
Devido a recente decisão jurídica voltou à berlinda o caso dos irmãos Rafael e Tiago Mesquita Guimarães – cujos encarregados de educação impedem de frequentar a disciplina liceal “Educação para a Cidadania” e que por isso se deparam com o intuito estatal de os reprovar. Em tempos já muito se escreveu sobre o assunto e não será necessário repetir argumentos [eu botei aqui o que penso sobre a algo desajustada disciplina]. Em relação às (improváveis) sanções que os alunos poderão sofrer julgo muito certeiro o que diz Henrique Pereira dos Santos no Corta-Fitas: se cumpre aos encarregados de educação prover à conclusão da escolaridade obrigatória (esta entendida como um direito inviolável das crianças) então essas hipotéticas sanções deveriam incidir sobre estes pais e não sobre os alunos que cumprem os ditames dos seus progenitores. Um pouco à imagem – salvaguardadas as óbvias diferenças – do que acontece em casos de precoce abandono escolar ou em casos de denúncias do corpo docente de indevidas práticas paternais que impeçam a consecução escolar. Mas julgo (e espero) que este é um novelo em que o Estado acabará por se retirar, cedendo a esta idiossincrasia familiar. Com a qual pouco simpatizo, independentemente do que penso da disciplina curricular em causa, pois muito me parece um finca-pé algo histriónico.
Como disse em tempos fui ver o que continha o currículo da tal “Educação para a Cidadania” e não me pareceu a tal obra do Demo que muitos apregoam. Será uma espécie de “albergue espanhol” temático cuja execução prática muito dependerá do tom dos respectivos docentes – e nisso será possível que sobre um ou outro desses temas haja docentes, em especial oriundos de certas licenciaturas em ciências sociais, a utilizar jargão e a enfatizar assuntos mais em voga nas agendas mediáticas, o que pode irritar alguns encarregados de educação. Mas, de facto, pouco ou nada poderá perverter os petizes, muito mais apenas afrontando algumas (legítimas) certezas paternas. Ao ler os materiais que então encontrei acima de tudo incomodei-me com dois assuntos, que agora sumarizo: 1) o veicular da ideologia liberal e de um paupérrimo individualismo através da consagração da mitologia do “empreendedorismo”, sempre avessa ao necessário enquadramento sociológico das práticas sociais. Trata-se de uma perversa “formatação” intelectual dos jovens, moldando a forma como entenderão a economia e a sua futura inclusão (deste modo alienada) no mercado laboral, que muito me surpreenderia por não ser refutada pelos locutores da “esquerda” portuguesa que muito defendem esta disciplina, se não soubesse terem estes deslizado para o “patois” identitarista; 2) uma ênfase na virtude das relações homossexuais – inclusa no necessário e saudável esforço social de combater os perversos preconceitos contra a homossexualidade – que, notoriamente, ombreia com a associação das relações heterossexuais a fenómenos de violência social, e sendo nesse âmbito patente a ausência curricular da apresentação de dimensões virtuosas das formas socialmente dominantes de reprodução social e biológica, as famílias. E friso que não seria preciso utilizar a Escola para sacralizar o Presépio Patriarcal para realizar este último aspecto formativo. Mas é evidente que no programa desta disciplina – num país de monoparentalidade crescente e de enorme taxa de divórcio (uma das maiores causas de empobrecimento, ou talvez mesmo a maior em períodos de acalmia financeira) – há uma reduzida preocupação em veicular a bondade virtuosa (potencial, entenda-se) de importantíssimas dimensões da vida social, estas da monogamia heterossexual de teor conjugal.
Enfim, nesta disciplina curricular não será o Demo a funcionar – repito-me – mas é com toda a certeza um Educador algo distraído. Ou mesmo ressabiado. Pois nisto tão enviesado aparece. Sublinho que como tal aparece nos itens do programa escolar pois, dada a algo convulsa heterogeneidade desta disciplina, presumo que as práticas poderão ser bem mais matizadas. Aliás, isso o demonstra o silêncio social – excepto o irredentista caso da família Mesquita Guimarães – diante da “Educação para a Cidadania” que grassou neste país tão mariano.
Em última análise – e nisso discordo do que escreveu António Barreto sobre este assunto – a Escola serve mesmo para formar cidadãos. O historial da massificação (e extensão) da educação, tornada obrigatória, acompanha a sedimentação da concepção universalista da cidadania. A Escola serve para inculcar um médio denominador comum básico dessa cidadania, aquilo que a sociedade entende necessário atribuir (ensinar) a cada um dos cidadãos para que estes o sejam. Por isso se aprende numa língua peculiar – num país monolinguístico (tirando a pantomina folclórica da elevação do mirandês a língua oficial) isso parece-nos “natural”, qual obrigatório, mas deveria ser evidente que não o é. Por isso se aprende um determinado corpo literário, para sedimentar esse conhecimento linguístico preferencial e uma apreensão de “identidade nacional” – obrigamos os petizes a ler Eça mas não Flaubert ou Tolstoi, com evidentes perdas para as crianças; obrigamos os mesmos a ler Camões e escondemos-lhes Mendes Pinto, para sua desengraça e mesmo desgraça. Privilegiamos o ensino da história nacional – algo que não está inscrito na “natureza das coisas” – e mesmo o da história universal é algo umbiguista, sob o cânone da velha história universal oitocentista. Mas também, e ainda que de modo menos explícito, o ensino básico de outras ciências sociais (Geografia, Economia, etc.) surge como ancorado no nosso contexto nacional e das suas articulações internacionais, em termos de processos históricos [para exemplo dedicado aos habituais comentadores resmungões: o mapa-múndi que continua a ser veiculado é o que deriva da projecção de Mercator]. Mas se esse viés mais explícito da Escola como produtora de futuros cidadãos com um particular capital cultural português (uma “identidade”) é logo reconhecível, é preciso recordar que também o ensino de saberes técnicos e das ciências naturais é demarcado por essa concepção universal de cidadania, essa produção de um capital cognitivo específico aos cidadãos portugueses: as opções pela extensão e intensidade do ensino dessas ciências é diversa do que acontece em outros países (por exemplo, parte substancial dos futuros cidadãos só estuda Matemática até aos 14/15 anos). E as opções desvalorizadoras do ensino técnico-profissional foram marcadas (e continuam a sê-lo, de modo implícito) por uma concepção igualitária do exercício de cidadania, sob a qual a formação escolar “profissionalizante” é considerada desvalorizadora, assim apoucadora da cidadania dos discentes.
Ou seja, a Escola serve mesmo para formar cidadãos, portugueses. Nisso procura inculcar valores e uma identidade comum, através do disseminar de um capital cognitivo comum. Negá-lo é uma distracção. Mais ainda, Portugal tem um Estado laico e não um Estado secular. Aqui se respeita a pluralidade cultural nos seus diversos itens. Mas não se consagram diferentes entidades constituintes da sociedade (religiosas, ideológicas, regionais, linguísticas, étnicas, “raciais”, clubísticas, grupos secretos, etc.) – apesar da insana deriva identitarista do neo-marxismo actual e das iniciais tentativas do presidente Sousa de elevar as confissões religiosas a agentes políticos, entretanto felizmente esquecidas. Assim sendo defender os particularismos, neste caso educativos, é afrontar o nosso modelo sociopolítico. Não é preciso ser maximalista, poder-se-á aceitar algum pluralismo mas desde que não afronte o corpo comum dos conhecimentos a serem transmitidos. Estes poderão ser complementados mas não recusados em nome de uma qualquer crença identitarista ou localista (os professores do Porto não ensinarem que Lisboa é a capital por serem adversários do centralismo, para exemplo nada espúrio).
O que é fundamental é discutir, aprimorar, esse corpo comum de conhecimentos transmitido, não é pluralizá-lo em feixes sociologicamente discriminados, em nome de sacrossantas “identidades” ou de mí(s)ticos mercados intelectuais/escolares. O que devemos exigir num regime democrático é não só a disseminação generalizada de uma competência de saberes produtivos mas também de valores de uma cidadania democrática, nisso de uma identidade patriótica mas não nacionalista (para usar a distinção de Orwell). Nesse âmbito reclama-se uma transmissão matizada de valores, depurada daqueles mais ideologicamente marcados, enviesados em favor de sectores particulares da nossa sociedade. Esta é um distinção muito fluida, sempre debatível, mas que deve salvaguardar a distinção entre público e privado (a tal democracia), entre os conteúdos gerais promovidos pela Escola (pública ou privada sob alvará estatal) e a autonomia familiar.
É-me muito difícil traçar a linha fronteiriça – até porque tanto os programas do ensino devem ser sempre debatidos como os conteúdos dessa autonomia familiar não são intocáveis (um tabefe num puto porque se balda às aulas é socialmente aceitável, espancá-lo com a fivela do cinto porque reprovou convoca a sanção social e penal. E concordamos com isso: há algumas décadas não era assim, violou-se/transformou-se o princípio da autonomia que consagrava a autoridade paternal). Mas para tudo encontro uma ilustração, que é mais do que esclarecedora, e estabelece bem os limites da intervenção estatal – e que me leva a pensar que a família Mesquita Guimarães não está desprovida da sua razão. E que como tal deve ser respeitada, nesta necessária ambivalência que acompanha a reflexão sobre assuntos verdadeiramente relevantes.
Para a tal ilustração convoco o filme O Clube do Imperador (The Emperor’s Club), uma espécie de sequela do célebre “O Clube dos Poetas-Mortos”, pois seguindo o rumo do professor liceal carismático. William Hundert (Kevin Kline) é um professor que se depara com um aluno de extremo potencial mas com um comprometimento problemático com os estudos. Como tal visita o pai – um poderoso político – para lhe colocar a situação. Eis um excerto da conversa, iluminador:
(Emperor’s Club, “Don’t mold my son“, excerto entre Hunder (Kevin Kline) e Bell (Harry Yulin)
William Hundert : Sir, it’s my job to mold your son’s character, and I think if…
Senator Bell: Mold him? Jesus God in Heaven, son. You’re not gonna mold my boy. Your job is to teach my son. You teach him his times tables. Teach him why the world is round. Teach him who killed who and when and where. That is your job. You, sir, will not mold my son. I will mold him.
Neste breve trecho está tudo condensado. É certo que na realidade as crianças (tal como os adultos) são moldados na miríade das suas interacções: entre amigos, na Internet, na televisão, na vizinhança, nas canções que ouvem e nos ídolos que eregem (o meu Lou Reed desde a adolescência, o meu Clint Eastwood desde jovem adulto). E até na Escola (“panta rei” aos meus 15 anos). Mas de facto o seu molde fundamental é uma instituição que para isso tem o direito (um “direito natural”, se se quiser invocar tal conceito): a Família, as famílias. Se estas exercem tais funções de modo competente ou incompetente, se são bom molde ou não, isso é outra discussão. Mas o papel da Escola, como diz o senador Bell, é o de ensinar “que a Terra é esférica” [e não plana, como dizem os “terraplanistas” de facto defendidos pelos que admitem o pluralismo curricular], “quem matou quem e onde” (e não narrativas militantes, quais velhas “fake news” sistematizadas dos compêndios ideológicos), os tais valores públicos que sustentam o nosso ordenamento social e político (os “gregos e romanos” a que o professor Hundert alude).
E parece-me que o problema do nosso Legislador e do nosso Educador, carregados de um abusivo “optimismo pedagógico” e de uma desmesurada cultura estatista benfazeja, é o de não terem visto este filme. Mediano. E assim incompreenderem a sua função, extravasando-a. Em modo antidemocrático. E nem sequer compreendem isso. Assim sendo, por distraída e entusiasmada incúria intelectual, medíocres cidadãos.

Meu caro jpt, vou usar uma metáfora, mas não para ridicularizar o seu esforço pedagógico e a sua paciência na reflexão que nos apresenta.
A cidadania é muita parra para um sumo de uva muito amargo. As paneleirices das engenharias sociais em momento algum podem sobrepor-se à legitimidade e dever das famílias educarem seus filhos como vinham fazendo. A função do professor é desempenhada em torno da sua remuneração para qualificar o aluno em matérias que são de sua exclusiva competência.
Numa sociedade fundamentalmente cristã, mas que precisa desatar-se dos cultos estéreis que muitos vezes são encaminhados para o culto a sua própria personalidade; falsa, diga-se, a cidadania encerra-se em um só capítulo: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti”, sendo esta a regra de ouro. Traduzindo: “Ama o próximo como a ti mesmo”.
Amar o próximo não significa absorver o veneno que o próximo lança. A cidadania é um veneno nas mãos de um estado que é diabólico. Aqui tem o demo.
A cidadania é um veneno? Ó homem, que patusco comentário…
Neste seu comentário pergunta e posterior afirmação, eludindo o sentido do contexto “cidadania”, verifico que afinal o meu caro jpt escreveu para dizer o contrário do que escreve.
Mas eu mantenho o que escrevi, e também sobre o papel de um professor.
Com o que diz sobre o professor em princípio concordo. De facto a sua formulação – que faço nossa – abre, felizmente, caminho a múltiplas estratégias pedagógicas, as quais têm também dimensões formativas. E é notório que para muitos de nós que alguns dos professores que erguemos como referências, intelectuais e afectivas, tiveram também uma função formativa – e não é necessário fundamentar isto com os textos da antiguidade clássica, bastarão as memórias pessoais. Mas friso que nada disto que avanço contradiz esta questão, a de que a função do professor é a de ministrar as temáticas da sua competência (que lhes estão atribuídas; para as quais tem formação). O que realça a ambivalência destas formulações, as quais têm de ser enquadradas pelo quantas vezes indefinível Bom Senso.
Quanto à “cidadania”. Pois para si ela reduz-se ao cumprimentos de alguns dos mandamentos cruciais cristãos. E nesse sentido todo o resto será demoníaco. Eu, qual Fausto, quero crer que a cidadania é mais do que os respeitáveis ditames bíblicos.
Vou começar pelo final de sua resposta. A cidadania que refiro não é um ditame bíblico e sim existencial. Ditame bíblico certeiro e irrevogável seria eu usar a passagem bíblica em que Jesus afirma: “Se vos fala das coisas terrenas e não compreendeis, como compreenderíeis se vos falasse das coisas celestiais”. É aqui que reside o objecto de sua discórdia para com minha afirmação.
Sobre o papel do professor, para além do que afirma, quantos professores sem se armarem ao cidadão marcaram nossa conduta? Para o bem, por suas conversas e disponibilidade, e não por catequeses, tive alguns que hoje ainda lembro e marcaram. Quer na literatura, quer na filosofia, quer na psicologia, quer na física, história…
Infelizmente fiz parte substancial do ensino secundário na escola pública após o 25 de Abril. Foi uma desgraça, o caos. Nesse sentido escassos foram os professores que me marcaram de modo indelével entre o 7º e o 12º. Mas quando referi acima que há professores que nos marcam extravasando as dimensões presentes na “matéria” leccionada (e ainda assim tive um pequeno feixe deles) não associava isso a qualquer doutrinação de cariz político-ideológico (ou de exercício de cidadania). Mas muito mais de exercício docente – eu diria até, para o período a que aludi, de heróica resistência como vector deontológico -, de notória seriedade intelectual, de estratégias pedagógicas (diferenciadas), de postura pessoal, de disponibilidade, etc. É evidente que acima não me tinha feito compreender sobre isto.
Concordando, embora, com a maior parte do que diz, tenho, como já aqui disse, as maiores dúvidas quanto à improbabilidade das sanções que os alunos poderão sofrer. A disciplina é obrigatória e, tal como as escolas, também os tribunais estão obrigados ao cumprimento da lei, como saliento em https://mosaicosemportugues.blogspot.com/2 021/11/o-caos-seria-alternativa.html.
Concordando inteiramente quando diz “reclama-se uma transmissão matizada de valores, depurada daqueles mais ideologicamente marcados, enviesados em favor de sectores particulares da nossa sociedade”, não deixa, por outro lado, de causar apreensão que, numa disciplina sob tantos aspetos tão sensível, boa parte do que é transmitido possa ser deixado à discricionariedade de professores sem formação superior específica nessa área, contrariamente ao que acontece com a maior parte das restantes cadeiras.
Nem creio, aliás, que tal formação de nível superior exista, a não ser na designação de um ou outro mestrado para tornar mais apetecível o produto.
Estarei enganado, ou estará, uma vez mais, o carro à frente dos bois?
Votos de boa semana!
António Ladrilhador, espero sinceramente que não venham a ser atribuídas sanções aos rapazes. Seria descabido. Quanto à minha formulação, concedo, ela está presa ao wishful thinking. Quanto ao resto, dada as características heterogénas dos programas desta disciplina trienal (como referi no postal) é normal que não haja formação superior totalmente direccionada para esta docência (seria até algo descabida). E, até mais do que outras disciplinas, será o seu ensino influenciado pelas características das formações prévias dos seus docentes. Mas de facto será isso grave? Insisto no que disse no postal, que coisas gravosas (para além de um ou outro desarranjo docente) e sonoras (para além do caso desta família) têm acontecido? A subjectividade do ensino, e as falências que tal pode provocar, são muito mais graves na falta de preparação pedagógica do ensino da matemática.
Deixemo-nos de coisas, a questão aqui é a reacção hiper-conservadora ao paleio do “género” (para o qual, ainda para mais sendo eu antropólogo, não tenho paciência), que é uma mera parcela (e decerto que abordada de modo muito superficial) reduzida desta disciplina. E o “papão” agitado pelos tais hiper-conservadores é o da propagação escolar da homossexualidade. Isso é demencial. Para mais, nesses escassos núcleos locutores, nunca se ouve discursos constantes afrontando a miséria dos preconceitos anti-homossexualidade com os quais tantas gerações (como a minha) foram criadas. E, para ir até ao fim, não vejo nestes paladinos das “famílias” nenhuma crítica veemente e pública da Santa Madre Igreja (também desejável local de ensino) e do seu longuíssimo silêncio diante da paneleirice (que não há outro termo) pedófila. Sim, eu sei que a igreja católica não se resume a esses desvios malévolos e perversos, mas o silêncio e a conivência marca(ra)m-na indelevelmente. E todos estes “pais” tão cuidadosos, preocupados com os setôres saídos das universidades a ensinarem instituições e valores democráticos (as bases da Organização Política e Admnistrativa da Nação aquando do Estado Novo, por assim dizer), regras de trânsito, noções básicas de ciências sociais (economia, sociologia, ecologia) e outros itens, ficam horrorizados diante de uma Escola que fala de sexualidade e, horror, de homossexualidade. Mas não hesitaram em seguir o mandamento do “vinde a mim as criancinhas”, reemitido por uma “Escola” com tantos e tais padres-professores. Desviantes, a minoria, coniventes, todos os outros. Isto é uma hipocrisia imunda.
Não deixa de ser verdade que não sabemos que outras coisas gravosas possam ter acontecido. Em coisas deste tipo, não é incomum vermos, apenas, a ponta do ‘iceberg’. Espero estar enganado.
Admito, sem hesitar, que uma formação superior universitária não seja requerida para a lecionação da disciplina de Cidadania. Mas, qual será, então, o critério a utilizar no recrutamento e na seleção dos professores? Acaso, pelo simples facto de ter nascido, poderemos considerar que um português é suficientemente bem formado para ministrar educação – não me refiro ao mero ensino… – numa disciplina tão sensível?
Não, não me refiro a homosexualidade – nem descortino, no meu texto, onde poderá ter ido buscar essa ideia -, tampouco a outras questões sensíveis, como o racismo, a igualdade entre os sexos ou a questão dos refugiados, que em comentário no Mosaicos também já referiram.
Penso que já escrevi o suficiente sobre estes temas nos artigos ‘Racismo: o Homem Cor-de-Rosa’, ‘Refugiado e Refugiados’, ‘Sexo É do Género Masculino’ e ‘As Portuguesas e os Portugueses’, entre outros, para não merecer qualquer epíteto ainda que remotamente associado ao hiperconservadorismo. Quanto à primeira, não vejo qual a vantagem de não divulgar a sua existência e deixar bem claro que a sociedade e o Estado devem, através da lei, proteger todos de forma universal e uniforme, e que o mesmo deve, espontaneamente, acontecer no íntimo de cada um de nós – o que nada tem a ver com a subversão da moral adotada pela maioria pela ânsia de votos de minorias que cavalgam qualquer causa minoritária como se fosse sua, apenas para se manter à tona no pântano eleitoral.
Não sou religioso mas, já que fala da Igreja Católica, poderá ver como a critico fortemente em ‘Esposas: Sede Submissas. Pois…’, pelo que também não enfio essa ‘carapuça’, além do que subscrevo, absolutamente, o que diz sobre a hipocrisia, em todas as vertentes que refere.
Em suma, tudo me leva a crer que, pelo menos no essencial… estamos de acordo.
António Ladrilhador, no corrupio de respostas a comentários fiz-me desentender. As minhas referências ao ambiente contestatário a esta disciplina não se relacionavam com o seu comentário, apenas a partir dele elaborei sobre o que me parece vigente em alguns sectores mais acalorados. Ou seja, não lhe estava a tentar meter carapuça alguma…
Quanto ao resto – eu não sei como é feita a selecção de docentes desta disciplina. Julgo que actualmente todos os docentes do secundário serão (pelo menos) licenciados. O que dissera é que não há nenhuma licenciatura em “Cidadania” e como tal não há um formação superior específica para esta disciplina (cujo conteúdo é basto heterogéneo e até, julgo, algo heteróclito).
Em suma, julgo que aquilo que mais ofende os radicais adversários desta disciplina é a abordagem ás temáticas da sexualidade (incluindo a questão do “género”, que está no nosso contexto fortemente ideologizada e ligada às posições políticas dos identitaristas homófilos). Eu nisso julgo ser claro: muito me irrita a ganga LGBT e a tralha identitarista (e neste último caso farto-me de blogar sobre isso), muito lamento (e me repugna) a redução das questões de “género” – em tempos fundamentais na defesa da equidade entre homens e mulheres – a este folclores homófilo que reproduz, de facto, os preceitos ideológicos da velha antropologia física racialista (e racista) da primeira metade de XX. Mas não sei (desconheço) se esta disciplina vai longe neste campo, a não ser apresentar aos petizes factos fundamentais e pacíficos (para qualquer mente menos empedernida) sobre a vida sexual humana e a inadmissibilidade de reproduzirmos velhos preconceitos que são, e sublinho-o porque neles fui criado, dolorosos e até dolosos.
Quanto às igrejas e confissões religiosas (e em particular a católica porque é dominante no país, como referi no postal), como ateu olho-as à distância, com respeito crítico. E intelectualmente repugna-me a tendência demagógica de as reduzir às malevolências que todas as instituições comportam. Mas neste caso insisto que me parece sumamente hipócrita (e até inconsciente) que os sectores (e os locutores) que mais resmungam contra esta disciplina (e fazem-no devido às abordagens a questões de sexualidade, convém frisar, pois não são as regras de trânsito ou as abordagens iniciais à Ecologia ou à Economia, que convocam esta polémica) se calem diante dos desmandos sexuais do clero católico que tanto brado têm dado. Ao mesmo tempo que, implícita ou explicitamente, reclamam a justeza ou mesmo o primado da competência do ensino religioso.
Repito, isto veio-me ao teclado em conversa com o seu comentário mas não em contraposição com ele.
José Pimentel Teixeira
Esclarecido o mal-entendido, poderá interessar-lhe o debate que está a desenvolver-se, no Mosaicos, sobre esta questão, do qual transcrevo parte daquilo que ainda hoje lá escrevi:
“Nos níveis escolares elementares, compete à escola ensinar, ministrar conhecimento que, nos níveis seguintes, os alunos poderão começar a, gradualmente, utilizar para formar opiniões próprias emergentes da miscigenação da informação nova com o substrato entretanto depositado na memória.
Não me parece que faça grande sentido investir em impingir aos alunos mais jovens ‘software’ intelectual sofisticado sem, antes, lhes termos carregado com dados o ‘disco rígido’. Para que serviriam, então, as elaboradas aplicações? Ou já alguém terá inventado a forma de tornar útil um processador pelo qual não passem dados?
A escola, boa ou má, tem, como competência própria, ensinar e educar, sempre com objetividade, matéria também ela objetiva e que haja sido sujeita a exame prévio – não confundir com censura, por favor… – e subsequente validação científica. Os pais, bons ou maus, têm competência própria para, no que não é objetivo, ensinar e educar nas restantes vertentes da vida, entre as quais, evidentemente, as das relações com a comunidade, ou a da cidadania, como é agora uso chamar-lhe.
Não é papel da escola ‘falar com os alunos’, mas ensiná-los, transmitir conhecimento validado, e não opiniões, por muito sólidas e válidas que sejam, deste ou daquele estabelecimento de ensino, deste ou daquele professor. A entendermos o contrário, estaríamos a aproximar-nos, perigosamente, do ‘vale tudo’, do caos do qual, aqui e ali, lá vamos tendo uma amostra de quando em vez.
A assim não ser, daremos connosco a olhar para um ‘rebanho’ de seres ‘normalizados’ na escola, no essencial desperdiçando a diferença educacional e formativa que resulta do facto de ser diferente, não apenas o modo de vida, mas a forma de encarar a sociedade e o Mundo em cada núcleo familiar.
Numa época em que tanto se fala do direito à diferença – e muito bem -, surpreende que, inversamente, um Estado dito democrático procure menorizar a diferença que naturalmente tenderia a manifestar-se por esta via.
Mas, existem, como bem sabemos, sistemas políticos aos quais convém sobremaneira que o pensamento dos cidadãos seja formatado de modo uniforme, a fim de garantir a uniformidade de posições, designadamente políticas, e, por essa via, obter uma outra forma de ‘paz’ social. Trata-se, no entanto, de terras em que se considera um erro haver mais do que um partido político a concorrer a uma eleição…
[Na lista de disciplinas] Preocupa-me, sobremaneira, a linha das ‘Outras, de acordo com as necessidades de educação para a cidadania diagnosticadas pela escola’, já que se trata, uma vez mais, de um diagnóstico feito por pessoas que o Estado, comodamente, assume que são qualificadas para o fazer apenas… porque sim.
No fundo da discussão parece-me estar, em boa verdade, apenas a separação entre o que é ensinável na escola e o que apenas é proponível: o primeiro, adequa-se a todo ensino básico (sem prejuízo, naturalmente, da ponderação em função da idade); o segundo, talvez nos últimos anos. Quando muito…
Este atropelo entre escola e família não me parece particularmente promissor. A oportunidade da chamada de atenção de uma criança ou de um jovem para certas matérias apenas poderá ser avaliada, sentida, percecionada no núcleo restrito da família e, quanto muito, dos amigos adultos. Tenho as maiores dúvidas de que, sem violentar, possa ser despejada ‘matéria’ – ainda para mais, em certos casos não validada… – em cima de uma turma, de forma indiferente às idiossincrasias e ao estágio de desenvolvimento pessoal de cada um”.
“Insisto no que disse no postal, que coisas gravosas (para além de um ou outro desarranjo docente) e sonoras (para além do caso desta família) têm acontecido?”
Resposta: Muitas. Mas você desconhece
“a questão aqui é a reacção hiper-conservadora ao paleio do “género” (para o qual, ainda para mais sendo eu antropólogo, não tenho paciência), que é uma mera parcela (e decerto que abordada de modo muito superficial) reduzida desta disciplina.”
Resposta: antropologia é uma coisa, e o antropólogo outra.
Não obstante, existe, sim, um pré-conceito relativamente à homossexualidade. E ainda bem. De igual forma existe um pré-conceito por parte de um homossexual em relação à sua própria condição E daí?
O meu caro, como antropólogo, pretende colher como favorável seu argumento apontando aos outros as virtudes que não têm. E isto é ridículo, porque faz parecer certo o argumento que não possui.
Porém a questão da cidadania remete para um ponto bem mais importante que o género e a homossexualidade: qual é papel da família na educação dos filhos? Será que é uma quinta de procriação para oferecer ao estado carne para canhão e meios de colecta de impostos?
Vento, desconheço as coisas gravosas que a disciplina provocou. Googlei e não encontrei. Quer esclarecer-me/nos? A antropologia é uma coisa e o antropólogo outra? Mas é claro, evidente. Julga necessário referi-lo? E a que propósito? “Pré-conceito” contra a homossexualidade… Nisso tem V. razão, no estatuto que deu ao termo “pré-conceito”. Eu julgo, e não irei sozinho nisso, que só pensamos com preconceitos. Mas parece-me evidente – mas ainda assim esclareço aqui – que utilizei o termo com o conteúdo semântico que vem sendo dado ao termo, desvalorizador (e há preconceitos valorizadores, como é evidente) e potenciador de acções contrárias. Eu pratico uma desvalorização da homossexualidade, de índole estética por assim dizer. Para os activistas daquela causa serei um monstro irredentista de “preconceitos”. Para mim não o serei, acredito no “vive e deixa viver”, repudio as acções agravadoras dos outros, limito-me a preferir (em mim vai por si, nos outros também) a heterossexualidade à homossexualidade. E parece-me ajustado disseminar junto de todos (novos e velhos) a malvadez da perseguição e discriminação (no sentido de aviltamento) de quem vive a sua sexualidade de modo diferente. Como diz V. “e daí?”
Quanto ao seu último parágrafo, cidadania e família: o que tinha para dizer botei-o no postal. Se não lhe chega (e acredito que não) escreva o resto. E blogue-o.
Quanto ao ridículo que postula no meu texto, passo…
O seu comentário só confirma que a questionar sobre coisas “gravosas” aborda um tema para o qual não está preparado, não obstante o que possa pensar sobre um outro pormenor.
Não sou eu que vou emitir à exaustão a promiscuidade que um pouco por todo o mundo se pretende incutir em crianças e adolescentes, incluindo Portugal. O que lhe posso dizer nos temas em apreço é que não se pode transformar em normal o que é marginal nem tampouco igualá-lo através de uma mecânica legislativa que contraria a antropologia e até mesmo a ciência. De outra forma será respeitar o direito, mas o direito que não perverta o sentido antropológico humano. Nem tampouco se pode chamar à colação a tolerância naquilo que somente se deve respeitar, isto é: a pessoa. É aqui que entra o capítulo único, acima referido, e que você denomina de ditame bíblico, mas que afinal é mais forte e consistente que a cidadania.
De outra forma, o conceito ou ditame você usa-o no sentido de evitar a malvadez etc. É uma questão de semântica que revela que o princípio cristão que refiro também está entranhado em sua personalidade.
Concluo.
Diante do seu argumento da promiscuidade retiro-me, não vá eu ser acusado, e ainda por cima neste minha já vetusta idade, de ser militante de tal postura.
“O que lhe posso dizer nos temas em apreço é que não se pode transformar em normal o que é marginal nem tampouco igualá-lo através de uma mecânica legislativa que contraria a antropologia e até mesmo a ciência.”
Aqui tem o significado de promiscuidade abordado.
Pelos vistos acertei: https://rr.sapo.pt/noticia/pais/202 1/11/10/alunos-de-famalicao-ministerio-d ecide-que-passam-mas-a-condicao/260253
Um postal que mistura tudo e mais alguma coisa. Tal como um relógio parado tem dois momentos certos por dia, também encontrei alguns momentos certos mas que não desculpam a desarrumação.
Uma coisa são desvios ideológicos em disciplinas como história ou mesmo geografia e todas as áreas que com elas se interpenetram, como economia. Outra diferente é uma disciplina que aborda conteúdos em que a sociedade se divide.
O autor “acha” que não há assim tanto mal nos conteúdos e concede que o problema pode residir em professores formados nas madrassas que são hoje a NOVA-FSH ou o ISCTE mas essa é exactamente a circunstância portuguesa e que não pode ser ignorada. Como já aqui escrevi na Alemanha não há ensino provado e todo o ensino é público mas isso não parece constituir uma ameaça à liberdade. Mas em Portugal, se dermos tempo a este poder e conseguirem eliminar o ensino privado será uma catástrofe.
O que está verdadeiramente em causa é o ataque à família como base da sociedade, apesar do Artº 43º da Constituição ser claríssimo o que só mostra a verdadeira natureza do governo da geringonça em geral e muito especialmente do secretário de Estado Adjunto e da Educação João Costa.
Já agora, e reconhecendo que eu faço muito pior, notei que apenas duas coisas incomodaram o autor. Li a1) mas debalde procurei a 2) no resto do postal. Finalmente, embora reconhecendo que o apelido Mendonça faz mais “toilette” do que Mesquita, a família e os jovens em questão são Mesquita Guimarães e não Mendonça Guimarães.
P.S. Encontrei o 2) mas enviei antes de corrigir. Estava lá mas estaria melhor em novo parágrafo (bem sei que faço pior).
Francisco Almeida, obrigado pelo(s) comentário(s). Cumpre-me dizer-lhe (em parágrafos pontuados):
1 – obrigado pela chamada de atenção ao erro que cometi no nome da família. Prontamente o corrigi. Quanto ao remoque que entendeu juntar a esse aviso, essa coisa da “toilette”, julgo-o desnecessário e deselegante. E a isso respondo-lhe conceptualmente: “porra, enganei-me!”.
2 – V. não é, apesar de me parecer que assim se supõe, o meu setôr. E como tal não aguardo a sua avaliação, contínua ou sazonal. Ou seja, quanto à desarrumação textual se V., interlocutor, a quer referir então que a substantive. Se se trata (como até deixa entender) de um desgosto por parágrafos longos então isso é mesmo um problema do leitor e não de quem bota.
3. V. afirma que a sociedade não se divide nas formas como entende a economia (a Ciência Económica, para explicitar). Ou mesmo a História (e neste caso bastaria assistir ao atrapalhado debate público que a demagogia identitarista lançou e o reaccionarismo patrioteiro continuou). E, na consequência dessas questões, que a sociedade não se divide na pertinência do ensino das ciências sociais e sua respectiva intensidade? Vivemos num país diferente. Ou melhor dizendo, temos diferentes percepções deste país. Ou seja, exemplificamos aqui o tal pluralismo que poderia ter (para muitos) efeitos na multiplicidade de desenhos curriculares.
4. O autor (eu mesmo, o jpt) nada “acha”. Pensa (mal ou bem), julga (no sentido de estabelecer um juizo, sem qualquer dimensão penalizadora). O que digo pode ser uma colecção de patacoadas mas não é um achamento (eu só “acho” quando escrevo no És a Nossa Fé) – está a ver como também tenho uma costela de setôr?
5. As faculdades de ciências sociais a que V. alude (pois a sua invectiva àquelas universidades decerto que se relaciona com essas áreas da docência e investigação) – bem como outras de similar actividade – não são madrassas, isso é uma atoarda. Por vezes aqui (ou no meu blog Nenhures) critico o que dali vem a público, em termos de iniciativas ou de ambiente intelectual [exs: o tétrico caso da FCSH da Nova que proibiu uma sessão de Nogueira Pinto, o silÊncio institucional da mesma instituição quando um dos seus investigadores associados denunciou o professor de Manchester à sua entidade patronal, ainda por cima (mas isso até é secundário) deturpando-lhe a argumentação; o facto de um terrorista das FP-25 ocupar postos directivos no ISCTE; o recente elogio público de Otelo de Carvalho emanado da Faculdade de Economia de Coimbra, numa falsificação da história,diante do silêncio dos seus pares, etc.]. Em privado (até em monólogos interiores) muito resmungo contra o “activismo” (vácuo e tão impensado) que polui o actual ensino e actividade laboral da minha disciplina de formação e das suas congéneres. Mas tudo isso não resume o ensino e a prática actual das ciências sociais no país. E muito menos deixa entender que elas sejam locais quais madrassas (de ensino dogmático de temáticas exclusivas; e muito menos, como a sua pobre e totalmente descabida metáfora, quer deixar entender, que sejam fornos de militantes fundmentalistas e até violentos).
6. O conteúdo (curricular) do ensino público (básico, secundário, superior, técnico) não é um obstáculo À liberdade. Os grandes obstáculos às liberdades em Portugal são as malevolências do espectro político-económico. E em termos de ensino o que atinge a liberdade são as insuficiências práticas deste ensino, as suas incompetências. O país é um país livre, apesar dos suspiros escatológicos (usualmente vindos de quem sonha com mais “músculo”, paradoxalmente).
7. Os problemas (práticos, conceptuais) do ensino em Portugal muito ultrapassam o actual secretário de Estado ou mesmo a defunta “geringonça” – por mais infausto que seja este actual socratismo sem Sócrates.
Em suma, o seu comentário, mesmo que esforçado, recebe um Med + (claro que poderá pedir revisão de prova, mas para isso terá que se dirigir à secretaria e seguir os procedimentos administrativos)
Obrigado pela atenção que me dispensou e a que não estou habituado. E obrigado também pelos parágrafos pontuados, que me permitem dividir os meus comentários que, sublinho, pouco ou nada têm de avaliações (pouco na substância, nada na intencionalidade).
1) A questão não é tanto do “porra, enganei-me” mas mais do “engraçado, como me enganei”. É que a tendência natural do engano é a simplificação – como foi provado pela “ciência” comportamental – e seria mais expectável um Silva Guimarães, como o bandeirante, ou até um Castro Guimarães, como o palácio de Cascais do conde homónimo (e também os apelidos do bastonário da Ordem dos Médicos que, não sei se por prudência se por modéstia, não usa na forma composta).
Mas Mendonça é outra loiça. Todos descendentes dos Mendoza, uma das principais famílias nobiliárquicas espanholas e que, para meu muito gozo, se degladiam em Portugal disputando a primazia fidalga: Mendonças ou Mendoças. Mas o que aconteceu é que uns entraram pela Beira, onde a pronúncia das vogais é fechada, e daí Mendôza que deu Mendonça; outros entraram pelo Sul, onde as vogais são abertas, e daí Mendóza que deu Mendoça. Claro que se eu disser esta barbaridade ao sr. conde de Rio Grande, o irmão mais novo do sr. duque de Loulé – o irmão do meio não liga muito a estas coisas – correria o sério risco de ser degolado.
Mas, perguntar-se-à, a que raio de propósito é que isto vem?
Bom, respondo com sinceridade e alguma maldade: tenho pouco mundo – talvez por isso me tenha achado deselegante – mas tal como frequentei muitas escolas, também em Portugal, andei por muitos lados. Em tempos até fiz parte dos quadros directivos do PPM dos dias do início. Assim a consociação Alentejo e Pimentel Teixeira, não me é de todo desconhecida.
Francisco Almeida, muito saúdo a sua militância no PPM pós-25 de Abril, partido que terá sido aquele em quem mais votei (apesar do meu fundamentalismo republicano), não só devido ao seu líder, o extraordinário Gonçalo Ribeiro Telles, e como é óbvio pela sua pertinência ecológica, como também pelo candidato MEC mas ainda por ter tido o privilégio de ser aluno de Henrique Barrilaro Ruas, um verdadeiro sábio.
Quanto à sua elaboração sobre as razões do meu erro: se lhe apetece botar isso, que vou eu dizer.
Quanto às ligações do meu apelido com o Alentejo, desconheço-as. Sei que a minha família paterna (o tal apelido compósito) tem raízes em Maçãs de Dona Maria, em Alvaiázere, no distrito de Leiria. Há notícia (documental) de um ascendente com esse apelido datada de 1748. Tenho também um conhecimento relativamente extenso da minha genealogia – como era usual na época (aliás, um pouco antes) e no contexto sociocultural, em meados de XX, os meus avôs paterno e materno fizeram as suas respectivas, com bastante detalhe, recuando várias gerações (6 e 7). Nada de Alentejo…
2) Pois não sou nem nunca pretendi ser “setôr” (eu diria “sôtor” mas albarde-se …) e muito menos “setôr” de ninguém. Sou mau q.b. – é a abalizada opinião da minha mulher – mas não tanto.
Há anos, corrigi pela enésima vez uma funcionária pública que insistia em tratar-me por sr. dr. e, nesse dia corajosa por motivo desconhecido, perguntou-me: então como é que devo tratar o senhor. Respondi-lhe que por senhor estava muito bem e acrescentei venenosamente: afinal já há tão poucos.
3) A sociedade pode dividir-se na interpretação da História. Não se divide nem em datas nem em factos. Mas quando parte da sociedade entende que o aborto é um direito da mulher – curiosamente sem ser necessário ouvir o pai mas, não é por aí que agora quero ir – e outra parte entende que é a frustração de um ser humano individual e irrepetível, esse assunto não pode ser tema de um programa escolar obrigatório.
Quanto à “sua” Ciência Económica” pode metê-la no mesmo sítio que toda a outra novilíngua.
Economia é literalmente do grego “governo da casa” e por isso se dizia com propriedade nos tempos parcos de Salazar que Portugal tinha as melhores economistas do mundo. E, de facto, não haviam, como regra, dívidas familiares impagáveis. Mesmo em famílias privilegiadas da classe média e mesmo da alta desde que não nova rica, existiam regras claras. Por exemplo era obrigatória uma mas só uma peça de fruta. Se tirássemos pão do cesto, havia que comê-lo. Se não comêssemos pão era certo e sabido que na próxima refeição havia açorda. Nos finais de mês era recorrente a ida à dispensa, de onde apareciam conservas de lata, e um prato podia ser peixinhos da horta com feijão verde, sem peixe nem carne.
No área económica, há duas ciências; contabilidade e estatística. O resto não é ciência. Na microeconomia, gestão e administração têm muito mais a ver com arte do que com ciência. Nem a gestão do capital humano, hoje a mais importante vertente das empresas médias ou grandes, pode ser chamada de ciência. Economia política é política e Macroeconomia ou é estatística ou é fraude.
Repito: Ciência Económica é já novilíngua, embora seja anterior ao conceito o que, aliás, nem é raro. Claro que há várias teorias económicas e assim pode-se falar em Ciências Económicas mas quando alguém as reduz a (uma) Ciência Económica, de duas uma, ou está enganado ou quer-me enganar.
E, quanto aos agentes dessa “Ciência Económica” dou-lhe dois exemplos.
Apenas um economista de renome Ferreira do Amaral – de esquerda moderada, era assessor de Jorge Sampaio – se opôs à entrada de Portugal no Euro. Desafio-o a encontrar uma teoria económica que preconize moeda única sem harmonização fiscal; ou acrescento, sem um mínimo de regras comuns no mercado do trabalho.
Recordo outro economista, aliás simpático, moderado, liberal e defensor da (então) CEE que na TV pouco depois do 25 de Abril, informou-nos que iríamos ficar ricos (passe o exagero) pois o dinheiro gasto na guerra do Ultramar seria aplicado em investimento. Dois anos mais tarde, com o mesmo ar seráfico, veio à TV explicar-nos que tínhamos ficado todos mais pobres porque, perdida África, mais ninguém comprava o vinho e os têxteis de má qualidade que produzíamos.
Ciência Económica? Porra!
Passei anos a leccionar uma interessantíssima disciplina (universitária) intitulada “Antropologia do Económico” – coisa que decerto levantaria urrosum coro de veementes críticas de muitos dos habituais comentadores do DO, viciados no “contraditório”, se o viessem a saber. Como tal não serei eu a vir aqui defender a Ciência Económica…
Quanto à redução da Economia à gestão doméstica que V. (este V. é qual sigla significando, friso-o, “o Senhor”) realiza não me pronuncio. Que algum economista lhe faça o contraditório, necessário.
Que bem escrito que está este texto e tão explícito à nossa compreensão.
“O Homem é a medida de todas as coisas”… – ás vezes…
Obrigado pela sua gentileza.
Em primeiro lugar, as “ciências” sociais não o são, porque não são factuais mas sim baseadas em modelos ideológicos. Um bom cidadão hoje, seja isso o que for, não é o mesmo que sê-lo há 500 anos atrás. A acredito piamente que ser um bom cidadão em Portugal difere de o ser nos EUA, Suécia, ou Botswana. Os chamados avanços ou recuos civilizacionais assumem que só existe um caminho, não creio que haja um filósofo ou pensador na História que possa concordar com essa afirmação.
Não faço a mínima de qual o conteúdo da dita disciplina, por isso não comento se é woke (seja isso o que for), wok, frita ou assada. Devia ser facultativa? Talvez… também há quem defenda que a Educação Física ou Musical deveriam ser, por não serem determinantes pedagogicamente.
Discordo que os pais boicotem a dita por não avalizarem o conteúdo. História também pode ser “culturalmente ofensiva”, os conteúdos de Português enfim (se aparecesse um Chagas-Freitas como leitura obrigatória teríamos de comer e calar?), provavelmente há progenitores que não querem ver os seus petizes expostos à escrita do Marx, ou a correntes filosóficas diversas. Se cada um tiver autorização para escolher o programa dos filhos, isto não tem fim.
Claro que o Ministério, ou seja lá quem decide isto, deve colocar o “superior interesse das crianças” acima disto, e não é ao chumbá-las que o faz.
Vir negar o estatuto das ciências sociais é como os tipos que vão aos blogs de culinária defender que arroz branco empapado, batata frita de pacote, num naco de carne de vaca encarquilhado e debruado a nervo frito em óleo e dito bitoque, encimado com ovo estrelado já semi-cozido, é um prato de refinado bom gosto. Passo, não tenho paciência para esse arrazoado.
queira ou não
aquilo a que chama ciências é tão somente cultura
Sim, num dos múltiplos (e latos) sentidos de “cultura”. Mas isso nada tem a ver com esse estafado e ignaro argumento que avançou., Entenda bem, sem quaisquer rodeios: o grau de indigência intelectual que é necessário para andar em público a perorar sobre a falta de cientificidade das ciências sociais, e o pateta costume de lhes colocar aspas, é tamanho que as pessoas que andam por aí afora a botar isso ou são os atrevidos direitolas que se julgam epígonos da escassa meia dúzia de polemistas que nos anos 1960s foram estudar ao Russell Group e que vieram tonitruar na imprensa em Portugal (grupo excluo Hermínio Martins, que não se dedicou a polemizar). Ou são anónimos na internet, que escondem nome e cara para se sentirem à vontade para publicarem dislates atrevidos. Não há nada de errado com a ignorância, todos a temos. O pior é a ignorância atrevida. Essa é insuportável.
O jpt ainda está magoado por lhe ter aconselhado (não mandado) ouvir a Inês Pedrosa.
As ciências sociais não são factuais ou exactas, por mais voltas que se dê. Dependem de leituras e interpretações, baseiam-se em dados (fornecidos pelas tais ciências exactas), empirismo ou experimentação, mas também em factores puramente ideológicos. Uma molécula de água tem a mesma composição, aqui ou no Senegal, já conclusões sobre identidade de género, tradições ou conceito de família diferem consoante o ambiente.
E claro que o arroz pode ser solto, ou malandrinho, conforme o prato principal. Isso é facto científico.
É evidnete que estou, isso de mandar consultar Pedrosa provocou-me uma mágoa indelével.
Quanto à “discussão” (assim mesmo, com aspas) sobre o estatuto científico das ciÊncias sociais, sobre as suas características interpretativas, sobre o que é ciência, sobre o paradigma da Física como ciência e sua evolução, etc, etc, etc – por amor de Deus, diz o ateu, não tenho paciência. Insisto, as pessoas não são obrigadas a saber aquilo que não lhes é fundmental no trabalho. Nem sobre o resto. Podem é ser menos assertivas quando falam do que desconhecem, assentes no “eu é que sei” e em atitudes que confundem com “posições políticas”. E no ouvir dizer por parte de gente conhecida…
Para mim uma das coisas mais interessantes nesta disciplina é que parece assinalar mais um dos acordos secretos na alta sociedade portuguesa “moderna”. Empreendedorismo+LGBT mostra que a coisa foi negociada.
Os Democratas perderam o estado da Virginia por isto. O seu candidato disse
“I don’t think parents should be telling schools what they should teach.”
Foi sempre isso que a extrema esquerda pensou. Que as crianças são propriedade do Estado e os país não podem ter opinião quando a esquerda tem o poder.
eu não penso que a “coisa” tenha sido “negociada”. É apenas uma impensada justaposição de temas em voga. Mas não deixo de sorrir diante dos “intelectuais” (publicistas, colunistas) que se auto-identificam como de “esquerda” a defenderem esta disciplina sem sequer perceberem o que lá está, em particular a tralha do “empreendedorismo”.
“Mas é evidente que no programa desta disciplina – num país de monoparentalidade crescente e de enorme taxa de divórcio (uma das maiores causas de empobrecimento, ou talvez mesmo a maior em períodos de acalmia financeira) – há uma reduzida preocupação em veicular a bondade virtuosa (potencial, entenda-se) de importantíssimas dimensões da vida social, estas da monogamia heterossexual de teor conjugal.”
Pedir que hajam bebés é burguês convencional ou religioso, por outras palavras anti ideologia progressista do regime. Pelo menos até quando este não precisar de soldados para a revolução e defesa da pátria a caminhar para o socialismo.
Fica ainda que esta disciplina de propaganda do regime é onde Portugal desaparece. . Afinal onde está Portugal? a religião Católica na disciplina de cidadania? touradas? festas locais? os principais clubes e organizações da sociedade?
Será a disciplina de cidadania uma disciplina para ajudar a acabar com Portugal?
Não posso deixar de concordar com o reconhecimento desse fundo ideológico deste deriva curricular, aquilo da desnecessidade da família burguesa, patriarcal, repressiva etc, muito da vulgata “libertária” anos 1960s, advinda do radicalismo pequeno-burguês, opúsculos de psico-psicanálise, e legalize it festivo.
Quanto ao que diz sobre o ensino do que é “Portugal” julgo que existe, e em ror suficiente, no currículo escolar.
Nada como a educação ministrada nos colégios das ordens religiosas vocacionadas há séculos para o ensino . isso sim , é Escola , a do estado , hoje em dia, é uma fábrica de seguidores de marketing estatal e pouco mais
bem, as escolas religiosas não deixam de ser instrumentos de marketing de sistemas de superstições acopladas a mezinhas…
Parabéns. Além dos vastos conhecimentos sobre ensino em geral, Portugal em particular e ciências – que se mascaram no prestígio das ciência exactas para tentar escamotear o intrínseco empirismo – também consegue reduzir as escolas religiosas a um estereótipo compreensível e assimilável pelo menos dotado dos pouco inteligentes.
Fui aluno de Salesianos e de Jesuitas – também de um Liceu Nacional, uma escola primária pública e outra privada e, talvez por isso, não conseguiria tal proeza. Ou então sou estúpido!
P.S. Já no novo regime, tive de acompanhar os meus filhos no ensino público – não tinha dinheiro para o privado – e de ambiente a instalações a relacionamento com os agora chamados auxiliares de educação mas, a grande distância do resto, professores e conselhos directivos democraticamente eleitos por plenários de professores com participação mitigada de alunos e auxiliares, tudo terá contribuído para me poupar largos anos de Purgatório. Suponho portanto que me devia sentir grato,e, claro, louvar o regime.
Francisco Almeida, eu fui o suficentemente esclarecedor no meu comentário anterior: se quer revisão de provas terá que dirigir-se à secretaria e seguir os procedimentos administrativos requeridos.
Adianto que para a boa realização de tarefas escolares posteriores deverá ler bastante, única forma de incrementar as suas capacidades de interpretação textual. E só assim conseguirá entender que (e como e quando) a uma mera atoarda se responde com uma mera atoarda. Nesse estado incipiente em que se encontra não lhe aumentarei a nota. E pode ficar aí no corredor a ensaiar sarcasmos sobre os meus conhecimentos, que não será por isso que os seus contributos no “contraditório comentatório” blogal serão mais eficientes.
É engraçado como a narrativa acompanha a história.
No meu tempo a Educação para a Cidadania era a Mocidade Portuguesa, e não havia misturas, os meninos aprendiam dum lado e as meninas aprendiam do outro. As meninas tinham lavores femininos, os meninos tinham oficinas. Era assim que o ensino devia ser, diziam os iluminados da altura.
Os meninos e as meninas cresceram tão traumatizados que agora tem de ser o estado a dizer o que os seus filhos devem comer, por onde devem respirar e qual a marca da compota para oferecer no Natal.
Desisto (que é que eu posso fazer?), este mundo está louco.
Carlos Sousa, não desdigo a sua tese, a de que o mundo está louco (mas não é essa a tese de todas as gerações encanecidas?). Mas tenho a sensação de que essa característica da actualidade se nota muito mais em fenómenos que nada têm a ver com a singela disciplina de rame-rame que levanta toda esta polémica.
Quando o sucesso escolar de dois miúdos depende da sentença de um juiz, só mostramos que a Educação para a Cidadania é uma disciplina que só pode ser aplicada de forma repressiva.
A família Mesquita Guimarães não é um cisne preto.
Nem o juiz consta do syllabus da disciplina.
Olhe que se calhar até consta, que isto do Min Educação tem muito que se lhe diga…
julgo muito certeiro o que diz Henrique Pereira dos Santos no Corta-Fitas: se cumpre aos encarregados de educação prover à conclusão da escolaridade obrigatória então [as] hipotéticas sanções deveriam incidir sobre estes pais e não sobre os alunos
Certíssimo. Mas que sanções sobre os pais propõem o Henrique Pereira dos Santos e/ou o jpt? Retirar-lhes a guarda dos filhos parece claramente excessivo. Que sanções alternativas propõem?
(Na China as coisas estão bem feitas. Cada cidadão tem uma classificação por pontos que determina se é um bom ou mau cidadão. Os maus cidadãos sofrem uma variedade de punições – casas piores, bilhetes mais caros, etc. Mas cá em Portugal um tal sistema não está implementado. Que fazer, então, aos maus cidadãos que não deixam os filhos assistir às aulas de Educação para a Cidadania ou que não separam adequadamente o lixo para reciclagem?)
Comentador balio, o que proponho eu? Que o Estado engula a patetice em que se meteu, que deixe de incomodar estes dois alunos. Tudo isto é uma parvoíce: uns progenitores que encontraram uma (parcelar) “razão de ser”; um coro de burocratas inanes. E, se necessário, que torne a disciplina em algo facultativo (de facto tem todos os condimentos da velha Moral e Religião – preceitos éticos para a vida em comum, ou seja, matérias que não devem ser curriculares – acoplados a temas que são introdutórios a disciplins próprias, que podem ser transpostos para outras disciplinas).
Quanto a esse modelo chinês, vade retro Satanás.
A escola tem de ensinar matérias científicas, históricas e literárias. E basta. O trabalho de decifração, fazer escolhas e tomar posições baseadas na sua sensibilidade compete ao aluno e a mais ninguém. Jamais deve ser entregue aos plataformistas do BE que controlam o ensino. Tudo o que está para lá das matérias é treta e não serve para nada a não ser para formatar as criaturas no discurso marxista em vigor, para criar um lado bom e um lado mau da sociedade e para distinguir os “humanistas” dos malvados “liberais”.
Não basta ler o que vem no programa — isso é palha para encher os dossiers. O que interessa é ver o que os professores dizem nas aulas e como dão essas matérias. E isso eu sei muito bem como é feito porque fui um deles (felizmente já não pertenço a essa cáfila) e sempre me insurgi contra este tipo de ensino revisionista e paternalista de esquerda. É uma bosta e os resultados estão à vista: duas gerações inteiras de ignorantes que recitam ladaínhas idiotas sem inteligência nem critério. E pior: todos desempregados e sem saberem o que fazer.
Quem controla o Ministério da Educação é o aparelho socialista e o sindicalismo PCP.
Tanto quanto sei o gabinete de estudos de onde saem os programas nem tanto — é mais das criaturas que saem do ISCTE, da Nova e das psis. E o PS também tem uma ala plataformista. O PCP, é claro, não tem nenhuma ala. Mas isto agora é mainstream, já não é uma conspiração.
Aceito que tenha razão, eu apenas especulava pois, honestamente, desconheço os meandros da administração escolar e da produção curricular. E concordo com o que diz, esta mundivisão é mainstream no funcionalismo
“You, sir, will not mold my son. I will mold him.”
Subscrevo na íntegra esta frase. Descobrimos que estamos velhos quando ficamos do lado dos pais em filmes como este.
é mesmo isso. O filme (que é mediano) tem essa piada – faz-nos aderir ao voluntarista, competente, empenhado e simpático professor. E defronta-o com o pai, algo absentista e ainda por cima arrogante poderoso. E põe na boca do antipático o que é bom de ouvir (é uma estratégia interessante).
Esse filme não vi. Eu vi o Clube dos Poetas Mortos com a minha turma escolar por iniciativa de uma (óptima) professora. Adorei.
Vi depois novamente depois de adulta e mãe e achei uma xaropada. Parece-me que aquele professor extravasava largamente as suas competências. Odiaria que um professor dos meus filhos os incentivasse a rasgar livros.
Fiquei arrepiada.
Pois, o clube dos poetas mortos, que quase chegou a filme de culto, envelheceu imenso (ou fomos nós que envelhecemos?).
Devo acrescentar que os valores se transmitem muito mais cedo. Em particular, é muito importante estar atento e disponível quando os miúdos são pequenos. Na fase da adolescência o carácter já deve estar formado, e não vem mal maior ao mundo o que certos activistas possam dizer. Ainda assim é um abuso da parte do governo impor disciplinas como esta cidadania.
A disciplina parece estar cheia de língua de pau em alguns dos temas. Mas também naõ me parece que faça cair o Carmo e a Trindade. E, como muito bem refere, os miudos são influenciados em casa e alhures, não será isto que os vai conduzir definitivamente no futuro. Mas sim, algumas destas temáticas – de índole mais “moral” – poderiam ser agregadas numa disciplina optativa.
Não me parece errado abordar estes assuntos com os adolescentes (>12), desde que com o conhecimento dos pais. Antes disso os miúdos precisam de certezas e não de dúvidas. O que me parece errado é leccionar uma disciplina com esta temática como se tratasse de de matemática ou biologia. Não há certo ou errado nestas discussões, e muito menos autoridade do professor nestas matérias, como existe nas outras disciplinas.
Na turma de uma das minhas filhas foram dois estudantes de medicina falar do género. Porquê estudantes de medicina? Para dar uma aura científica à matéria. Eu não lhes reconheço qualquer autoridade nesse assunto e disse isso mesmo à minha filha. Têm a mesma autoridade que um jogador de futebol a discursar sobre física quântica.
Pois, as questões do género (e sexualidade) é que nos levantam esta polémica. Não sabendo eu o que se terá passado nas aulas que refere (como é óbvio) em princípio estou de acordo consigo – posso saudar o (mesmo que cândido) intuito do docente. Mas de facto estamos a sofrer (poluídos) os efeitos da importação das lutas sociais norte-americanas que se representam na ideologia racialista do “género”. Há uma grande pressão, política-mediática e talvez corporativa (no professorado) para que se esteja “actualizado”, seguidor do “género”, e isso reduz a autonomia – principalmente no sector profissional dos docentes do secundário – para ter uma visão crítica deste feixe de perspectivas.
Há alguns meses a minha filha – que é finalista de licenciatura – estava a montar o seu painel de disciplinas e conversei com ela sobre o assunto. Abundavam as disciplinas de “género e…” (conflitos, economia, ecologia, etc.). E eu resmungava com aquilo. Não se trata de estar alheio às questões de desigualdade de direitos (temática sobre a qual trabalhei) mas avesso a este “chapéu” que a tudo cobre e nada reflecte a não ser a agenda que se foi impondo nos campi norte-americanos, nos “liberais” a la americana. E para essa desnecessidade e inutilidade do “género” assim visto (uma patética ideologia libertária) fiz-lhe a analogia: quando estudei nos anos 1980s levávamos com Marx (e ainda bem), com inúmeros marxistas (e ainda bem) e (já) neo-marxistas, mais os comentadores de Marx (alguns deles preciosos). Bem como com os estruturalistas, que cobriam parte substancial dos currículos (alguns deles preciosas leituras, como Dumézil ou Levi-Strauss). A estes últimos passadas algumas décadas pouco se liga. E aos outros quase tanto, a não ser os seus “desvios” de género… São as mesmas inutilidades feitas de modas e preguiça intelectual. E de submissão dos corpos docentes.
Quanto ao desatino pedagógico no ensino secundário: eu lembro-me de em 1977 no meu 7º ano ser alvo dos primórdios da história universal, assunto que me apaixonava. Mas o programa diluia-se nos cereais que a Mesopotâmia e Egipto produziam e coisas similares, no primado então em voga da história económica assim entendida. Coisa pobre que me parece ser agora refractada nesta patética visão da “sociedade ensinada à puberdade”.
Mas tudo isto é normal num país em que o ministro da Educação acaba de vir louvar a Filosofia do Ubuntu e a sua importância escolar [https://www.dn.pt/sociedade/ministro-s ublinha-importancia-da-filosofia-ubuntu-n as-escolas-para-aprender-e-ser-melhor-14 299578.html ]. É o grau último da indigência intelectual, algemada ao querer agradar aos movimentos identitaristas e revisionistas da história.
Absolutamente, jpg.
Na realidade minhas filhas adolescentes têm poder de decisão nestas matérias. Nós deixaríamos ao critério delas frequentar ou não a disciplina de Cidadania (o que aliás já fazemos com a disciplina de Educação Moral e Religiosa). Sinceramente duvido muito que abordem temas que nós já não tenhamos abordado em casa.
Agora, irritou-me de sobremaneira que no primeiro ciclo uma das minhas filhas tenha assistido a uma palestra (consentida por mim), intitulada “Alimentação Sustentável”, que foi na verdade uma promoção do veganismo. Este tipo de activismo é desprezível.
No texto anterior que botei sobre este assunto, e que liguei neste postal, referi um pouco isso: o problema da leccionação destas temáticas radicará muito mais nas características sociológicas (e assim intelectuais) do corpo docente. Que são, por deriva societal, muito deprimidas. E que é um corpo social que tem um poder discursivo enorme, mas como reprodutores, nisso sendo alvo preferencial das agendas mediáticas. Nisso são alvo preferenciais deste movimentos new age, religiosos, alimentares, ecológicos. E, porque muitos vêm de licenciaturas onde lhes ensinam a correlação entre formação intelectual e activismo, não têm ideia do necessário apartar entre docÊncia e doutrinação.