
Hoje é o Dia Mundial Tintin, o aniversário (já o 93º) do seu aparecimento no “Petit Vingtième”, então encetando a sua aventura no “País dos Sovietes”, a qual tão injustiçada viria a ser, acima de tudo pela autocensura do próprio Hergé. Coisas daquela era pós-II Guerra Mundial…
Apaixonado que sempre fui e assim continuo, deixo aqui memória do “L’Oreille Cassée” (o nosso “O Ídolo Roubado”), o sexto episódio da saga (1937), o qual sinto como um dos melhores livros – e deixo o [bom] filme de animação correspondente, para quem ainda tenha tempo e alma para o ver.
Escolho este álbum e esta vinheta também por duas razões, mais “políticas”. Pois nas últimas décadas têm surgido um conjunto de “denúncias” ao racismo em Tintin, emanadas dos contextos da esquerdalhada básica e emitidos por feixes de intelectuais de pacotilha. Li alguma dessa tralha, até lusa. Não vou elaborar muito sobre isso, nem sequer invocar o óbvio anacronismo dessas lérias. Apenas recupero este “L’Oreille Cassée”: aqui surge este Ridgewell, explorador amazónico que há muito desaparecera e que vive entre os Arumbayas. O qual é um evidente proto-Haddock (que só aparecerá 4 anos depois, no “O Caranguejo das Tenazes de Ouro”), na forma vulcânica e desabrida com que trata os seus (amer)índios circundantes, tal e qual Haddock o fará em todos os outros contextos (em particular junto do séquito de Moulinsart). Sobre esta patente similitude, de enorme significado sobre as concepções antropológicas de Hergé, então ainda abaixo dos 30 anos, nada li em todas as lérias botadas nos “papers” e “conferências” dessa esquerdalhada “denunciatória”. Pois desmontar-lhes-ia, por completo, as “academices” de treta com as quais vão fazendo currículos e cativando interesses de outros imbecis.
Um outro traço do “L’Oreille Cassée” explica este actual “Cancel Tintin”. Pois Alcazar e Tapioca, os patuscos generais, já estão em frenético conflito. Como o estarão 40 anos depois, quando o já quase septuagenário Hergé publicou a última aventura completa, “Tintin e os Pícaros”. E de facto é este livro – um sarcástico monumental pontapé nas ladainhas guevaristas e terceiro-mundistas, então tão em voga – que promove o “denuncionismo” de agora. Não é a candura colonial ou a deriva anticapitalista dos vinte aninhos de Hergé em “Tintin no Congo” e “Tintin na América”. É mesmo a sua madura, pertinente e artisticamente genial refutação dos mitos que alimentam esta actual triste tralha identitarista – “pós” ou “decolonial”.
Enfim, e mais do que tudo, vou rever a animação. Pois aos livros vou relendo-os amiúde.
(Les Aventures de Tintin – L’Oreille Cassée)

Isso explica então porque é que a exposição de Tintin na Gulbenkian, que eu desoladamente falhei, acabava hoje.
Também gostei muito desse álbum que em conjunto com os díptico anterior (Os Cigarros e o Lótus Azul), O Caso Tounessol e o Coke en Stock são os meus favoritos. Já agora, Ridgewell e Haddock hão de se conhecer nesse mesmo “Picaros”(que deixará marcas no capitão), onde finalmente poderemos ver Tapioca. Diz-se, e as imagens dos uniformes parecem confirmar, que com a dança das cadeiras de Alcazar e Tapioca, Hergé queria fazer uma sátira aos regimes sul-americanos, sendo que o primeiro seria mais “cubano” e o segundo mais “chileno”.
Sim, também não atentara nessa coincidência de datas – bem estipulada, um acto simbólico bonito. Aliás confundi-me de tal modo (já nem sei a quantas ando) que fui no domingo julgando que era o último dia – estive uma hora e meia na bicha de entrada. Se tivesse consciência de que terminava na segunda-feira (o verdadeiro dia 10, que eu confundira) teria dado meia-volta e teria regressado ontem. E sim, se os generais patuscos neste livro dos anos 1930s são uma alusaõ às “repúblicas das bananas” (Hergé tinha então um viés típico da direita conservadora de XIX e dos inícios de XX, um anti-industrialismo anti-americano, para além de um pacifismo avesso às intervenções empresarias que promoviam conflitos internos e guerras internacionais, o que é pouco abordado agora – porque não dá jeito às argumentações “denuncionistas”. Este “Ídolo Roubado” refracta a Guerra do Chaco de então, por exemplo ) já nos “Pícaros” eles (os generais) sao utilizados como símbolos da situação internacional de então, as refracções da Guerra Fria.
Obrigado pela sugestão do filme, não fazia ideia que havia tintin no youtube. Acabo de ver esse da Oreille cassée.
Ainda bem que lhe foi útil. A série televisiva de animação (que fez as minhas delícias desde os meus 5 anos) está toda disponível no youtube (ou estava, há algum tempo). Vi vários episódios.
uma graça ( e o que é uma graça ?) : a alma tem tudo o tempo do mundo.
era bom era
100% de acordo com o autor do artigo. Hergé criou Tintin, um soldado do valor verdade. Valor tão incomodo à cultura marxista. Releio, com prazer e nostalgia das férias na minha infância, as aventuras de Tintin.
É, volto sempre a menino quando leio o Tintin