«Eduardo Cabrita sucumbiu à palavra. É o problema de uma comunicação de improviso. Pode tornar-se sempre numa armadilha. Quando disse que era “apenas o passageiro” do carro que, em excesso de velocidade, esteve envolvido no acidente que matou um trabalhador na autoestrada, o ministro traçou o destino que tanto procurou adiar. É que, de facto, Cabrita não era apenas o passageiro que comprara um bilhete para apanhar o autocarro. Era o patrão do motorista que não iria tão depressa só porque queria chegar cedo a casa.»
Vítor Serpa, n’ A Bola

O molde que formata gente do calibre Cabrita segue na produção exaustiva sem controle de qualidade.
No meio de tantas críticas fico na dúvida se o mais importante é o trabalhador que morreu ou o ministro que não se demitiu porque Costa pediu que assim não fizesse.
De outra forma, o ministro não é patrão do condutor. Mas todo o condutor que tem um patrão sabe que este não se sobrepõe, em matéria de mando, à responsabilidade que lhe está imputada. A viatura está confiada ao condutor e não ao passageiro, mesmo que este fosse patrão.
Espero que os críticos e os empregados saibam discernir em todas as situações sobre o mando e o comando.
A viatura só está plenamente confiada ao condutor, quando em transito que lhe cumpra fazer não transporte nenhum superior hierárquico.
Ainda assim obriga-se a cumprir o estipulado no código da estrada, e a par disso respeitar indicações de prevenção e segurança que forçosamente lhe serão lembradas pelo titular a quem está distribuída a viatura.
Acresce por maioria de razão, quando por exemplo uma escala de serviço determina a mudança frequente de condutor.
É necessária uma observação atenta ao fenómeno. As relações hierárquicas pautam-se pela existência de subalternidade e não de subordinação. A primeira diz respeito ao comando e a segunda ao mando.
A presença do ministro na viatura determina o comando no que respeita ao trajecto escolhido e ao local para onde deseja ser conduzido, e não a um nauseabundo mando que obrigue a contrariar as regras da prudência e do código.
Em nenhuma relação hierárquica o subalterno pode alegar subordinação, pois este também pensa e deve agir segundo a bitola. Obviamente que em Portugal e outros quadrantes sabemos que quase todos os subalternos se pautam pela natureza da subordinação, porque são tão fracos, tão maliciosos e tão oportunistas quanto os seus comandos.
Pode-se perder tudo na vida que nada fica perdido. Porém quando se perde a coragem perde-se tudo.
Por outro lado, é irrelevante a velocidade a que a viatura seguia, pois a uma velocidade inferior, por exemplo 90Km/h, o desfecho na circunstância da batida seria o mesmo. O que está em causa é a existência de sinalização de obra na estrada e de não se ter cumprido com as rotinas adequadas a estas situações. E isto nada tem que ver com o ministro ou a relação hierárquica entre este e o condutor. O homicídio por negligência é involuntário, mas é homicídio.
Lembro que o patrão da viatura somos todos nós que iremos pagar as indemnizações, mesmo que esta tivesse sido apreendida a outros.
“nauseabundo mando que obrigue a contrariar as regras da prudência e do código.
É legitimo suspeitar que isso pode ter acontecido.
Aguardemos, tanto mais que o motorista terá confessado que seguiu orientações do corpo de segurança pessoal da PSP.
Igual legitimidade merce a pergunta sobre quem deu orientações a esse corpo de segurança.
Qualquer marcha de urgência ou emergência obriga à necessária prudência. O contrário pode originar situação igual ou mais grave que a que se pretende evitar.
A existirem procedimentos hierárquicos alegadamente invocados pelo motorista, então, o processo será outro e puta que os pariu.
Não sei exactamente que regulamento regula a coisa (passo o pleonasmo) mas penso que por razões de segurança um motorista de um ministro não é um dos motoristas daquele ministério que tenha sido escalado hoje e depois já é outro no dia a seguir. São motoristas particulares com treino especial, inclusivamente. Ou seja, existe uma relação hierárquica mais específica do que a de um “funcionário”. Ou estou enganado?
Ainda não percebi porque é que a magistrada do MP não deduziu acusação contra o ministro, centrando as atenções no mexilhão, isto é, no motorista.
Todos sabemos que não era o ministro que ia a conduzir.
Mas a partir do momento em que entra no carro com o seu motorista, o Dr Cabrita tem o que se chama “dever de garante” (art. 10.º, n.º 2 do Código Penal). Para além de todos sabermos que, bastava uma ordem do ministro para o motorista reduzir a velocidade.
Além da vergonhosa mentira que quis fazer passar de que a estrada e o trabalhador não estavam sinalizados, prontamente desmentido pela Brisa, colegas do infortunado trabalhador etc. Já nem falo na lamentável e ridícula rábula das “fezes”.Devia ser acusado por homicídio negligente por omissão e por falsas declarações.
Quanto ao carácter… desde aquele episódio do microfone na AR que ficámos a perceber o dele: muito rasca.
não percebi porque é que a magistrada do MP não deduziu acusação contra o ministro
Porque não tem quaisquer provas contra ele. Ela não tem quaisquer provas de que Cabrita tivesse cometido ou ajudado a cometer o crime. Cabrita até poderia ir a dormitar no instante do acidente, sem consciência de que o motorista estivesse a conduzir incorretamente.
a partir do momento em que entra no carro com o seu motorista, o Dr Cabrita tem o que se chama “dever de garante”
Não tem dever nenhum.
Um motorista existe para conduzir uma pessoa, permitindo que essa pessoa vá a descansar ou a trabalhar enquanto é conduzida. A pessoa que é conduzida não tem qualquer obrigação de estar permanentemente atenta a verificar se o motorista não estará a cometer infrações. Cada macaco no seu galho: o motorista conduz, o ministro governa. O ministro não tinha nada que ir toda a viagem atento à condução que o motorista estava a praticar.
Não faltava mais nada, um ministro ser responsabilizado por todos os disparates que todos os seus subordinados e serventes cometam no exercício das funções deles.
A responsabilidade do ministro é política, não é penal. Não há quaisquer provas de que ele tenha ajudado a cometer ou colaborado no crime. Mas todos nós supomos que ele ordenou ao motorista que conduzisse depressa de mais e, como tal, exigimos que ele se demita (como finalmente fez), e que não volte a ocupar funções no Estado.
Parece que o senhor nem como passageiro se soube portar, consta que, após o acidente, nem saiu do carro.
após o acidente, nem saiu do carro
Não tinha colete refletor para vestir. Sem tal colete, não podia sair. Estaria em violação do Código da Estrada.
(A não ser que fosse um médico que fosse socorrer o sinistrado.)
Pena o Serpa não comentar com essa indepêndencia acerca do futebol; de resto tudo bem. Toda a gente que cumpriu S.M.O, sabe que o militar mais graduado da viatura dá ordens ao motorista. Cabrita devia fazer o Serviço Militar, essa de mero passgeiro é para os apanhados.
Toda a gente que cumpriu S.M.O, sabe que o militar mais graduado da viatura dá ordens ao motorista.
Hoje em dia já não há S.M.O.
Aquilo que se passou não foi em contexto militar. Não tem nada a ver com procedimentos militares.
Isso mesmo. Calhando o Cabrita disse ao motorista vamos que estou com pressa e o motorista a partir daí é o culpado da condução. Então se o motorista fosse contra outro carro o Cabrita era o culpado por ele não ter cuidado a conduzir.
António Costa não se libertará nunca do ónus do apoio prestado a Cabrita, mesmo depois de incidentes que a um qualquer outro Ministro seria exigida a demissão. O escudo de protecção de Costa, várias vezes exibido, tentou servir a projecção da imagem de um governo unido, coeso, e solidário com um dos seus membros, inimputável em todas as calinadas em que se viu envolvido. Cabrita revela-se finalmente como o “oitavo passageiro”, o alien que o Costa acabou por ejectar da cápsula antes da chegada ao destino (i.e. eleições Jan.22)
Eduardo Cabrita sucumbiu à palavra.
Não, ele não sucumbiu à palavra. Ele sucumbiu à atuação que teve ao ter ordenado ao motorista que seguisse em excesso de velocidade.
As palavras trapalhonas e pessimamente enjorcadas que proferiu apenas pioraram o seu caso, mas não foram elas que o fizeram sucumbir.