
Há muito mais em que pensar do que criticar políticos e políticas, e falo de mim, dos “nós” que conheço, centrados que estamos nos necessários rearranjos da nossa vida. Mas, como diz o Rui Rocha, o pensamento não está limitado. Uma coisa, e má, é encontrar, com denodo apressado, bodes expiatórios. Outra é olhar em torno o que se passa. Pode-se gostar mais ou menos do governo, de António Costa e dos seus ministros. Pode-se embirrar com a actual ministra da saúde – ou pensar que cada vez que há uma crise sectorial os ministros falham (Lopes e Constança foram exemplos clamorosos). Pode-se agora protestar com a “prestação” (como sói dizer-se) comunicativa, e com os implícitos que demonstrou, do ministro da educação. Mas também se pode dizer que, de facto, o governo português esteve a par dos seus congéneres vizinhos. Ou, mais em pormenor, que o ministro Vieira esteve muito bem na sua “contra-prestação” comunicativa, salvaguardando os professores. Ou seja, o que quero dizer é que as críticas actuais ao governo derivarão – se já agora, infelizmente muito antes do rescaldo desta enorme crise – das simpatias e antipatias que temos. Assim, pouco relevantes, pois tendencialmente enviesadas.
Mas bem diferente é o que se pode dizer do Presidente da República. O seu mandato tem sido peculiar, politicamente vácuo, feito de encenação de “afectos” (já aqui o resmunguei, nada mais é do que a apolitização da política, decalcada da modalidade utilizada pelo seu pai, governador marcelista de Moçambique). De facto, MRS é um populista, e não apenas pelo seu tornear dos partidos aquando da campanha presidencial. Um populismo manso, mas populismo … O que agora acontece, quando o país entra em comoção, sem pânico mas com grande comoção, é que o presidente, supra-falador, vero incontinente verbal, desapareceu. Não influenciou a linha governativa, na sua magistratura política. Nem mesmo alertou para o que se adivinhava, dados os acontecimentos no mundo. Não influenciou – pois desprovido, dada a tipologia da crise, do seu método único, feito de meros abraços, beijos e auto-retratos, da tal opereta dos “afectos” – o sentir nacional, numa magistratura moral. Daqui a alguns dias, ou semanas, o seu círculo dir-nos-á que Marcelo Rebelo de Sousa nos deu o exemplo ao encerrar-se em casa, como agora nós estamos. Mas não era esse o seu papel. Era o de marcar a agenda política, de suavemente alertar, consciencializar. E, depois, o de ombrear a agenda executiva. E, agora sim, conversar com o povo, acompanhar as nossas dificuldades, convocar ao caminho difícil. Neste silêncio, de facto devido a que não suspendeu o seu corropio pitoresco, que julga ser o papel presidencial, quando deveria ter sido o primeiro a conter-se aos “convívios sociais”, Marcelo mostra agora o óbvio. Desprovido de gravitas – tratando da sua lida doméstica, como pateticamente veio dizer à televisão – comprova a sua inutilidade. De longe, incomparavelmente, o mais inútil e desapropriado presidente da república que a democracia conheceu.
Temos pela frente uma difícil época. Que não seja tão terrível como os piores dos nossos pensamentos e temores deixam temer. Depois, bem depois, bem que poderíamos, em particular a sua base “inorgânica” de apoio, reflectir e perceber quanto foi tonitruante este silêncio de marcelo. Um colapso. A mostrar o seu vazio. E escolher, à direita, ao centro, à esquerda, um Presidente da República. Depois disto tudo muito iremos precisar de um. Não disto.
(Adenda: escrevera isto antes da “comunicação pessoal” [francamente ….] de Rebelo de Sousa. Escrevo a adenda para realçar uma coisa. Neste momento, nesta crise, neste … domingo, Sousa convoca uma reunião para quarta-feira para discutir … a instauração do “estado de emergência”. Dizer mais alguma coisa?).

Certa vez confessei numa roda de amigos que tinha votado no Tino das Rãs.
” – Ah ah ah, votaste num anedota!” – gozaram-me.
Tino era calceteiro, mas Arrifana de Sousa sempre foi famosa pelos seus albardeiros.
Smoreira
Eu também votei muito minoritário
O Concelho de Estado só reúne na quarta-feira porque só nesse dia é que os conselheiros conseguiram um buraco na agenda.
Andam todos ocupadíssimos a tirar um curso de quarentena numa plataforma de e-learning e se faltassem não recebiam o diploma.
Como se nao tivesse bastado a rábula do conselho de saude publica sa semana passada
O país, a mergulhar numa situação com a gravidade desta que vivemos e à qual se vai seguramente seguir uma grave crise económica, é governado por um oportunista cujo único interesse é a sua sobrevivência política e presidido por um brincalhão compulsivo que só quis ser uma espécie de rei institucional. Sim, estamos tramados e não é só de agora – isto já vem desde 2016.
O presidente julga que isto é um reality show E quando enfrenta a realidade é nulo
Muito bom. Se vivesse no século XIX, o jpt era um vencedor entre os vencidos. Antero não se teria suicidado.
Excelente
Obrigado pela simpatia. (Se eu fosse de XIX teria passado anónimo e beberrão pelo lamaçal coimbrão e morrido novo, de sezoes ou outros miasmas, numa qualquer feitoria indica, envolvido em negocios nada garbosos)
Estamos entregues a nós próprios, JPT. Este vírus vai revelar a inutilidade total do monstro que pagamos. Se a matemática se cumprir, comemoramos a Primavera com 3000 infectados. 6000 dois dias depois.
Sorte e saúde.
Não estamos O que nos vale é a resistência a esres patetas politicos
No alvo !
WW
Num país sério, Marcelo acabara de assinar a sua derrota eleitoral. A sua atitude lembra aqueles tempos feudais em que, em altura de peste, os senhores se fechavam nos seus castelos.
Mas se o Costa ultrapassou Tancos e a Pedrogão, MSR está safo.
Não posso deixar de realçar o desaparecimento de certas personagens, que tanto tempo mediático ocuparam nos últimos meses. Joacines, Ventura, etc. O que comprova que são apenas personagens secundárias (ou o que chama comic relief) de uma sit & come à portuguesa, e que quando as coisas ficam sérias, ninguém quer saber o que dizem ou pensam.
Internacionalmente, a guru Greta também tem andado desaparecida. Pensei que, em altura de crise, fosse das primeiras peritas a ser chamada a palco para opinar, mas a CS não lhe está a prestar o devido respeito. Pena, porque é nestes momentos que precisamos de lideranças fortes como as da menina Thunberg.
Por último, no meio de toda esta crise, uma nota: são os decisores políticos a dominarem a situação. Quando aqui há uns tempos só ouvia “ouçam os cientistas, ouçam os cientistas”. Alguém os ouviu?