O regresso ao social-fascismo


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“É fácil atirar contra o Chega bruto, o de Ventura, mas achar graça ao Chega sofisticado do Observador.”, diz José Pacheco Pereira no “Público” de hoje.

Poder-se-á elaborar sobre as intenções do comentador, sobre o peso do legado das questiúnculas internas no PSD, desde a compita entre Passos Coelho e Ferreira Leite – amplamente abordadas no então Abrupto – até à actual, entre as diversas “tendências” daquele partido. Ou propalar uma deriva do comentador, de regresso a laivos da mundivisão que patenteou até aos anos 1980s, num período antecedente à sua dinamização do “Clube de Esquerda Liberal”, já no rumo que o conduziu ao PSD de Cavaco Silva. Poder-se-á até, com malevolência desrespeitadora, aventar um ocaso analítico. Ou outro qualquer força motriz íntima.

Mas nada disso é relevante. Não só porque se restringe a uma atenção pessoalizada mas, fundamentalmente, porque nada diz do ambiente geral em que este tipo de dichotes são consagrados e respeitados. Pois, de facto, o relevante é que esta afirmação do comentador é denotativa do ambiente de alguma esquerda transgeracional actual, o regresso da invectiva aos “sociais-fascistas”. Sendo estes todos os que não aderem ao ideário virtuoso que esses auto-proclamados “progressistas” perseguem – mesmo que este seja mais fluido e abrangente, menos “científico”, do que na primeira versão histórica deste epíteto. E o que o foi um verdadeiro drama suicidário, naqueles anos 30s de XX, é hoje, no remanso português de Pacheco Pereira e afins, uma patacoada de triste farsa.

É(-me) uma dor de alma assistir a isto.

 

70 comentários em “O regresso ao social-fascismo”

  1. Para um auto-intitulado historiador falar em Social-Fascismo é de arrepiar.
    O Fascismo é Social por definição. O Fascismo sempre colocou o Social na primazia da sua política pois tem a sua origem no Socialismo e no Marxismo.
    Não é por acaso que o país Fascista se passou a chamar Republica Social Italiana após a separação da monarquia e com um ministro da economia que o Pacheco Pereira deve admirar e ter admirado muitos anos da sua vida dado o programa de socialização da economia…. acabou pendurado com Mussolini. Isso é censurado. Afinal um conhecido de Lenine fazer parte do governo de Mussolini dificulta a narrativa que as redacções dos jornais querem passar…
    No pós guerra o herdeiro do Partido Fascista à falta de poder usar a palavra Fascista chamava-se Movimento Social Italiano.
    Não existe Fascismo sem o Social.

    Por vezes parece que o PP está a lutar contra o seu Eu. Recalcamento?

    1. O anti- faz sempre parte do -ismo e corresponde à mesma estrutura. Nunca houve grandes diferenças entre o social-fascismo e o comunismo, tirando a existência ou não de corporações.

      O novo vai estar sempre no pós- isso tudo e mesmo assim é infectado pelo patois dos regimes anteriores. E virar a página é o que estes sábios dos jornais não conseguem fazer. Não conseguem superar o discurso onde foram construídos e regressam sempre às mesmas coisas.

      Acho que não é um recalcamento, é o esqueleto.

      1. Social-Fascismo é uma redundância. O Fascismo pela sua ideia-logica é social.
        A Carta del Lavoro apareceu de onde?

      2. “Nunca houve grandes diferenças entre o social-fascismo e o comunismo, tirando a existência ou não de corporações.”
        Mas essa é uma grande diferença, que até é maior que meras “corporações” . No Fascismo podes abrir a tua bancada e podes até certo ponto fazer a vida fora do Estado desde que sejas pequeno, até tens alguma liberdade na educação.
        No Comunismo isso é impossível. Curiosamente o “nada fora do Estado” de Mussolini aplicou-se ao Comunismo mas não ao Fascismo. Mussolini nunca tocou na FIAT muito ligada aos meios monárquicos., um exemplo entre outros.
        Pode-se discutir se essa liberdade na educação se deve à cultura Italiana mais tolerante.
        Por exemplo Mussolini não destruiu a Monarquia quando tomou o poder porquê?
        A-O Fascismo não implica o Totalitarismo.
        B-O Fascismo tem potencial Totalitário mas a cultura Italiana e influência da Igreja Católica serviu como moderador dessa ideologia.
        C-O Fascismo tem potencial Totalitário mas a personalidade de Mussolini e outros serviram como moderador.
        Hitler teria acabado com uma eventual Monarquia, pois a visão totalitária e purificadora do Reich não aceitaria a corrupção burguesa. Os Bolcheviques claro assassinaram o Czar.
        No Fascismo soldados e marinheiros Italianos faziam juramento ao Rei em primeiro lugar. Só depois a Mussolini.

        1. Não vou reproduzir a definição de totalitarismo do Dicionário da Porto Editora.
          ‘C-O Fascismo tem potencial Totalitário mas a personalidade de Mussolini e outros serviram de moderador’
          Moderador de quê? De não ser potencialmente totalitário e ser favorável a eleições com vários partidos políticos?

          1. O totalitarismo não se define pela falta de eleições. define-se pelo controlo que um governo tem em todos os aspectos da vida das pessoas. Em teoria mas cada vez mais próxima da realidade uma democracia pode ser totalitária , seja por acção do voto – sim as pessoas podem votar para o seu regime ser totalitário -, seja por abuso, corrupção do poderes ( aqui entram também as autoridades, agências que podem fazer regras à margem do parlamento)
            O fascismo Italiano foi autoritário, não totalitário. Mas tinha/tem claro potencial totalitário.
            Vamos supor que em face da gritante falta de nascimentos uma maioria de 51% dos portugueses vota que todas mulheres devem ter pelo menos 2 filhos se tiverem condições (a definir) para tal. Isto seria claramento uma lei totalitária. Seria suficente para definir a democracia portuguesa como totalitaria?

          2. Então, todos os habituais e variados referendos na Suíça são totalitários, quem diz na Suíça dirá na Cocegânia o país da risota.

    2. Nos tempos do PREC, principalmente no verão-quente de 1975 lia-se ‘Começou a guerra entre fascistas e sociais-fascistas’ , na primeira página do jornal “Luta Popular”, escrito pelo grande educador da classe operária Arnaldo Matos, do PCTP-MRPP.
      Em que ficamos, o homem já não está cá entre nós para explicar, quem eram os fascistas e os sociais-fascistas.

          1. O Anonimus esquece a dimensão alienante da wikipedia, instrumento nas mãos do grande capital para obscurecer as teorias revolucionárias e os factos que as sustentam.

        1. Sim, conheço essa.
          Não percebia, ou talvez percebesse, sendo o PCP estalinista o “grande educador” o tratava por social-fascista.

          1. Sim, Anónimo, a peculiaridade do “social-fascismo” no Portugal PRC e pós-PREC é que foi popularizado como invectiva ao partido brejnevista

      1. Porque é que o homem já cá não está? Há poucos anos foi entrevistado na Madeira, onde advogava e tinha exactamente o mesmo discurso de 1975. Morreu entretanto?
        Mesmo que tenha morrido ou, sei lá, emigrado para a Venezuela ou para Cuba, podem sempre pedir-se esses esclarecimentos ao dr. Durão Barroso que estava muito “in”. De facto lembro*me dele ter escrito no “Luta Popular” que era inevitável que o dr. Arnaldo Matos conquistasse o poder e instaurasse a ditadura do proletariado.

          1. Pois, morreu vão fazer três anos.
            Mas, além de Durão Barroso, pode-se consultar Ana Gomes.

  2. Perdem demasiado tempo com um marxista teoricamente reconvertido em democrata. Ou, como diz o povo de que faço parte, gastam demasiada cera com ruins defuntos.
    Chamar intelectual a esta criatura é ofender intelectuais na verdadeira acepção da palavra e promover apenas um burgesso .
    Nada mais que isso. E já gastei demasiadas palavras com a criatura.

    1. “Chamar intelectual a esta criatura é ofender intelectuais na verdadeira acepção da palavra e promover apenas um burgesso .”
      Dor de cotovelo.
      Muito intelectual tem inveja da obra de Pacheco Pereira.

        1. “O que é um intelectual?”
          Não é assim tão difícil responder. Um trolha é um intelectual? Um jogador de futebol? Cristiano Ronaldo? Um gestor de um super mercado? E Eduardo Lourenço? Um escritor ou filósofo?
          Um homem que tenha escrito vários livros de História?

          1. Como vê é uma palavra inútil, se só define um gajo que escreve livros. Você meteria Deleuze, Umberto Eco e JPP no mesmo saco?

        2. O intelectual sabe tudo e mais alguma coisa. Cristiano Ronaldo sabe tudo sobre futebol, logo é um intelectual da pelota.

          1. Anónimo, esse é o tipo de “boca” inútil. Se há coisa que caracteriza os intelectuais – profissionais – é o saberem que não sabem imensa coisa. Você, anónimo, confunde os tudólogos que vê na televisão com os intelectuais – e isso só demonstra estreiteza de conhecimentos e de interesses. E não é dos outros, é mesmo de quem “amanda” essas “bocas”, mão na anca, cioso de si, palito ao canto da boca.

  3. O social-fascismo foi e é uma ambição dos grupos radicais de extrema-esquerda e direita bem como daqueles que destes se valem para cumprir suas ambições. Portanto, é transversal às sociedades. O caso português não é excepção e só revela que a história faz-se em círculos concêntricos.
    Por outro lado, o social-fascismo foi uma oportunidade que permitiu e permite que as economias se valham do recurso de todos para o bem de alguns.
    Nada de novo debaixo do Sol.
    Deus vos abençoe e vos dê forças para os mandar foder a todos.

  4. Já o disse muitas vezes e repito-o: tenho imenso respeito pelo trabalho de preservação do papel que o Pacheco Pereira faz com a Ephemera. Contudo, cada vez mais é-me necessário separar o homem da obra.

    1. João Sousa, eu também já disse in-blog por várias vezes: o Pacheco Pereira foi meu professor na licenciatura e dele guardo memória de um excelente professor, sábio, analítico, contextualizador. Exemplar. Foi um dos dois grandes professores que tive nesse passo da minha formação, e tive ainda alguns outros de grande qualidade. Como tal todas as habituais lérias – que também aqui surgem – que confundem oposição política ou discordância com a argumentação com a negação dos conhecimentos e capacidades alheias (“pseudo-intelectual”, “falso historiador”, coisas dessas – ainda para mais botadas por gente que nem sabe do que fala e contesta, e para isso basta ver os comentários acima, de tom “doutoral” mas que – exactamente por esse tom – surgem mostrando uma pungente ignorância sobre o que se fala), essas desvalorizações, dizia eu, valem nada.

      Mas, e se é evidente que para botar na imprensa, mergulhando na vida política da actualidade, não é preciso fazer actuar esse manancial de conhecimento intelectual, e muito menos mostrá-lo, também é notório que jpp prefere assumir um tom de publicista, polemista, que é demasiado rasteiro, e enviesado. Além de que tem “ódios de estimação” os quais lhe minam a pertinência (e o “Observador” é um deles).

      Agora isso do trabalho da Ephemera é importante. E, já aqui o botei uma vez, dá a sensação de que o mergulho nesse trabalho, e na articulação da equipa, julgo que vasta, de colaboradores voluntários em tal tarefa, o recentrou ideologicamente, o ancorou afectivamente numa época e numa topologia. O fez regressar ao passado, por assim dizer. Foi “raptado”, seduzido, pelo objecto. Acontece a muitos, mas mais aos antropólogos do que aos historiadores…

        1. V. há comentários epidérmicos (e alguns até mesmo muito o são). Tal como também há postais epidérmicos. Mas atente na fiada de comentários iniciais a este postal, nada há de epidérmico, apenas o ecoar de pressupostos completamente “ao lado” do que se fala, uma verdadeira “doutorice” comentatória.

          1. Quando gente normal faz comentários sustentados em argumentos parece-me um triunfo do post e é sensato presumir que as pessoas que o lêem também são, no mínimo, sensatas. Não consigo ver nisso charlatanice.

            Curiosamente, dizer mal dos comentadores dos blogues é uma maiores soberbas intelectuais alguma vez perpetradas por Pacheco Pereira (nem nisso ele consegue ser original) e até existe um texto famoso no Abrupto em que chega ao ponto de invocar alguns comentadores conhecidos como exemplo, citando-os, descontextualizando o tom dos comentários do sítio onde ocorriam e do assunto. Enfim, um exercício de grande precisão laboratorial e de elevado espírito científico.

          2. V., 1: eu não falei em charlatanice. Aqui ninguém vende algo nem aldraba outrem, nem os bloguistas nem os comentadores;
            2.tem razão no que diz, se um postal promove uma conversa nos seus comentários sobre outros temas mais ou menos ligados ao seu conteúdo, isso é simpático, interessante, e decerto que curial. Se eu escrever sobre as minhas frustes tentativas culinárias, bacalhau cozido por exemplo, e se V. e outros comentadores quiserem assumir o assunto como dínamo de reflexões sobre pudin flan, doçaria tradicional portuguesa, vinhos licorosos, digestivos destilados, dietas mediterrânicas e UNESCO, desflorestação e produção de alimentos vegetais ou bovina, alimentos transgénicos, divisão sexual do trabalho doméstico, etc. tudo bem. E se no correr das teclas comentadoras estiverem passado algum tempo a falar de outras temáticas (preços alimentares, Formula 1, colesterol, esperança de vida, atoalhados e naperons, protectores solares, sei lá que mais) também acho muito interessante e até posso meter o bedelho.

            Outra coisa bem diferente é um tipo botar um postal a falar de uma coisa (o tal bacalhau cozido, por exemplo) e surgirem de imediato alguns comentadores a garantirem que o bacalhau é um vegetal transgénico que causa doenças quando cozido, e que a ser consumido deverá ser frito em azeite abundante para evitar a degenerescência dos convivas.

      1. jpt, “falso historiador”, provavelmente, estará ligado ao facto de o senhor ter formação académica em Filosofia.
        Se eu escrever um livro sobre a vivência dum pastor transsexual da Beira Alta inserida numa vivência pós-trasumancia, mais sedentária numa sociedade fechada, territorialmente, mas globalizada por via das novas tecnologias e o impacto dessa vivência na comunidade, penso que isso não fará de mim um antropólogo. Continuo a ser um gajo com um curso técnico-profissional de carpintaria que escreveu um livro a armar-se em antropólogo.
        Posso estar equivocado, claro.

        1. Pedro Oliveira: 1) sorrio – mas algo entristecido – com esse exemplo da pesquisa antropológica. Que é adequado, tamanha é a uma deriva “activista” que demarca a imagem social da disciplina, sobre a qual não me vou por aqui a elaborar (nem blogo para falar de antropologia nem tenho já energia para resmungar com tais antropologices de “causas” feitas e de jargão adornadas. Pura e simplesmente viro as costas a esta tralha de campus e ongs euro-americanos);
          2) é um costume, apatetado, criticarem-se intelectuais / académicos de quem se discorda por qualquer razão – normalmente políticas – pondo-se-lhe em causa o estatuto profissional (já para não falar da estafada e tão ignorante resmunguice sobre o “intelectual”, que não é nada mais do que a refracção do ignorante ressentido). Dizer que alguém não é “qualquer coisa” porque dele se discorda é um tópico do baixo (baixíssimo) debate – e no caso de jpp isso surge amiúde, exactamente com essa configuração (licenciado em Filosofia, investiga/trabalha como historiador da contemporaneidade). Isso é apenas o reflexo de uma visão ignorante, a da absolutização (sacralização) mesmo da configuração do ensino disciplinar nas universidades portuguesas e congéneres, nos quais desde finais de XIX vigora tradição mais ou menos estanque de licenciaturas em determinada disciplina (ou ciência, se preferir o termo). Ora isso (essa tradição de arrumar disciplinas) não é universal – no contexto europeu e americano, que formulou a nossa visão actual de universidades e formações superiores. Ou seja, nada inibe que uma pessoa se tenha formado (licenciado, por exemplo) numa determinada disciplina e venha a ser praticante e/ou especialista de outra(s) disciplina(s). Não há nada que impeça alguém de estudar filosofia e se dedicar profissionalmente à história (para dar o exemplo em causa) e só a ignorância alheia o pode tentar criticar.
          3) há vários historiadores que não se formaram em História mas que para esse núcleo disciplinar derivaram (completa ou parcialmente). E há imensos antropólogos – desde os “fundadores” até aos “continuadores” chegando aos actuais “pós-tudo e mais alguma coisa” – que não se formaram inicialmente em antropologia. Alguns para lá derivaram por influência das suas biografias e interesses nelas germinados, outros exactamente por essa heterogeneidade curricular que nos consagra a possibilidade interdisciplinar.
          4) já agora, imensos estudos de cariz etnográfico (uma das nossas actividades preferenciais) foram feitos exactamente por gente que não tinha formação em antropologia e, quantas vezes, também não tinham estudos superiores (“cursos técnicos-profissionais de carpintaria”, se quiser). Não tinham nem terão por costume – e foi-lhes grande vantagem – centrarem-se nos “pastores transsexuais”, preferem e preferiam estudar, analisar e descrever “pastores”. Mas essa é outra questão.

          Ou seja, quer-se criticar os comentários políticos de jpp ou de outro qualquer? Avante. Mas não através dessa irrelevante resmunguice, a ladainha do “ele diz-se uma coisa mas estudou outra”. Não faz mossa ao autor e só demonstra que o resmungão não percebe do que fala quando resmunga. E ao fim e ao cabo isso só reforça a argumentação (política ou outra) que outrem avança-

          1. sorrio – mas algo entristecido – com esse exemplo da pesquisa antropológica.

            Ahahah, sim… Longe vão os tempos do cru e do cozido. Já que estamos numa de bacalhau.

          2. Social-Fascismo está ao nível de usar a expressão Social-Comunismo. É redundante.
            Mas claro muito util para aqueles que querem esconder as ligações ideologicas do Fascismo à Esquerda.

          3. lucklucki e V. insiste na ladainha… Honestamente, e com todo o respeito pelo jornalista e escritor, não tenho qualquer intenção de prosseguir o debate em tempos tornado “actual” por José Rodrigues dos Santos. E estou crente que ele deverá ter uma página pessoal (vulgo “site”) no qual essa questão ainda deverá ser tema candente. Quanto ao termo, dada a questão que comentador anónimo aqui colocou, já botei a ligação à wikipédia que me permite eximir a entrar no coro dessa mezinha verbal sem que me acusem de menosprezar os comentadores.

          4. Concordo consigo.
            Quanto a esta afirmação:
            “há vários historiadores que não se formaram em História”
            dou-lhe um exemplo.
            Não sei se conhecem o Professor Luís Albuquerque. Era Professor Catedrático de Matemática da Universidade de Coimbra. Licenciado e Doutorado naquela área. Mas foi também um notável historiador, tendo deixado uma obra vastíssima sobre a História dos Descobrimentos. A obra dele em História é muitíssimo mais importante do que o que fez em Matemática.
            Quanto a Pacheco Pereira, penso, como alguém disse, que há muita dor de cotovelo, sobretudo de intelectuais mais ou menos falhados.

          5. João, julgo que não podia ter encontrado melhor exemplo, e muito lhe agradeço a contribuição, pois Luís de Albuquerque – com esse perfil académico – foi um gigante como historiador.

  5. O ódio de Pacheco Pereira ao Observador terminará no dia exacto em que for convidado para lá escrever.
    Pouco falta, pela lei das probabilidades. Na medida em que o ilustre biógrafo de Álvaro Cunhal já labora para os grupos Media Capital (via TVI/CNN), Cofina (via revista Sábado) e Sonae (via jornal Público). Tendo laborado até data recente no grupo Impresa (via SIC Notícias) e anteriormente no grupo Lusomundo (via DN e TSF).
    Quase o pleno. Daria uma tese de mestrado, acredito.

    1. É. E tal como eu já aqui o referi há algum tempo – e presumo que te lembres disso – tem, sobre o estrado dessa sua situação profissional, o desplante de atacar a imprensa (de facto o “Observador”) que é criada e sustentada por grupos económicos que não procuram lucros económicos com esses órgãos de comunicação. É preciso “lata”…

      1. Estranho que não desenvolva idêntica grelha de análise relativamente aos grupos empresariais onde tem espórtula. Seria curial que o fizesse em abono da tese que pretende desenvolver.

  6. Observador é de direita.
    Pacheco Pereira é de esquerda e nao escreve no Observador.
    Logo, Pacheco Pereira ataca Observador.

    1. “Pacheco Pereira é de esquerda…”
      Pacheco Pereira é do PSD.
      Logo, o PSD é de esquerda.

      Isto de utilizar premissas políticas para fazer análises matemáticas é o que dá.

        1. E então? Isso é sinónimo que ele é de esquerda? Ou está a referir-se ao período em que ele andou atrás da Zita Seabra para ela o inscrever no PCP?

          1. Se grasna como um pato e anda como um pato, não é um peru, mesmo que o vendam como tal.

          2. Olhe que isso é uma abdução incorrecta, porque ele grasna como um pato, anda como um pato mas não se parece com um pato.

  7. Como diria Umberto Eco ” a internet promoveu o idiota da aldeia a detentor da verdade”.
    Concordo plenamente mas o nosso maior problema está em conseguir distinguir quem são os idiotas da aldeia no meio de dez milhões.

    1. A internet democratizou a estupidez. Antes estava reservada à aristocracia que a debitava em colunas de jornal ou debates na tv. Poder ao povo.

      1. Por um lado é verdade, o que causa irritação a muita gente é que a internet veio roubar o monopólio da palavra pública à guilda de intermediários… Por outro lado, apesar do evidente sarcasmo que V. coloca, a frase arrisca esconder que a internet democratizou mas foi o conhecimento.

        1. Tecnicamente, a internet democratizou o acesso ao conhecimento.
          O comum mortal, sem formação académica, perante a internet é como aquele pato bravo que ganha o euro milhões: ao fim de um ano estoirou o dinheiro, e nem sabe como e em quê.

          1. anonimus isso é típico de quem anda no garimpo das coisas negativas… Normalmente é coisa da idade. E nesse caso não há nada a fazer… nem placebo.

          2. Pelo contrário.
            É preciso formação para perceber que nem tudo o que está na internet é verdadeiro, e que acima de tudo se deve procurar e comparar diferentes fontes.
            Ou jpt considera conhecimento aqueles estudos que provam que as vacinas provocam autismo?
            A minha petiza já nao vai à biblioteca , as fontes são a internet, e é uma matação explicar que a ordenação do google não corresponde directamente à relevância, e que não basta ler o primeiro artigo para ter uma bibliografia.
            Já nem entrando por aqueles que procuram exclusivamente o “conhecimento ” que comprova as suas teses e convicções.

          3. é uma visão escatológica da internet. Há muita coisa, como é óbvio. E tem a vantagem do acesso rápido e barato. E se as pessoas forem algo informadas sabem filtrar. O problema não é a internet, é a formação. Pessoalizando? Também tenho uma petiza – lê mais do que eu lia na idade dela, super-informada, sabe o que é fazer pesquisa. Eu era um mono aos 19 anos, não tem comparação…

      2. A estupidez sempre existiu quer em condes quer em pescadores (felizmente descendo de ambos). Aquilo que a internet fez foi fazer desaparecer o editor que fazia a mediação cultural entre o que se dizia e o que era publicado.

        Mas nem tudo foi arrasado pela internet (tirando a ortografia e o próprio pensamento). Tal como a Apple destruiu as editoras de música, os blogues podiam ter destruído as editoras de livros — mas isso não chegou a acontecer. Talvez por o campo da leitura ser um meio menos imediato e não haver uma estratégia deliberada associada a um veículo dessa estratégia como a Apple tinha no iTunes e nos seus próprios aparelhos. Além disso os blogues reflectem as opções estéticas dos seus escrevinhadores — o que em termos de cultura de apresentação do texto, salvo muito raras excepções, é sempre um carnaval de grafismo verdadeiramente lamentável.

        1. V. a estupidez é uma característica universal, ôntica se se quiser – particularmente vibrante entre os escrutinadores da estupidez alheia, como a História o consagrou.

          Para além disso, e sobre o que avança – julgo que é matéria demasiada para abarcar nas caixas de comentários. (E demasiada para que os meus reduzidos saberes me conduzam a botar de um modo para além do vulgar “achismo” num postal de blog ou num texto arvorado). Ainda assim: julgo que a internet não exterminou os “intermediários”, os mediadores. Pluralizou-os, democratizou-os (já não é preciso pertencer às guildas). Mas basta ver a evolução dos blogs portugueses (como universo em vista) para perceber como alguns desses neo-intermediários se afirmaram passado pouco tempo da sua emergência. E num contexto mais recente basta ver o surgimento dessa peculiar característica de “influencers”, que até reúnem com o nosso PR. Ou seja, mediadores que prevalecem em determinados nichos – se são bons ou não, intensos e densos ou não isso é outra conversa. E claro que este processo reduziu o estatuto do “intelectual público” e também dos “jornalistas” (aspas porque não lhe dou o sentido de repórter) opinativos – sendo que estes de início muito reagiram negativamente ao surgimento dos blogs (com algumas excepções por cá, a mais evidente talvez do pioneiro António Granado, se não estou em erro).

          Por outro lado, julgo que os blogs nunca foram “inimigos” (concorrenciais) ao mercado livreiro, nem instrumentalmente nem implicitamente. O que terá afectado o mercado do livro foi um feixe de questões – a internet (e as redes sociais, nos quais incluo os blogs) como produtora de formas rápidas de leitura; o acesso livre (via pirataria, acima de tudo) a um gigantesco manancial de leitura; e, acima de tudo, a explosão do acesso a uma miríade de “conteúdos” como agora se diz. E é este feixe que conduz a uma relativa decadência de “grandes leitores” – pois por outro lado quero crer que a redução do analfabetismo e da iliteracia e a melhoria de nível e qualidade de vida trouxeram mais leitores do que o contrário.

          Mas também há uma coisa que muito me surpreendia (já não, claro): durante mais de uma década tive um blog, individual e depois colectivo, o ma-schamba que chegou a ter uma média de 800/1000 leitores diários. Agora, desde há largos anos, tenho blogs individuais menos lidos e boto neste DO que tem audiências ainda maiores (apesar de já nesta era algo pós-bloguismo). Durante estes 18 anos botei inúmeros postais sobre livros – de amigos, dos sítios onde estava, de temas que me interessavam, etc. Algumas recensões, meras chamadas de atenção, anúncios de cerimónias de apresentação, ligações a entrevistas de autores, até tive um blog só de citações (Rue Catinat), etc. E posso-lhe afiançar que nunca algum autor ou, e isso é ainda pior, editora me ofereceu um livro naquele jeito “bota lá qualquer coisa sobre isto”. E este é-me prova que o mundo editorial geriu mal o aparecimento de outras plataformas de divulgação dos seus produtos. Ainda para mais sabendo eu que se botasse num daqueles “jornais de referência” que vendem 3 ou 5 mil exemplares (e nos quais os leitores não reparam em tudo o que ali está, ao contrário do que acontece nos blogs) seria cumulado com ofertas, interessantes e desinteressantes. Este atavismo decerto que não ajudou as editoras…

          Quanto ao que diz sobre a má forma dos textos – que presumo ser uma indirecta também a mim dirigid – nada posso dizer. Apenas responder que, por mim, sigo na ideia de que “quem faz o que pode a mais não é obrigado”, ainda para mais num hábito como este, de blogar, que nenhuma remuneração, económica ou simbólica, permite. Alinhavo, em busca de verter o vasto fel e o parco mel que me brotam. E saudando as pessoas que me aturam isso.

          1. Quanto ao que diz sobre a má forma dos textos – que presumo ser uma indirecta também a mim dirigid

            Não era uma indirecta e muito menos era dirigido a si. Estava a referir-me ao aspecto gráfico, ao “objecto” onde o texto é lido, e ao modelo de “templates” dos blogs ou das outras plataformas pré-fabricadas.

            Li com atenção o seu comentário — e tenho uma opinião parcialmente diferente no que toca à situação editorial e ao seu espaço nativo (que não aumentou com o mercado, apenas procurou a concentração e fomentou a extinção de chancelas independentes que é onde reside sempre a riqueza no que toca à criação artística. Além disso toda a gente parece menosprezar o carácter destrutivo que o Acordo Ortográfico teve sobre o mercado dos livros e a leitura em geral.

            (Incluo a literatura nas artes por uma razão apenas “explicativa”, digamos assim — a literatura não é uma arte como as artes plásticas, que vêm de outro lado e têm outros processos. Nem mesmo a poesia, embora seja a coisa com letras que mais próximo está das artes plásticas por causa seu carácter mais oficinal. Na minha op.)

          2. V., então eu percebera mal o sentido do que V. havia dito. Em relação aos modelos (templates) dos blogs tem alguma razão mas é certo que há nos vários sistemas blogais uma variedade de propostas e que há uma certa apatia por parte dos bloguistas em remodelarem os seus visuais, um conservadorismo formal – para além de que a maioria dos bloguistas desconhecem como mudar as características dos modelos que lhes são oferecidos (por mim falo, sei fazer opções mas desconheço como mexer no código). Ainda assim também me parece que a esmagadora maioria das ofertas pré-formatadas são desinteressantes (e há – espero que alguém da SAPO passe por aqui – a irritante mania de ofertarem modelos encimados com imagens pré-determinadas, tornando modelos gráficos mais atraentes em verdadeiros monos). E presumo que seja fácil – para quem domine a técnica – construir páginas de blog muito mais atractivas mas também presumo que os recursos (humanos) já não estejam disponíveis para grandes desenvolvimentos de uma plataforma comunicacional que está já bastante fora de moda.

            Como bloguista nem é tanto o aspecto gráfico disto que me desgosta. É o facto de que há bem mais de uma década que não assisto a qualquer desenvolvimento tecnológico. Noutras plataformas é tudo muito fácil e rápido (em particular a inclusão de ligações, de gráficos, imagens, filmes, etc.) e aqui tudo continua a ser feito na mesma – se era rápido em 2003 é sentido como lento agora (uma partilha ou uma ligação nas redes sociais são dois clics, aqui é quase um minuto para quem seja lesto) Por outro lado há muitos documentos (escritos ou visuais) que já nem sequer têm opção para partilha em blogs (em particular na portuguesa SAPO) e têm para outros suportes.

            Quanto ao mercado editorial, sim, houve essa “concentração” (como fora anunciada por aquele Marx) e que vai acinzentando o manancial de publicações (edições e reedições). Mas eu não conheço esse universo, mas ouvi dizer que muito influencia o descalabro de várias empresas de distribuição que assim estrafegaram as pequenas editoras. Mas não será só isso, há muito menos livrarias, quando existem estão carregadas de outro tipo de produtos, não têm espaço de armazenamento, etc.

            Quanto aos efeitos do malvado AO90 no mercado editorial desconheço-os. É possível que sejam negativos, como diz. Mas só o posso afirmar assente na minha antipatia ideológica por tal estuporado acordo pois nunca li nada sobre efeitos económicos (os quais foram, convém recordar, um dos argumentos que os seus proponentes muito brandiram)

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