O simbolismo de uma tragédia.


Luís Menezes Leitão,

 

Esta notícia do suicídio de um pensionista grego de 77 anos em plena Praça Syntagma reveste-se de um enorme simbolismo. Trata-se de um cidadão que tinha um contrato com o Estado, pelo qual ele asseguraria a sua reforma em virtude dos descontos que fez durante uma vida inteira. Para satisfazer os credores estrangeiros, o Estado quebrou esse contrato, cortando-lhe essa pensão, deixando o cidadão na miséria. Provavelmente o cidadão achou que o seu Parlamento o defenderia e que a Grécia tinha uma constituição que o protegeria. Quando viu que o país tinha passado a ser governado pelos credores estrangeiros, pôs termo à sua vida precisamente na praça da Constituição onde se encontra o parlamento grego. Ora, um país em que os cidadãos se matam em frente ao seu Parlamento é um país que já morreu.

 

Por cá, infelizmente as coisas não vão muito melhor. O tribunal constitucional também aceitou cortar salários e pensões, desde que o corte fosse temporário. A argumentação é ridícula, uma vez que enquanto dura o corte de salários as pessoas podem entrar em insolvência e ficar na miséria. No entanto, já veio a Comissão Europeia pedir que o corte se torne definitivo e o Primeiro-Ministro imediatamente referiu que o dinheiro confiscado só será devolvido a partir de 2015 e às pinguinhas. Um Estado que prefere proteger os credores estrangeiros em lugar dos seus funcionários e pensionistas é um Estado que não se respeita a si próprio. Para defender o Estado português, exige-se aos governantes algo mais do que pôr a bandeira de Portugal na lapela do casaco: exige-se que protejam os cidadãos portugueses.

17 comentários em “O simbolismo de uma tragédia.”

  1. Ouviu o Primeiro-Ministro referir que o dinheiro confiscado será DEVOLVIDO? Eheheh… Seria bom , seria, mas não me parece que Ferreiras do Amaral, Jorges Coelhos ou Antónios Mexias estejam virados para aí!

    O que eu ouvi o Primeiro-Ministro dizer, foi que em 2015, que por feliz coincidência (para ele) será ano de eleições, irá anunciar “aumentos” dos ordenados.

    E em 2015 o estado de espírito geral no país (se o houver ainda) já deve ser tal, que, digo eu que sou parvo!, o “aumento” irá ser tão generoso e tão bem propagandeado, que o facto das pessoas continuarem, ainda assim, a receber menos dinheiro por ano do que o que recebiam em 2010 (porque as doze prestações vieram para ficar e ficam mesmo!) nem será contestado. Qualquer esmola já será humildemente agradecida!

    Posso até imaginar a discussão da proposta dos “aumentos” na AR, com o AJ Seguro a AMEAÇAR que o PS se abstém caso o Governo não ceda em dar mais cinco por centinhos de aumento do que o proposto, e O F Louçã mais o B Soares, apesar de votarem contra em quaisquer circuntâncias, a EXIGIREM, no mínimo, mais 15 por cento para além da reposição dos feriados do 1º de Dezembro e do 5 de Outubro.

    1. Claro que as quantias confiscadas nunca serão devolvidas. Por isso é que se tratou de um verdadeiro confisco e não de um empréstimo forçado. O que quis dizer é que seria reposto o nível dos salários, ainda que às pinguinhas. É evidente que se trata de uma manobra para eleitor ver, semelhante à de Sócrates em 2009, que aumentou os salários em 2,9% para logo a seguir fazer um corte até 10%. Provavelmente irá ser seguida a mesma técnica. Pessoalmente estou cansado, quer destas manobras eleitorais, quer da facilidade com que neste país se aceita confiscar salários e pensões, sem que quase ninguém proteste.

  2. Muito bem, acerta na mouche.
    Dizem que este é, ou seria, um governo liberal. Ora qualquer liberal que se preze sabe que o Estado minimo deve garantir apenas saúde, educação e justiça. Infelizmente nada disto existe aí pelo rectângulo… Como bem avisou Hayek, chegámos à servidão.

  3. o que faz realmente mais confusão é o silêncio das pessoas.

    as determinações para a função pública tem sido seguidas à risca pelos privados, que além de “surrupiarem” o 12º e 13º mês aos funcionários, começam a pagar tarde e a más horas, em empresas onde tal não é justificável, pois continuam a facturar normalmente.

    já percebi que só quando alguém perder a cabeça e em vez de se suicidar, atingir mortalmente um dos muitos culpados da crise que estamos a viver, as coisas mudarão.

  4. Excelente texto, Luís. Impressionou-me imenso o gesto do pensionista grego, e é isso mesmo que dizes: ele cumpriu a sua parte no contrato, o Estado é que não. Não era caridade, era o dinheiro dele. A desprotecção dos mais frágeis, a que assistimos todos os dias, leva-nos a perguntar cada vez mais para onde vai o nosso dinheiro, quando pensamos estar a garantir uma velhice minimamente tranquila.

  5. Muito bem. Rigoroso post .
    Em essência, no fundo do fundo, em matéria pura sem eufemismos ou aparências embrulhadas…é isto.

    No caso nacional importa referir, e os demais certamente terão em arquivo essas declarações e esses factos interessantes de que:

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    Muito bem. Rigoroso post . <BR>Em essência, no fundo do fundo, em matéria pura sem eufemismos ou aparências embrulhadas…é isto. <BR><BR>No caso nacional importa referir, e os demais certamente terão em arquivo essas declarações e esses factos interessantes de que: <BR><BR class=incorrect <a name="incorrect">1.No</A> </A></A></A>ano passado, um dos representantes da troika referiu que a acção de retirar os subsídios à função pública durante o programa de ajuda foi da exclusiva responsabilidade do governo português, sem qualquer imposição do memorando; <BR>2.No ano passado foi-nos garantido pelo governo em funções que o corte vigoraria somente durante 2 (dois) anos; <BR>3.No presente ano (há umas semanas) um dos representantes da troika referiu que, o corte dos subsidios poderia estender-se para álem do programa de ajuda; <BR>4. Ontem, em evidente dissonância, foi comunicado pelo nosso primeiro que o corte se estenderá para além dos dois anos de ajuda e que a sua reposição será gradual; <BR><BR><BR>As incoerências são factuais, tanto em quem nos governa como em quem nos fiscaliza…e esse é verdadeiramente um simbolo de incapacidade, desorganização e inépsia face aos tempos presentes e futuros.

    Excelente post.

    Fique bem.

    1. Maldita verificação ortográfica que erra e sna o comentário.
      Se dúvidas houver relativamente ao conteúdo, re-apresentarei o mesmo.

      Fique bem e desculpas pelos Brrrrrs.

  6. Eu tambem gostaria de ver os cidadãos portugueses bem protegidos, quer os funcionarios publicos com emprego vitalicio, quer os que ficaram sem emprego e não têm como arranjar outro. O problema é com que dinheiro? Onde é que se vai buscar o dinheirinho para pagar 1600 milhões de subsidios de ferias e de Natal aos funcionarios publicos e pensionistas todos os anos. A resposta a essa simples pergunta é que não vejo ninguem dar.
    É um facto que o governo tratou este assunto como se fosse um elefante na loja da Vista Alegre, mas o que me preocupa muito neste momento, não é se o 13º ou 14º vêm em 2014 ou em 2015, se vêm de uma vez ou às pinguinhas. O que me preocupa mesmo a serio é o que se está a passar com a Espanha, e não vejo ninguem falar do assunto. Se aquilo não se arranja nos proximos dias, é que vai ser bonita a festa.
    PS para que conste, ao meu rendimento familiar tambem serão subtraídos os 13º e 14º meses.

    1. Antes de saber com que dinheiro, talvez seja melhor saber o que é dinheiro.

      Num panorama onde nas maiores economias mundiais, os Bancos Centrais (entidades públicas) têm andado a fornecer os respectivos Governos (mais entidade pública) com dinheiro, criado por esses mesmos bancos centrais, pode falar-se de restrição orçamental (Budget constraint) ou apenas de restrição inflacionária? No caso europeu, o BCE tem andado a financiar Itália e Espanha com dinheiro criado.

  7. “um contrato com o Estado, pelo qual ele asseguraria a sua reforma em virtude dos descontos que fez durante uma vida inteira.”

    Continua a fantasia para enganar. Contas onde estão?
    Não há números, contas nesse suposto “contrato”.
    Os descontos cobrem as reformas?

    Ou seja o “contrato” foi sempre algo em aberto para as conveniências do presente, o povo aceitou a “proposta irrecusável” porque quando foi proposta ganhava muito mais do que contribuiu e pouco se preocupava com o futuro.

    Ou seja contrato sem números foi propositado para uma sociedade que só vive para o presente.
    Por isso é que não quer números nem contas.
    Lixando os futuros.
    Agora o futuro chegou.

    É uma piada falar dos credores quando foram eles que pagaram uma parte das reformas nestes 10 anos…

  8. Este país já não vai lá com manifestações ou actos de indignação escritos, infelizmente!
    Perdemos todos muito tempo em considerandos e, quando nos exaltamos, já achamos que é tarde para criticar e aninhamo-nos até à próxima desferida.
    Vamos ficar de braços cruzados a lamuriar ou vamos fazer como os nossos antepassados fizeram em 1820 ?

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