O programa favorito do primeiro-ministro


Pedro Correia,

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Terá António Costa interferido também desta vez? É provável, agora de forma mais recatada. O chefe do Governo tem boas razões para querer preservar aquele que é, reconhecidamente, o seu programa televisivo favorito.

Dir-se-ia um objecto em permanente crise de identidade. Já se chamou Flashback, na TSF e na SIC, antes de surgirem canais informativos na TV por cabo. Já foi Quadratura do Círculo, na SIC Notícias, até a direcção deste canal decidir suprimi-lo por atrair insuficientes telespectadores. Depois, baptizado como Circulatura do Quadrado, transferiu-se para a finada TVI 24 graças a uma cunha do primeiro-ministro. Agora surge ao domingo na novíssima CNN Portugal. Muda o nome, os intervenientes vão ficando. A começar pelo eterno moderador, Carlos Andrade.

A cunha de Costa, em Janeiro de 2019, representou um dos momentos mais extremos – e, se não vivêssemos nesta doce nação de brandos costumes, com contornos escandalosos – de interferência de um decisor político num conteúdo televisivo, caucionando-o com a chancela do poder.

Num vídeo inserido na última edição do programa na SIC Notícias, o chefe do executivo qualificou o fim da Quadratura do Círculo como «ameaça à qualidade da nossa vida democrática», dizendo esperar que encontrasse rapidamente «um novo espaço». Porque «a democracia não pode prescindir da Quadratura do Círculo», sublinhou o primeiro-ministro, subitamente investido em director de Informação. Foi tiro e queda: no mês seguinte, renascia na TVI 24, pintada de fresco, como Circulatura.

A gratidão é virtude: Costa tem bons motivos para estar agradecido ao programa. Durante seis anos, entre 2008 e 2014, ele teve ali lugar cativo: a Quadratura do Circulo serviu-lhe de incubadora mediática na rota ascendente do seu percurso político – primeiro para a conquista da maioria absoluta na Câmara Municipal de Lisboa, depois para chegar a secretário-geral do PS e transitar para o governo. Como dizia o outro, tudo isto anda sempre ligado.

Temos, portanto, agora O Princípio da Incerteza. Com Pacheco Pereira – ainda mais eterno do que Carlos Andrade – como indisfarçável guru intelectual de Rui Rio, o conselheiro de Estado Lobo Xavier em evidente afinidade com o Presidente da República e a líder parlamentar do PS, Ana Catarina Mendes, alinhada com Costa.

No domingo houve um momento revelador. Pacheco amuou, fez birra. Recusou responder ao moderador sobre um dos temas em debate: as insinuações de Rio sobre a conduta da Polícia Judiciária no caso Rendeiro em hipotético benefício eleitoral do Governo: «Se eu aceitar responder à sua pergunta participo naquilo que eu próprio critico: a subversão da agenda mediática por questões secundárias em relação às questões principais.» Ele queria perorar sobre a nova ordem mundial, não sobre minudências domésticas. E assim ficou, com pose de mandarim.

Incerteza, só no novo rótulo. O velho programa continuará entre os eleitos do primeiro-ministro. É consolador saber que certas coisas nunca mudam.

 

Texto publicado no semanário Novo

6 comentários em “O programa favorito do primeiro-ministro”

  1. Bem lembrado, o programa é uma farsa (uma secretária-geral adjunta em exercício travestida de “comentadora”?) e a intervenção do PM Costa para se manter o programa (no qual a sua adjunta se traveste) foi uma coisa repugnante.

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