O gozo de criar problemas


Diogo Novo,

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O Governo das Baleares apresentou um projecto de decreto que exige o conhecimento da língua catalã aos profissionais de saúde daquela comunidade autónoma. Dito de outra forma, para exercer a profissão de enfermeiro ou de médico nas Baleares passará a ser obrigatório o domínio do catalão. Daqui resulta que a competência e currículo dos profissionais de saúde se subordinará aos seus conhecimentos linguísticos – o melhor cardiologista do mundo não terá lugar nas Baleares caso não fale catalão. A ideia não é inovadora, pois nos sistemas de ensino catalão e basco sucede algo em tudo semelhante.

Úrsula Mascaró, empresária e conhecida desenhadora de sapatos, criou um movimento contra o decreto do Govern Balear sob o mote “Os idiomas não salvam vidas”. Isto é, limita-se a dizer o óbvio: o rei vai nu. Se no espaço europeu nos esforçámos por conseguir a livre circulação de pessoas e bens, no âmbito intra-estatal os diferentes nacionalismos estão apostados em políticas culturais que vão em sentido contrário e que prejudicam os cidadãos – em nome dos quais os nacionalismos dizem actuar. O surpreendente é que há quem defenda isto.

9 comentários em “O gozo de criar problemas”

  1. O surpreendente é pensar-se que estes movimentos tem causa no aborrecimento e não num mal estar geral….baixos salários, precariedade laboral, sacrifícios pessoais e familiares em nome de nadas, um arrepiante sentimento de injustiça e uma falta de representatividade política do eleitorado. A par de uma fome pantagruelica de justiça pelos muitos cheios de nada perante os poucos enchidos de bazófia.

    Mas alguém acha coincidência tudo isto começar com o começo da crise?

    Não é pisando o movimento que se acaba com ele. É dar-lhe resposta política. Esqueceram-se que Somos nós, cidadãos e eleitores, que mandamos, porra!!!

  2. Não vejo o que isto tem de anormal. Uma pessoa a trabalhar num hospital de um cantão suíço tem que saber a língua desse cantão. Não precisa de saber perfeitamente a língua dos outros cantões, mas tem que saber minimamente a desse cantão.
    Em todos os países da Europa há requisitos linguísticos para trabalhar em determinados serviços públicos.

  3. A propósito de mais esta fantochada ( mas não só) : Bismark considerava Espanha o país mais forte do mundo – há séculos que os espanhois a tentavam destruir , sem o conseguirem…

  4. Se é verdade que não faz qualquer sentido exigir o domínio do catalão (ou do basco) em Espanha, onde toda (ou quase) a população fala o espanhol/castelhano, também é verdade que estão longe de ser o único país que exige domínio da língua local.

    Na Holanda exigese o conhecimento de holandês em nível B2. O mesmo com o alemão na Alemanha. Penso que se passa o mesmo com o Francês (pelo menos) na Bélgica. Sei que na Holanda se exige tais conhecimentos até a bioquímicos responsáveis por análises clínicas.

    A razão para essa exigência é sempre colocada como sendo necessária para comunicar com pacientes, para perceber tudo o que eles dizem e para lhes explicar todos os pormenores necessários. A mim parece-me lógico. Claro, possivelmente pode ser desnecessário falar a língua se a única coisa que se faz é uma operação e não se conversa com os pacientes, mas isso parece-me pouco provável ou sensato.

    1. Há actividades profissionais em que bastam conhecimentos em alguma língua franca. Porém, a regra é pedir conhecimentos elementares num dos idiomas oficiais do país – normalmente no maioritário. Percebe-se, João. Mas não é o que está em causa. Este projecto de decreto tem o intuito (quase declarado) de funcionar como barreira de entrada – mais, a aplicar-se, resultará muito provavelmente na cessação de contrato de um conjunto de profissionais de saúde. É mesquinho e radical. E inaceitável.

      1. a regra é pedir conhecimentos elementares num dos idiomas oficiais do país – normalmente no maioritário

        A regra é pedir conhecimentos no idioma oficial local. Por exemplo, no cantão do Ticino (= Suíça italiana) você tem que saber falar italiano – não basta saber falar alemão ou francês. Da mesma forma, para trabalhar no sistema de saúde flamengo tem que saber falar flamengo – não basta falar francês.

        Este projecto de decreto tem o intuito de funcionar como barreira de entrada

        É um facto – estas leis funcionam como barreiras à entrada. Mas leis similares existem em todos os países da Europa. Um médico em Portugal tem que (mais ou menos) saber falar português. Caso contrário, o sistema de saúde português estaria a contratar médicos búlgaros ou eslovacos. Não o faz, porque há uma barreira à entrada.

        Se o Diogo quiser eliminar as barreiras à estrada, força com isso – comece no seu próprio país, Portugal. Eu dar-lhe-ei 100% de apoio, pode crer. Se a língua oficial da União Europeia fosse o inglês, isso seria ótimo.

  5. Não é verdade que a Holanda exija que se saiba qq palavra de holandês. Basta olhar para os nossos emigrantes ou mesmo estudantes.Eles próprios dizem que sabem inglês pq a nossa língua ninguém fala.

  6. Conhecer uma Língua e dominar essa Língua não são uma e a mesma coisa.

    E mesmo que fosse…
    Qualquer técnico tem de conseguir comunicar com a sua equipa. Pelo menos com a sua equipa. E com o Paciente, que cada vez o é menos quando a dor aperta e o medo cerca?
    Como diagnosticar sem comunicar?! Como tratar, acompanhar, confiar sem comunicar? Impessoalização da pessoa a quem confiamos a nossa vida enquanto estamos num sonho induzido de bisturis e sondas é o paradigma dos que vêem a Saúde como uma linha de montagem (quando um dos problemas da Saúde passa exactamente pela desarticulação das especialidades, pela ausência de um médico de charneira que convoque os especialistas e nos oriente – em vez de andarmos a leste da nossa saúde entre especialidades várias; mas este é outro tema).
    Defender a livre circulação de bens e pessoas não deve interferir com o direito de ouvir e ser ouvido sobre as maleitas próprias na língua de cada um – porque deveria ser diferente para os que não circulam?
    O direito de um médico exercer nas Baleares é superior ao direito dos seus pacientes serem percebidos nas suas dores? Se já na mesma língua é difícil… e o castelhano pode ser obrigatório, mas não é universal.

    Claro que nas Baleares é um pouquinho mais do que isso: com a defesa aguerrida da língua catalã sobre o castelhano, relembram a Madrid que em 2006 também eles pediram mais autonomia.

    1. O direito de um médico exercer nas Baleares é superior ao direito dos seus pacientes serem percebidos nas suas dores?

      Pois… eu gostava de saber o que aconteceria se o Serviço Nacional de Saúde (ou mesmo um hospital privado) português se pussesse a, digamos, contratar médicos búlgaros.

      É claro que um médico tem que conhecer minimamente a língua local. É claro que isso constitui uma restrição à liberdade de entrada ou à liberdade de circulação de profissionais. Mas tem que ser.

      A alternativa seria falarmos todos inglês. E não seria nada má alternativa.

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