O fetichista


Teresa Ribeiro,

Era já um vício. Todos os dias gastava umas horas a espiá-las, procurando adivinhar através do que escreviam os seus traços de personalidade e potencial intelectual. Depois entrava no jogo ainda mais arriscado de lhes atribuir formas e traços fisionómicos sugestionado pela construção frásica, agilidade narrativa, enfim pelas características formais dos textos que lia. Quando um trecho o enfeitiçava deixava-se sempre tomar pela convicção de que a autora só podia ser linda. Pernas longas e bem  torneadas como a sua escrita, o rosto iluminando-se como a mais bela das frases intercalares entre o corpo e a alma.

Os seus dotes de comunicador facilitavam-lhe a abordagem elegante, com perfeita noção dos timings. Era sempre épica a fase em que as seduzia numa valsa progressiva que o arrebatava também. Entregue às mais requintadas fantasias nunca apressava o desfecho, que sabia fatal. Invariavelmente em passos curtos eram elas que acabavam a descer do pedestal com impertinências, sugestões de encontros e por fim ultimatos.

Cheias de pressa de tocar o chão, as princesas eram então descartadas em esplanadas e miradouros, generosamente enquadradas pela sua estética exigente. Nem sempre cedia à tentação de as ir espreitar, não fosse deparar com figuras sem estilo, cheias de erros de métrica no peito e nas pernas.

8 comentários em “O fetichista”

  1. Brilhante! Mas, e estou em crer, o ‘fantasiar’ é predominante no género feminino. E começa cedo, na adolescência, com os quartos das jovens forrados a posters da Bravo… )).

  2. Muito bom, Teresa! De facto, e como habitualmente digo –nem que seja mentalmente-, as situações, mais até que os intervenientes, são a base do estimulo e da paixão; pudera, a imaginação será sempre a maior parafilia.

    Já agora, alguma razão especial para a escolha do género da personagem?

    1. Nada a agradecer…))

      PS, PP, PCP, PSD que está visto ser tudo igual – Já agora, importa-se de descrever-se fisicamente? É só para eu não perder muito tempo a imaginar… (Brinco, claro, e peço perdão se eventualmente a ‘gracinha’ não foi do seu agrado)

      1. Eheheh! Nada a perdoar. E não me importo nada de lhe fazer uma descrição sumária da minha pessoa. Já que falou no PS, PP, PCP e PSD posso dizer-lhe que tenho linhas mais definidas que o PSD, o PS e o PP juntos e não sou tão quadrada como o PCP. Ajudou?

        1. ahahahahah

          Não, não ajudou rigorosamente nada, Sra. Teresa. Muito pelo contrário. Estou perdido! Não resisto a um bom sentido de humor. E agora? rsrsr

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