O gozo de criar problemas (II)


Diogo Novo,

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Foto Jordi Avellà/El Mundo 

Depois dos profissionais de saúde, chega agora a vez dos artistas. O Governo das Baleares exige aos músicos da orquestra daquela comunidade autónoma que cumpram as exigências de expressão oral e escrita previstas no nível B2 de catalão. Quem não o fizer pode arrumar as malas. Novamente, a competência e currículo dos profissionais são subordinados aos seus conhecimentos linguísticos.

O maestro é japonês e mais de metade dos músicos são estrangeiros. Como sucede em tantas outras orquestras europeias, o inglês é a língua de trabalho e a música uma linguagem universal. Mas o sectarismo nacionalista imposto pelas elites e a partir das instituições vai fazendo o seu caminho de construção de uma sociedade idealizada, excluindo pouco a pouco o ‘Outro’. A título de curiosidade, note-se que esta medida destinada à orquestra das Baleares foi antecedida pela desistência do Governo de Espanha em garantir a educação plurilingue na Catalunha. Perante tudo isto, ainda há quem fale em opressão vinda de Madrid.

 

21 comentários em “O gozo de criar problemas (II)”

  1. garantir a educação plurilingue na Catalunha

    Não sei o que quereriam fazer, mas garantir a educação plurilingue é uma tarefa em geral muito difícil.

    Há diversos países com minorias linguísticas reconhecidas (por exemplo, Suíça, Letónia, Finlândia) e creio que todos eles têm dificuldades em garantir uma educação verdadeiramente bilingue.

    Em geral, creio, aquilo que se faz é dividir o país por zonas de predominância linguística e em cada zona as aulas são monolingues na língua principal dessa zona.

  2. Concordo, sendo humana, também, a linguagem universal.

    Mas até que ponto a Espanha, e outros “grandes” países, em nome desse mesmo Universalismo, está disposta a ir em nome de um Governo Federal Europeu?

    É que o nacionalismo pode, igualmente, ser visto quer do lado de “Castela” – não permitindo que uma Província se separe do Reino Unido da Espanha – quer no lado Catalão – que quer o reconhecimento de uma nacionalidade distinta da espanhola.

  3. Sei bem que isto vai contra o pulhiticamente correcto, mas há que dizê-lo : face a esta , e outras faunas, o Generalíssimo está mais que justificado – histórica e socialmente.
    E é só uma questão de tempo ( o tempo que vai levar os países da Europa a recuperarem a sua identicade e soberania ) para surgir em Espanha um seu sucessor.
    E aí não há adjectivos que valham…

    1. A identidade e a soberania dos países da Europa é um mito romântico do século XIX. É hora de avançarmos para os EUE. Eu sou europeu do legado greco-romano com bárbaros à mistura. Farto do século XIX. Há aldeias do Minho geneticamente irmãs de aldeias do Danúbio. Sinto-me em casa em qualquer país europeu, até na Turquia. Tenho dificuldades no Minho…como o Torga, aliás.

    2. Não sei se está a propor o fuzilamento sumário de Puigdemont como Franco fez com Companys. E já agora justifique também o General Valera que defendia o bombardeamento de Barcelona de 50 em 50 anos para a meter na ordem. O velho sentimento franquista do “no se os puede dejar solos”, q. Viva Franco! Arriba España.

  4. Talvez que a desistência do Governo Central se deva às dificuldades em contornar uma lei que vem dos primeiros anos do pós-franquismo e dos primórdios da autonomia da região.

    Talvez que esta e outras imposições pelo Governo Regional se devam a uma política de reforço da língua nacional.

    Talvez.

    Percebo perfeitamente a exigência em sectores como a saúde e a educação, na música… não. Até porque parte dos músicos colabora com várias orquestras durante o ano.
    Mas percebo o fundamento político: a blindagem linguística que se tenta fazer visa reforçar a identidade nacional, pois falar e obrigar a falar na língua nativa ajuda a evitar tentativas de secundarizar a mesma. A educação bilingue que Madrid tentou pode ser vista como um novo ataque à língua falada nas Baleares desde a colonização – Franco fê-lo e ainda vive quem o sentiu.

    Aproveito para relembrar uns quantos pontos avulsos mas com várias afinidades ao tema:

    1. As Baleares são uma comunidade autónoma, têm o reconhecimento de nação (ou nacionalidade) histórica – não são nem pertencem à Catalunha.
    Foram uma das muitas comunidades autónomas que em 2006 aprovou vários artigos pela maior autonomia e que se revelaram inconstitucionais – o que demonstra a desadequação da Constituição de 1978, até porque as Baleares só obtiveram estatuto de autonomia em 1983.

    2. Para se obter visto de trabalhador nos Estados Unidos é necessário provar que se fala inglês, não basta dizer que se irá aprender. Tal como em muitos outros países.

    3. Portugal não é um dos países onde se tem que falar português para adquirir licença de residência (e trabalho). A língua que mais se usa é o Inglês, hoje língua franca primeira como antes foi o francês, e depois o Espanhol (ou Castelhano, como lhe chamam em Espanha). Nos departamentos de investigação das Universidades e Institutos, nas consultoras e nas cúpulas das grandes empresas, banca incluída, é notória esta marginalização da nossa língua entre profissionais de países de fora da CPLP, os quais interagem com os autóctones nas línguas indicadas.

    4. O Acordo Ortográfico de 1990 surgiu como uma forma de garantir a universalidade da Língua Portuguesa através da harmonização das regras nos vários países da CPLP. Nem “acordistas” nem os seus opositores* parecem negar este objectivo**. Grande parte dos opositores radica o seu discurso na Etimologia, enquanto outros apelam à Identidade Nacional, por exemplo. Uns, outros e os próprios “acordistas” defendem, embora de formas distintas, a Língua como um bem inalienável e fundamental da comunidade.
    * nos quais veementemente me incluo
    ** apesar de eu negar e até jurar a pés juntos que não poderá ser cumprido com este AO90

  5. Trata-se de uma orquesta pública da região em que julgo os músicos serem funcionários públicos, pelo que é suposto exprimirem-se na língua da região. Quando Macau foi devolvido à China todos os funcionários que lá estavam que não sabiam escrever mandarim foram imediatamente corridos. Também em Portugal seria absurdo ter um funcionário público que não soubesse falar e escrever em Português.
    O governo espanhol pode ter desistido provisoriamente da sua ideia de obrigar as crianças da Catalunha a falar castelhano, mas a verdade é que a Constituição de Espanha o impõe, o que é grave. A Catalunha não é Castela. Não se vê porque é que haveriam de falar castelhano. O catalão é a língua de lá e é a que deve ser ensinada.

    1. O LML decreta que no teatro nacional de São Carlos só se cante em português. Força LML, o povo está contigo. (será que o conde de Lippe falava português?) Aqui fica demonstrado que todo o nacionalismo é estúpido.

      1. Os nacionalismos podem ser estúpidos, mas não demonstrou nem isso nem o seu contrário.
        Comunicação entre profissionais nada tem a ver com o exercício da arte na língua x ou na língua y.
        Nem as leis franquistas foram tão longe – as tais leis que determinaram a dobragem de todas as produções audiovisuais, que obrigaram à renomeação de bandas e marcas, que impediram o uso de outra língua que não o Espanhol também chamado Castelhano.

      2. Os nacionalismos podem ser estúpidos, mas não demonstrou nem isso nem o seu contrário.
        Comunicação entre profissionais nada tem a ver com o exercício da arte na língua x ou na língua y.
        Nem as leis franquistas foram tão longe – as tais leis que determinaram a dobragem de todas as produções audiovisuais, que obrigaram à renomeação de bandas e marcas, que impediram o uso de outra língua que não o Espanhol também chamado Castelhano.

      3. Xico, não dê ideias!

        Fui contar e deve haver mais ou menos 45 músicos estrangeiros na Orquestra Sinfónica Portuguesa (desses 45, metade estão nas cordas) e mais uns 6 ou 7 no coro do TNSC.

        Se a moda pega, bye bye OSP!

        1. Assim como assim, as cordas tocam quase sempre em uníssono pelo que se pode dispensar e ficar só com meia dúzia, e depois amplifica-se o som, e fica assim a jeitos de André Rieu, e sempre se diminui o déficit

    2. É irrelevante se a orquestra é pública ou não. Não é por terem um maior ou menor domínio da língua que vão tocar melhor ou pior. Ainda por cima, quando o maestro titular é japonês1

    3. Não tenho muita paciência para ir procurar os dados sobre o conhecimento de catalão nas Baleares. Na Catalunha o valor é de cerca de 43% para o catalão como língua de identificação (se incluimos as pessoas que usam tanto o catalão como o castelhano como línguas de identificação – 7% da população) e de 54% para o castelhano (pela mesma lógica).

      Isto bastaria para que não faça qualquer sentido ter o catalão como requerimento absoluto para a prática de qualquer profissão, pública ou não.

      Mas podemos ainda acrescentar o facto – sim, é um facto – de a Catalunha não ser um país independente e estar inserida num país – a Espanha – onde a língua franca (mesmo que não oficial) é o castelhano.

      Faz sentido depender certos aspectos de uma profissão ao conhecimento de uma ou outra língua, mas oficilizar um conhecimento ao nível B2 para ter uma profissão numa zona onde há mais que uma língua a ser usada… isso é demais. Especialmente se a língua exigida está em minoria.

      https://www.idescat.cat/economia/inec?tc=3&id=da01&lang=es

  6. em Portugal seria absurdo ter um funcionário público que não soubesse falar e escrever em Português

    Há muitos funcionários públicos portugueses que não sabem falar português, em tarefas especializadas; nomeadamente, professores universitários.

  7. Este caso é ridículo porque o domínio da língua não é necessário para cumprir as suas funções. Especialmente ao nível de B2.

    Mas como referi no passado, esse requerimento para certas funções pode fazer sentido. O caso do catalão é distinto porque o catalão não é língua hegemónica nem na Catalunha nem nas Baleares, mas em portugal seria inaceitável ter médicos que não soubessem exprimir-se em português ao nível de B2.

  8. Não é a primeira vez que um meu comentário fica pendurado entre o envio e a publicação.
    Desta vez, foi o das vinte e duas e picos.

    Uma pena, pois deu-me algum trabalho resumir em quatro pontos avulsos tanto que poderia dizer…

    1. Sarin, não falo pelos outros, mas a verdade é que eu só aprovo comentários nos meus posts e só aprovo em posts alheios se eles estiverem pendurados vários dias.

      Se o Diogo (ou outros autores) não tiverem tempo (por uma razão ou outra) para passar pelo blogue, acontece que fiquem pendurados. Não é ideal, mas é a realidade.

      1. Obrigada, João André.
        Quando coloquei o desabafo não me referia, e espero que assim não tenha sido entendido, a intenção ou desatenção mas antes a questões técnicas – as quais cheguei a comunicar por email, dada a aparente incompatibilidade (na altura) entre o iOS11 e a versão do blog para telemóvel e pc.

        O comentário a que me referia era anterior às 22h de ontem e, tendo visto publicados comentários de hoje, o pensamento foi automático: “bolas, mais um que se perdeu e não há forma de descobrir porquê”.

        Há um tempo acusei o Pedro Correia de me ter censurado um comentário aqui no DO (foi a primeira vez em muitos anos, mas eu comentava há anos em jornais, raramente em blogues), e ele acusou-me de ser maluca. Nenhum tinha razão (se eu for maluca não será certamente por isso) e a verdade é que o comentário em causa só apareceu muitas horas depois da nossa troca de (sem) razões 🙂

        Investigue-se! 😈

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