O Professor Diogo Freitas do Amaral teve um percurso original nesta 3ª república portuguesa. Colheu ódios ideológicos de várias partes em diferentes períodos e era visto não raras vezes como um incoerente político. Disso e de outras coisas o acusaram nos últimos anos. Mas é preciso ver que nunca teve um caminho fácil nem grande sorte na sua vida política.
Primeiro criou o CDS num período muito turbulento, em que era pouco aconselhável fazê-lo, dado o radicalismo esquerdista em que a sociedade portuguesa estava imersa, e isso viu-se por exemplo no cerco ao primeiro congresso do partido no Palácio de Cristal por forças da extrema-esquerda (os ascendentes do BE e de outros grupúsculos que foram desaparecendo). Anos mais tarde, já no poder, com a AD, a tragédia de Camarate e a morte de Amaro da Costa e de Sá Carneiro, que vitimaram os seus amigos e aliados e o seu governo. Depois, a sua candidatura à presidência, em que teve o triunfo à vista, e que falhou por escassos milhares de votos, e que depois de uma dispendiosa campanha, o PSD de Cavaco abandonou vilmente com imensas dívidas na mão (Marcelo RS vingou-o de certa maneira pregando uma partida aos ministros do PSD. É o que consta da biografia do PR). Deu-se o regresso ao CDS num tempo em que o cavaquismo engolia quase toda a direita e o centro, e a sua saída do partido que fundou, já noutra onda que não a dele, quando não colhia grande simpatia do Independente.
A verdade é que ele sempre se disse um democrata-cristão centrista e nunca se afastou muito disso; a sociedade e os partidos é que mudaram. Terá havido oportunismo e jogo de cintura – apostou sempre nos candidatos que viriam a ser primeiros-ministros, pelo que esse seu dom profético fará falta. Mas ainda assim, órfão politicamente e sem aliados, manteve-se activo, ainda que com equívocos, como a ida para o governo de Sócrates, que a seu tempo corrigiu. É bom pensar que desde os anos 90 presidiu à Assembleia-Geral da ONU, envolveu-se contra a invasão do Iraque, fundou a faculdade de Direito da Nova de Lisboa, que tanto contribuiu para novas formas do ensino jurídico em Portugal, escreveu peças de teatro, ensaios, livros de história, e as suas memórias, de que o terceiro e último tomo saiu há poucos meses, quase que profeticamente. Uma vida plena e marcante, portanto. Pela minha parte, que só o conheci de cumprimentar de passagem e de breves palavras, devo-lhe, ainda que indirectamente, a minha ida para Lisboa, que muito me ajudou. Que, como cristão convicto que era, tenha descoberto a paz que lhe faltou durante tantos anos.

PS: vi-o numa foto de há quinze dias, já muito caído, no enterro de André Gonçalves Pereira. Curiosamente, este tinha sido o seu sucessor nos Negócios Estrangeiros. E assim, em duas semanas, desaparecem duas antigas figuras de primeiro relevo da AD.
PS2: quando Assunção Cristas proferiu as primeiras palavras acerca do fundador do partido via-se Telmo Correia atrás. Não pude deixar de recordar o hilariante despique político no Parlamento, quando Correia acusou o na altura MNE de “vergonha de viver em democracia” por causa da questão das caricaturas de Maomé num jornal dinamarquês (Freitas dissera que era necessário distinguir “liberdade de licenciosidade”), ao que este respondeu: “ainda o senhor não era nascido ou andava de cueiros e já eu lutava pela liberdade em Portugal. É preciso topete!”

Os grandes homens fazem com que os pequenos pareçam ainda mais pequenos. Este bem que poderia ser o retrato de Freitas do Amaral. Que descanse em paz.
Se me permite. Excelente texto.
Lembro – me de durante as presidenciais, entre Mário Soares e Freitas do Amaral, o primeiro, acusá-lo, sujamente, de ter apoiado o Estado Novo, porque várias vezes foi convidado para integrar o governo de então, tendo Freitas, obviamente, sempre rejeitado integrar do Estado Novo (isto já depois de Freitas e Mário Soares se terem coligado, no passado, para formar governo)
O que o PSD fez a Freitas foi uma canalhice sendo ainda recordada por quem acompanhou a campanha
Nunca me galvanizou Freitas do Amaral. Não tenho dúvidas quanto à sua competência e honestidade, mas talvez lhe tenha faltado sempre carisma.
Admiro-o ainda por ter sido o único político a aperceber – se das ameaças à Liberdade Política constantes na Constituição de 76 (“por uma sociedade socialista” lia – se nela), nunca usando, em campanha, parangonas como “Socialismo em Liberdade”, como todos os políticos, de então, fizeram, incluindo Sá Carneiro. Foi preciso coragem e grande rectidão naqueles conturbados tempos. Que repouse em paz.
Lia-se e lê-se, ou a sua CRP não tem preâmbulo?
Advogado a trabalhar a esta hora, sorry!
Tinha uma certa fleuma, não usava gestos largos nem discursos abrasivos, mas não sendo um líder muito carismático, também não era totalmente desprovido. Era o rosto dos que votaram contra a constituição de 1976, daí a votação que o CDS colhe na altura.
O Dr. Telmo Correia nasceu em Fevereiro 1960. Assim, ou ele usava cueiros com 14 anos, ou o Prof. Freitas do Amaral (paz à sua alma) teve uma saída muito infeliz, dado que não consta que andasse a “lutar pela liberdade em Portugal” até Abril de 1974. É difícil pedir a quem investiu na eleição do Prof. Freitas do Amaral como Presidente da República, que tolere que ele tenha passado de ponto fulcral da direita portuguesa para enfeite do PS (e por motivos que me parecem muito mais pragmáticos do que de princípio). Ficou e ficará sempre, claro, o reconhecimento pelo papel histórico que teve, especialmente nos anos duros do PREC, e pelo mérito académico (quanto ao artístico, não posso falar) e, obviamente, o respeito devido pela Pessoa.
JPT Freitas era um seguidor da Doutrina Social da Igreja, como Guterres o foi. Essa de não ter combatido o Estado Novo poderia aplicar – se a muitos outros como Sá Carneiro, ou Mota Amaral, e a todos os da Ala Liberal da União Nacional Marcelista. Freitas foi convidado várias vezes para o governo da ditadura, tendo sempre rejeitado (ao contrário de Adriano Moreira, ou Hermano Saraiva e Veiga Simão) . E era necessário, nessa altura, coragem para indeferir tal pedido.
Não sei exactamente a que é que ele se referia nessa resposta, mas que teve piada, teve.
Em um momento que é marcado pela existência de um regime reaccionário e colaboracionista de esquerda, a morte de um homem do centro e de um democrata-cristão está aí para nos – aos cristãos progressistas e anti-fascistas-anti-estalinistas – lembrar que é o corpo que nos introduz no mundo para o transformar.
O mistério da encarnação força-nos a desencarnar o mal e a hipocrisia se necessário até ao momento do custe-o-que-custar.
É necessário honrar a memória de Freitas do Amaral votando ALIANÇA.
Tenho sérias dúvidas que ele votasse na Aliança.
O Dr. Freitas do Amaral foi um erro de casting. Fundou o CDS, talvez pelo facto de não ter conseguido um lugar de liderança no PS nem no PPD. Enganou uns quantos que ainda fazem parte do CDS. E quando viu que, após perder as presidenciais, já não tinha partido que lhe enchesse o ego, virou-se para o pai fundador, o Marocas, pois que o “afastamento” deste da liderança do PS, talvez lhe concedesse algum espaço. E aí o tivemos um aninho num lugar mundialmente ignorado e, depois, um cheirinho de ministro dos negócios estrangeiros, onde se limitou a organizar as corridinhas do 44, quando este ia à China, ao Brasil e a outros lugares aonde ninguém lhe suportava a cagança. Agora vem ao de cima a hipocrisia de uns quantos, quando se pronunciam sobre o homem. Desde o Manuel Monteiro até à Cristas.
Paz à sua alma.
Nem Monteiro nem Cristas disseram mal de Freitas. Basta estar atento. Quanto ao espaço entre a derrota presidencial e o mandato na ONU, ainda teve de pagar muitas dívidas e de suportar um CDS sem espaço.
Freitas do Amaral é um equívoco.
Aliás o último parágrafo do seu texto demonstra o equívoco e a incoerência.
lucklucky
Completamente equivocado: não é necessário fazer uma distinção entre liberdade e licenciosidade porque só na cabeça de um sacristão ou de um fanático é que estas duas coisas estão ligadas.
Além disso, ninguém depois da grande guerra dizia cueiros ou topete. Nem o grande Camilo, que até tinha trombas de daguerriótipo, falava assim.
O Camilo até usava termos como “debalde” e “por conseguinte”. Freitas só ajudou a enriquecer o vocabulário político.
Mas alguma vez ele disse que não era democrata-cristão? Onde está o equívoco?
Coerência ?! Metade do país apoiou-o contra Soares e perdeu por um triz. Virar para campo oposto, aquele que o derrotou, foi virar a cara a milhões de portugueses que, com ele, protagonizaram a maior e mais entusiástica disputa eleitoral em 44 anos de democracia. Isso é imperdoável, não é coerência nem gratidão, mas sim terrível oportunismo político.
Ele não se “virou para o campo oposto”, pelo menos na sequência dessas eleições. Ficou atulhado em dívidas de campanha (precisamente porque o líder emergente da direita o abandonou), teve de fazer uma travessia do deserto e depois viu o partido que fundara inflectir para um campo onde ele nunca tinha estado.