentemente), Monroe etc a abusarem do consumo de drogas e outras substâncias ilícitas. Algo não bate bem na cabeça dos génios.

    1. É verdade. Mas aqui não estamos a falar em drogas. É algo muito mais profundo, muito mais existencial que isso. Algo que tenho dificuldade em entender em toda a dimensão. Algo que fascina e que intimida em simultâneo.

  4. Dizes bem, compadre. Isto é curioso, porque ainda este fim-de-semana escrevi uma crónica sobre o Antero de Quental que me fez pensar mais ou menos o mesmo. O Antero, que até tinha herdado uma fortuna e vivia dos rendimentos.

  5. Boa noite
    para começo de conversa não sou nenhum génio,mas julgo saber alguma coisa dessa doença que se chama depressão.Atrevo-me a fazer perder algum tempo a quem tiver o trabalho de filtrar os comentários pk me parece que a questão o merece, como se pode ver no ultimo comentário (sobre Alexandre Herculano).
    Então é assim: a depressão – quando diagnosticada como tal é uma doença, é uma doença e é uma doença!E a tristeza e o desespero (entre outros) são sintomas dessa doença: é impossivel, a quem tem 1 depressão, ñ ficar triste e desesperado!É como alguém que tem 1 gripe: é impossivel ñ ter febre!
    Agora, porque tantos escritores têm depressão? Não sei-é claro-mas gosto de pensar que é um “o outro lado da moeda”, um bocado como anemia falciforme dá proteccão, a quem a tem, contra o paludismo. Ou talvez seja um sub-produto, tal como uma pérola é o subproduto de uma agressão…
    Peço desculpa pelo tamanho do comentário
    R.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *