DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Margarida Craveiro: «Têm surgido bastantes, dos lados mais improváveis. Clamam que é injusto, que os privados também deveriam “pagar a crise”. Hoje, queria só recordar a esses paladinos da equidade que há quem receba a recibos verdes, doze meses por ano (isto quer dizer que não há cá lugar a subsídios), e tem de pagar uma tal de sobretaxa extraordinária. No caso dos restantes mortais, essa taxa é aplicada sobre o subsídio de Natal. No caso dos desgraçados a recibos verdes, já que não têm o referido subsídio, é aplicada sobre os restantes rendimentos (os tais doze meses que o ano tem). Nessa altura, ninguém se lembrou da equidade, não foi?»

 

Ana Vidal: «Porque será tão desesperadamente efémero tudo aquilo em que somos os maiores do mundo?»

 

João Carvalho: «A Itália já perdeu (andou sempre a perder) com a permanência de Berlusconi. Mas ele ganhou. Ganhou, por exemplo, ao ter feito muitas vezes o que lhe deu na real gana e dispensar-se de encarar a lei. Não faltam motivos para ver nos excessos de Don Silvio um (mais um) retrato de uma geração de políticos europeus que não deixarão saudades. Para qualquer europeu, é menos um cromo. Adeus.»

 

José António Abreu: «António José Seguro insiste que há folga no orçamento para cortar apenas um dos subsídios aos funcionários públicos. Devo admitir que, quando o vi na televisão a afirmar tal coisa, com aquele ar de menino precocemente envelhecido, aquele olhar repleto de intenções puras, aquele registo de voz clerical, chegou a convencer-me. Que diferença em relação ao engenheiro-aspirante-a-filósofo. Mas depois aqueci um cházinho e sentei-me a bebê-lo roendo umas bolachinhas e olhando para a frase Uma Mentira Mil Vezes Repetida na capa do livro do Marmelo (que desconfio não ir acabar de ler hoje) e comecei a ficar com dúvidas.»

 

Laura Ramos: «Pode esperar sentada – dizia-me o agente do comando distrital da PSP, no seu jeito rústico-polido. Eram quase 8 da noite e fazia um  frio de quebrar ossos no moderno átrio da entrada onde ele recebia os demandantes, aparentemente imbuído do papel de anfitrião magnânimo na distribuição dos seus confortos.»

 

Leonor Barros: «Podia ser piada de Carnaval, mentira do 1 de Abril, ou apenas uma laracha jocosa, mas para nossa grande infelicidade e até vergonha é verdade. Alberto João Jardim decretou tolerância de ponto para os funcionários assistirem à sua tomada de posse. E depois querem que nos levem a sério. Logo agora que a Troika anda por aí. Não podiam ao menos esperar mais umas semanas?»

 

Rui Rocha: «O Estado Social, na Grécia, não é mais do que um expediente utilizado pelos políticos para calar os cidadãos e utilizado por certos cidadãos como desculpa para absolver os políticos. O Estado promete o que não tem e dá a quem não deve dar, comprando o silêncio e o compromisso daqueles que furam o sistema como podem, recebendo, em prejuízo de outros, aquilo a que não têm direito.»

 

Eu: «Não há modelo social europeu numa Europa falida. Quem defende um ‘estado social’ deve defender, no mesmo passo, finanças sólidas. Perante o actual “Inverno demográfico” e os anémicos índices de crescimento económico hoje existentes, deixou de ser possível encarar com aquela complacência a gigantesca rede de fraudes que desvia sem remissão o ‘estado social’ dos seus fins legítimos. Eu defendo o modelo social europeu. E, por isso mesmo, não consigo encarar essas fraudes com a benevolente tolerância adoptada pelo Sérgio [Lavos]. A questão de fundo é esta — e não qualquer outra.»

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