O comentário da semana (1)


Pedro Correia,

 

«O caso Isaltino suscita várias questões.
Em primeiro lugar, o tempo decorrido: oito anos é muito tempo para concluir um processo que, aliás, ainda nem está concluído. Por mais justificações que sejam dadas para a complexidade do processo e para as delongas na tramitação da justiça entre países, é tempo a mais.
Em segundo lugar, estamos perante a prisão efectiva dum ex-ministro e actual presidente da Câmara (e, ao que dizem, figura proeminente da maçonaria). Não é hábito em Portugal que tal aconteça. Se é verdade que existe o princípio básico de que todos os cidadãos são iguais perante a lei, na prática a teoria tem sido outra. A prisão de Isaltino parece, assim, significar um passo em frente nesta questões da Justiça, partindo do princípio de que o homem cometeu os crimes imputados. Mas, aqui, urge ainda outro sublinhado: prender o transmontano Isaltino não é o mesmo que prender uma pessoa do eixo Lisboa-Cascais. Acho que ainda falta percorrer um longo caminho até aí.
Em terceiro lugar, fica a perplexidade da prisão. Tanto quanto leio por aí, o homem foi preso num momento em que pende ainda um recurso no Tribunal Constitucional, que há quem entenda ter efeito suspensivo da condenação. A ser assim, não se percebe, portanto, a efectivação da prisão antes do trânsito em julgado da condenação. O que pode denotar um (mau) sinal de sentido contrário na Justiça portuguesa…
Tenho como válido que os poderosos não devem deixar de ser perseguidos criminalmente porque são poderosos – trata-se de cobardia da Justiça; mas também não devem ser perseguidos porque são poderosos – trata-se de perversão do sistema. Os poderosos devem ser perseguidos se (e porque) praticam crimes, em igualdade de circunstâncias com os demais cidadãos.
Veremos o que vem a seguir: se, como se lê, Isaltino foi ilegalmente preso, grande parte do sentido pedagógico da sua condenação ter-se-á perdido. Aos olhos do cidadão comum, passará de vilão a mártir. E eu já vi esta história muitas vezes.»

 

Do nosso leitor (e ex-colega de blogue) J.M. Coutinho Ribeiro. A propósito deste texto do João Carvalho.

 

Nota: Esta semana, excepcionalmente, seleccionei dois comentários.

Sobre dois temas muito diferentes, mas qualquer deles relevante.

Um comentário em “O comentário da semana (1)”

  1. Uma escolha bem merecida, compadre, este comentário do J.M. Coutinho Ribeiro, que foi co-fundador e um dos primeiros autores do DELITO DE OPINIÃO. Seria bom ver o nosso Joaquim de regresso às lides regulares nesta casa.

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