O comentário da semana


Pedro Correia,

«Quando se fala de greves e da estabilidade no emprego, onde está a minha estabilidade? O Estado garante à minha empresa o rendimento mensal necessário para pagar salários (primeiro), ao Estado (segundo) e aos fornecedores (terceiro) para ver se, no final de tudo, sobra alguma coisa.
O Estado garante-me as noites mal dormidas porque alguém se atrasou nos pagamentos e agora não sei a cinco dias do fim do mês onde vou desencantar dinheiro para pagar IVA, Segurança Social e os ordenados?
Fala-se dos Ferraris (como disse) e dos empresários que, tal como uma caricatura, devem ser anafados e de charuto. De ser fácil não ter de respeitar horários ou ter um “patrão”. Mas não se fala do peso na consciência de o negócio não andar tão bem quanto devia (quando acontece…) e ter-se 10 ou 20 ou 30 pessoas que sabemos que podem ficar mal de um momento para o outro e a responsabilidade é nossa (mas ainda quando, em muitos casos, ou se despedem todos ou não se consegue despedir nenhum, mesmo que a empresa afunde).
O Governo fala de “contribuintes cumpridores” e não perdoa um dia de atraso no recebimento de impostos ou contribuições para a SS. Mas devolver IVA não é com ele e quem o pede ainda se arrisca a ser inspeccionado pelas finanças porque – suponho – se tem lucro e a empresa é pequena, deve estar a fugir ao fisco (se for grande isso não se põe, obviamente).
Custa, custo muito a “prisão” de ter uma empresa, de não se poder pura e simplesmente mandar tudo às malvas – porque temos pessoas que dependem de nós, porque a empresa é uma parte forte de nós, porque, se calhar, até já é um legado familiar. Tem de se aguentar, de lutar dia-a-dia contra o desânimo, contra o Estado, contra alguns clientes que de honestos têm pouco (mas nada lhes acontece), contra os senhores sindicalistas (e os senhores políticos na televisão) a falarem do que não sabem, do que nunca viram ou do que já esqueceram – esses sim bem resguardados das agruras da vida.»

 

Do nosso leitor Carlos Duarte. A propósito deste texto da Patrícia Reis.

 

5 comentários em “O comentário da semana”

  1. “… alguns clientes … os senhores sindicalistas … os senhores políticos … ” e os Exmos. Srs Juizes de um Tribunal que não tem a responsabilidade de governar ….

  2. Caro Pedro Correia,

    Obrigado pelo destaque, mas o comentário não passou de um desabafo, inspirado pelo excelente post da Patrícia Reis.

  3. E como corrigir esta instalada cultura de um pseudo-socialismo infantilizante e destrutivo?.

    A Lei Eleitoral dá, inutilmente, Poder, de forma exageradamente concentrada, a quem não tem base de apoio -poder real- um PM hiper-dependente dos seus parcos 30.000 eleitores.
    Por outro lado.
    A Lei Eleitoral cria uma figura sem poder, um PR , decorativo -embora que sim, eleito directamente pelo o universos eleitoral- pelo que este terá sempre uma conduta mais ou menos exótica, senão ridícula e, porque de necessariamente apoiado por partido, tudo menos isenta.

    O “monstro” que resultou deste restrito jogo de interesses, só poderá ser dominado por uma AR com poder real, em que os seus titulares ***sujeitos a escrutínio eleitoral directo*** obtenham de esse modo representatividade … e desejo de controlar a “coisa pública”.

    Até lá … alguém, sem representatividade -os “lobis” partidários- continuarão a individar o que resta do País, inventando impostos a torto e a direito … para saciar egos e glutões.

  4. No calor revolucionário de 74/75, não se admitia popriedade privada, os patrões foram saneados, os latifundiários expulsos de espingarda na mão e todos aqueles que tivessem uma empresa eram olhados de lado, por serem burgueses exploradores. Havia exploradores, sim (e há de sempre haver). Mas esse calor revolucionário esquecia-se (e esquece-se) do lado afetivo de quem cria uma empresa e de quem, como Carlos Duarte, se preocupa sinceramente com o bem-estar daqueles que emprega. E esquece-se do amor que se pode ganhar a uma herdade, que se deixa aos filhos.

    Depois da II Guerra Mundial, estabeleceu-se o regime comunista na República Democrática Alemã e também muitas pessoas foram destituídas daquilo que lhes pertencia. Depois da reunificação alemã, em 1990, muita gente quis recuperar o que perdera. Tiveram de comprar as próprias terras, ou as terras que, outrora, haviam pertencido à família. Encontraram tudo destruído, tiveram de investir muito dinheiro da reconstrução das casas e dos campos, houve quem não conseguisse e, mais de vinte anos depois, ainda há quem lute por recuperar os bens.

    Tudo isto para dizer que a felicidade humana também passa pela propriedade privada, ou pelo prazer de construir algo com as próprias mãos, o que muito contribui, a meu ver, para a impraticabilidade dos regimes comunistas.

    Num debate a que assisti há pouco tempo, na televisão alemã, chamava-se a atenção para a crença, comum, de que quem sustenta a economia dos Estados são os grandes empresários. Na opinião dos participantes, um grande erro, pois quem verdadeiramente sustenta um país são as pequenas e médias empresas. Quantas mais, melhor. Criam emprego e não só. Por mais pequenas que sejam, livram do desemprego, pelo menos, aqueles que as fundam. E chegavam à conclusão de que será essa uma das razões porque a economia alemã funciona melhor do que outras, já que a Alemanha é um dos países da UE onde existe mais iniciativa privada.

    Uma boa classe média, o “Mittelstand”, é o segredo do sucesso. E é isso que se anda a destruir, em Portugal.

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