O nosso compatriota multimilionário


Pedro Correia,

img_440x274$2019_07_26_11_21_45_358116.jpg

 

Portugal, onde os ricos costumam ser alvo de anátemas, concedeu a nacionalidade a um multimilionário russo sem um sussurro de polémica interna. Aconteceu em Abril mas só houve celeuma a partir das críticas agora feitas pelo mais célebre opositor de Vladimir Putin, recém-galardoado com o Prémio Sakharov, do Parlamento Europeu. Alexei Navalny, preso político em Moscovo, diz que a cidadania portuguesa atribuída a Roman Abramovich, por supostas ligações a judeus sefarditas expulsos por D. Manuel I em 1497, deve-se a «malas cheias de dinheiro» que a pagaram.

O ministro dos Negócios Estrangeiros viu-se forçado a reagir face às acusações de Navalny, que classifica Abramovich como «o oligarca mais próximo de Putin que conseguiu enfim encontrar um país onde fazer pagamentos semi-oficiais para acabar na União Europeia». Em alusão ao facto de o magnata passar a movimentar-se sem restrições no espaço comunitário. Augusto Santos Silva esclareceu que a concessão de nacionalidade «segue os habituais escrutínios que são de lei», sem interferência política.

Roman Arkadievich Abramovich, 55 anos, é celebridade mundial desde 2003, quando adquiriu o Chelsea, decadente clube londrino, logo transformado numa das potências do futebol com a conquista de cinco campeonatos ingleses e três Ligas dos Campeões. Sabe-se que integrou o exército soviético. Em 1992 foi detido na Rússia por alegadas transacções ilegais. Durante o mandato de Boris Ieltsin, acumulou fortuna ligada aos processos de privatizações. Residente há duas décadas no Reino Unido, não possui nacionalidade britânica. Em 2016, a Suíça negou-lhe visto de residência. Além de russo, é israelita desde 2018. A revista Forbes elegeu-o como o 142.º indivíduo mais rico do planeta.

A nossa lei da nacionalidade, revista em 2015, permite considerar portugueses os descendentes dos judeus daqui expulsos no século XVI. Abramovich afirma ter descoberto ancestrais sefarditas. Fez o pedido em Outubro de 2020, recebeu luz verde do Ministério da Justiça seis meses depois. Com parecer favorável da Comunidade Judaica do Porto (CJP).

É duvidoso que cumpra os requisitos da lei: ter apelido português, dominar a língua ladina (falada pelas comunidades hebraicas oriundas da Península Ibérica) ou manter efectiva ligação ao nosso país. O facto é que se tornou num dos 32 mil portugueses naturalizados em seis anos ao abrigo da nova cláusula legal – 88% dos quais, segundo noticiou o Público, têm sido encaminhados pela CJP para a Conservatória dos Registos Centrais.

Eis um coleccionador de iates de luxo e jactos privados subitamente transformado no mais rico dos nossos compatriotas. Sem aqui residir nem falar uma palavra do idioma de Camões. Graças à purga retroactiva de pecados históricos expiados quinze gerações depois.

Passamos o tempo a discutir minudências e quase ninguém fala disto: a nacionalidade portuguesa hoje posta em leilão por factos ocorridos há meio milénio. Dificilmente um país assim é levado a sério. Não só pelos de fora, mas pelos que cá vivem.

 

Texto publicado no semanário Novo

54 comentários em “O nosso compatriota multimilionário”

  1. «segue os habituais escrutínios que são de lei»
    Convém lembrar a Santos Silva que “a lei protege mais sofismas, arbitrariedades e crimes do que aqueles que condena”

    1. O visto gold da nacionalidade, provavelmente transacionado pela CJP, que não cuidará das leis dos gentios.

  2. tira uns trocos da algibeira compra a dívida pública portuguesa e recebe o estado como contrapeso
    ao quisto xigou

  3. Eu diria que Abramovich fez o mesmo que muitos outros judeus fazem, que têm tão pouca ligação a Portugal quanto ele.
    Não me parece bem estar a discutir com especial sanha o caso dele só por ele ser rico.
    As nacionalidades da União Europeia são muito apetecidas. Há dezenas de milhares de judeus israelitas que adquirem a nacionalidade do país europeu de onde os seus avós provieram. A Polónia e a Alemanha concedem a nacionalidade a qualquer pessoa que prove ter avós desses países, e há montes de israelitas que estão nessas condições.
    A lei da nacionalidade para descendentes de judeus sefarditas já foi eliminada em Espanha, porque os espanhóis se aperceberam das consequências dessa lei. Os portugueses, parece que ainda não.

    1. Disseram-me, e eu acreditei, que qualquer um dos portugueses que agora esteja vivo, tem 99% de possibilidades de ter um judeu do século XVI como seu antepassado, e que não é difícil encontrar quem o ateste cientificamente.
      Mas também acho que é ridículo isso servir para conceder a nacionalidade portuguesa a qualquer um indivíduo que não sabe bem onde fica Portugal, não fala português e não tem relações regulares com portugueses. Isto é muito pior do que os vistos “golden”.

      1. Sim, é tão ridículo que a lei enumera expressamente quais as condições para aquisição da nacionalidade.
        Acontece que estas condições não são cumpridas.
        O Ministério da Justiça limita-se a pôr o carimbo à papelada que lhe vai chegando, sem escrutinar coisa nenhuma.

  4. Imigração de qualidade. Gosto.
    Tem é de redistribuir. A Catarina e as manas vão fazer-lhe uma espera no aeroporto.

  5. É… complicado.
    Este senhor é um dos testas-de-ferro dos interesses britânicos (e outros) que na era Yeltsin “raparam” a infra-estrutura e os recursos naturais da extinta União Soviética. Uma das razões porque até hoje persistem “maus-sangues” entre o Reino Unido e a Russia.
    Tem óbviamente muito dinheiro. Estava presente e assisti quando no Euro 2004 ele se deslocou para ver um jogo no Estádio da Luz – aparato impressionante.Condições especiais de chegada, escolta, estacionamento, saída. No meio do ruído, os seguranças dele comunicavam por linguagem gestual(!).
    Posto isto, não é nenhum pecado ser rico, melhor seria se todos o fôssemos. E todos os países de uma forma ou outra se prestam (e competem) a vender nacionalidade por contrapartidas económicas.
    Cinicamente, não posso deixar de considerar que possa trazer mais valor acrescentado para a nossa economia 1 Abramovich por contraponto a 500 migrantes que apenas venham para a mama do Estado Social… É.. complicado.

  6. Eis que surge um português da diáspora com bastante sucesso. Pela idade do moço acredito que tenha abandonado o país na época do Passos. D. Mané I também a sabia toda no que respeitava à emigração. Portugal nunca aguentou com tantos portugueses no território. Isto sempre foi não um mané mas um maná.
    Com o Costa é diferente, quer-nos por cá, e pobres, para garantir uns subsídios de Bruxelas.

  7. Já há algumas décadas que isto deixou de ser uma Nação para passar a ser um território paraíso para corruptos, ladrões e oportunistas dos “quatro cantos” do mundo! Tudo isto se deve ao regime vigente, capturado por soberania corrupta controlada por grandes gabinetes de advocacia que vendem serviços de branqueamento, lavagem, ocultação e favorecimento de grandes criminosos possuidores de enormes fortunas. Como chegamos até aqui, foi relativamente fácil para esta escumalha que domina as leis (até participam na elaboração) que colocam na AR os seus representantes que como diz Paulo Morais a transformaram numa “central de negócios” onde a promiscuidade vive todos os dias, com o conluio de um poder judicial igualmente corrupto, o estado completamente capturado é um manancial para a escumalha arrogante e vaidosa das funções de prestígio para as quais não têm um “pingo” de dignidade. Como vamos sair desta armadilha?! Não se vislumbra qualquer possibilidade e até pelos últimos acontecimentos de algum ou alguns poucos agentes da justiça realmente interessados em exercê-la independentemente do poder dos atingidos temos visto que no órgão máximo encontram enormes resistência em desenvolver o seu trabalho chegando mesmo a ser ameaçados de expulsão. Leiam as opiniões de, Manuel J. Guerreiro «Portugal terminal-um país a morrer», João Marcelino «Portugal a saque», José Cabrita Saraiva «justiça ferida de morte», José Gomes Ferreira sobre os grandes facilitadores das clientelas partidárias nos negócios ruinosos para o estado, crónicas de Eduardo Dâmaso sobre as burlas que sem castigo são praticadas em décadas de poder corrupto e vão perceber a podridão de um “reino” tomado pela pior escória da humanidade.

  8. Nacionalidades a leilão, juizes que se recusam a fazer o seu trabalho por medo, outros que são afastados por serem imparciais e incomodos para com os politicos, etc. Este país está a saque e a corrupção é grassa impunemente. Depois chamem lhe de extrema direita e populista….

  9. Será que ele tem mais bagulho do que o CR7?
    E se ele fizer uma marquise no caruto da mansão, também vai ter de a demolir, ou vamos de ter de negociar o assunto com o Putin?

  10. Duas notas

    1) portanto, a lei da nacionalidade permite a naturalização (parece quase a bola) de descendentes de judeus expulsos do país já há uns anos. Nunca foi problema. Agora é. A fulanização da legislação é um fenómeno tão lusitano.

    2) o senhor é apenas o 142.º indivíduo mais rico do planeta? Um bocado pelintra. O Bezos não terá ascendência lusa, ou o Zuckerberg uma trisavó com raízes transmontanas? Isso é que era.

  11. Sem querer defender ou deixar de defender alguém, a verdade é que para requerer a nacionalidade, o requerente tem de apresentar prova factual da sua ascendência. Essa prova factual é depois verificada por técnicos (conheço uma das pessoas que tem esse trabalho). Ou seja, a única forma de ele ter a nacionalidade por aquela via é ser mesmo descendente de judeus sefarditas. A lei está mal feita? Claro. Desde o princípio, já que nem deixa a hipótese (mesmo que teórica) de os descendentes dos muçulmanos expulsos se candidatarem à nacionalidade. É uma lei retrógrada perante uma atitude que, à luz dos critérios políticos da própria época, foi errada. Mas é a lei e vamos ter de viver com ela.

    1. é a lei e vamos ter de viver com ela

      Não. A Assembleia da República pode alterá-la a qualquer momento. Não vamos ter que viver com ela eternamente.

      Espanha já teve uma lei análoga e eliminou-a depois de constatar que havia milhares de pessoas a fazerem fila para se tornarem espanholas através dessa lei.

          1. Nunca ouvi falar que os monarcas da primeira dinastia tivessem expulsado quem quer que fosse do território conquistado.
            As guerras faziam-se entre a classe nobre e real, para adquirir o domínio sobre a terra. Mas ninguém expulsava a população que povoava e cultivava essa terra.

    2. Essa prova factual é depois verificada por técnicos (conheço uma das pessoas que tem esse trabalho).

      Quem são esses técnicos? Quem paga o trabalho deles?

      Eu o que ouvi dizer (mas pode não ser correto) é que a ascendência sefardita de Abramovitch foi certificada pela Comunidade Judaica do Porto. E que, por outro lado, Abramovitch terá dado bastante dinheiro a essa Comunidade.

      Os técnicos que certificam a prova são funcionários do Estado, e não-judeus, ou são judeus de uma qualquer comunidade judaica portuguesa?

  12. bem , pelo menos este não vem com olho nos subsidios para refugiados e emigrantes , sempre trás algum com ele.
    quanto é as partes interessadas terão pago para legislarem essa coisa ?

  13. Seguindo o mesmo princípio de reparação de erros do passado, teríamos muito a reparar em relação às ex-colonias.
    Não deveriam então,os filhos dos que um dia foram portugueses ter direito a cidadania portuguesa?
    Ou então não porque não são milionários?

    1. Quer dizer que quem tiver 50 anos em Angola, Moçambique, Guiné, Timor, Macau pode argumentar já ter sido português?
      Essa é que era bem aplicada, com o Brasil já existe a dupla nacionalidade.

  14. “É duvidoso que cumpra os requisitos da lei”
    É precisamente por isso que os nossos sefarditas são judeus.
    O Ricardo Salgado e o primo só ficaram famosos depois da judiaria que fizeram.

  15. A mim o que me faz espécie é um russo ser considerado judeu sefardita, quando daquela zona provêm os Ahskenazis. Não digo que seja impossível, mas que é bizarro é.
    Curiosamente, neste assunto, o PS até era o mais reticente nas facilidades a concede a estas concessões de nacionalidade, mas protestos de várias partes, inclusive do partido, levaram-nos a reconsiderar.

    1. Tem razão. Abramovich é aliás em apelido asquenaze.
      Mas é possível que, no meio da linhagem predominantemente asquenaze dele, haja um antepassado sefardita.
      Embora os casamentos entre asquenazes e sefarditas tenham sido no passado bastante raros.

  16. Este caso fez-me lembrar uma situação que me aconteceu no ano passado.
    Por motivos de trabalho, conheci alguém que tinha acabado de receber o passaporte português. O homem estava tão feliz mas tão feliz, uma felicidade difícil de explicar parecia algo muito desejado.
    Em inglês lá explicou que era judeu vinha de Israel não falava português nem conhecia absolutamente nada de Portugal apenas uma palavra… corrupção… e olhou para nós com olhar interrogativo à espera de resposta…

  17. Alexei Navalny […] diz que a cidadania portuguesa atribuída a Roman Abramovich […] deve-se a «malas cheias de dinheiro» que a pagaram.

    Isto diz muito, muitíssimo, sobre a credibilidade de Navalny, esse indivíduo que o “Ocidente” gosta de promover a principal opositor do regime russo.
    Navalny faz acusações gratuitas, sem quaisquer provas (ou sequer indícios) para as sustentar. E o que é mais grave é que lança essa lama, não sobre o seu próprio país, mas sobre países que ele nem de longe conhece.

  18. Agora é esperar para saber se por cá vai pagar impostos ou fazer como os nossos ricos preferir pagar em Amesterdão.
    E gostava ver o Grupo Desportivo de Arroios passar a SAD e ser comprado por ele.

  19. Bem, como estrangeiro que busca a nacionalidade também por esta via (mas com parecer da Comunidade de Lisboa, extremamente séria no estudo da análise genealógica), devo dizer que a maior surpresa, quase um choque, é que o processo desse senhor tenha encerrado em 6 meses. Para os requerentes não-ricos, o processo arrasta-se por vários anos.

    1. com parecer da Comunidade de Lisboa

      Está a querer dizer que uma comunidade judaica tem influência importante na concessão da nacionalidade.

      Mas então, essa comunidade judaica pode ser sujeito passivo de corrupção.

      Abramovitch poderá ter corrompido, não as autoridades do Estado português, mas sim a comunidade judaica do Porto.

  20. O gajo é judeu e pronto. Não vejo o porquê de tanta admiração. Desde que o Infante D. Pedro, da ínclita geração, passou a fazer diplomacia por terras do médio oriente, essa tarefa de caixeiro viajante passou a ser uma profissão de categoria praticamente exclusiva do povo português. Vai daí, com tanto caixeiro viajante – e praticamente eram todos judeus – não admira que o Abramovich seja fruto de noitadas orientais e muito horizontais de um qualquer caixeiro viajante tugo-judeu.

    1. Não me diga que o monhé também é um sucedâneo decorrente de noites e danças do ventre, da afrodisíaca Índia, frequentadas por caixeiros viajantes tugo-judeus…

  21. é evidente que este tipo é muito sonante. Mas a grande questão é mesmo esta patetice das desculpas aos judeus (e a quaiquer outros) pelo passado e a atribuição de nacionalidades aos seus putativos descendentes

  22. Factos destes envergonham-me e aumentam a má vontade contra quem nos governa e não presta. E há cada vez mais quem, não apenas dentro do governo. Mas é dele que também vêm os maus exemplos. Se o dinheiro fala os burros baixam as orelhas.

  23. Todos nao sao demais, e o senhor, que poderá fazer ferias no algarve ou madeira, e certamente com 55 anos ainda pode contribuir para o aumento da natalidade.
    O post sugere que ninguem o quer, prefiro pensar que portugal ganhou o campeonato.
    Quanto á liçao moral na ultima linha, verdade é que tambem e diariamente nos chegam episodios nesses paises, que tambem nao levamos a sério. A diferença é que, nos diferentes paises, uns preferem atirar pedras para dentro. È a vida !

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *