Pena não poder fazer-se como no futebol. Umas contratações na Europa do norte talvez resolvessem isto.
7 comentários em “Nove por cento”
O problema é que depois as contratações não tinham votos…
Eu percebo o tom jocoso do post, mas a verdade, séria e dramática, é que os partidos e os políticos são, de facto, o espelho do que nós somos ou do que quereríamos ser.
Citando Sevinate Pinto, numa grande entrevista que deu ao “Jornal i”, “[u]ma grande percentagem da sociedade portuguesa só não é corrupta porque não consegue.” No fundo, acho que bastantes (espero que não muitas mas a minha fé é pouca) pessoas têm é inveja dos políticos e de quem está em cargos de poder. Não uma inveja boa, de querer melhorar-se, de lutar, de provar que são bons e recompensados por isso, mas uma inveja, má, mesquinha, “dor de cotovelo”, de acusar os outros de chegarem onde chegaram (e se calhar tendo toda a razão) por uma cunha e terem inveja de não terem cunhas dessas, de não terem as mesmas mordomias e carros com motorista.
Um povo que reelegeu autarcas condenados em Tribunal (um dos quais até fugiu para o Brasil), que votou e reelegeu – apesar dos avisos de todos os quadrantes – um PM que foi o grande responsável pela nossa situação económica (e que quase o reelegeu uma terceira vez!), que se prepara para eleger, daqui a umas semanas, pessoas que arruinaram as suas autarquias para lugares novos (na esperança que, tendo chovido dinheiro ao lado, chova agora ali – e o resto do País que se lixe), não tem moral para julgar quem quer que seja e muito menos para 91 pessoas em 100 não confiarem nos Partidos.
No fundo, o que as pessoas dizem, é que não confiam (com todo o conhecimento de causa) nelas próprias. Continuamos à espera de D. Sebastiões, de Sidónios e Salazares, de personagens míticas ou quasi-míticas que, sozinhas, contra o próprio Povo, levarão o país à Prosperidade.
Tenho amigos residentes no concelho de Oeiras que já me disseram sem complexos: “Se o Isaltino Morais for a eleições é nele que votamos”. Conheço-os tão bem que sei exactamente porque pensam assim. Não é que se revejam nos seus métodos, mas a sua descrença no sistema é tão grande que não acreditam que seja possível fazer obra sem recorrer a expedientes. Admito que essa seja a posição da maioria dos que votam em candidatos com o mesmo perfil. Repare, quando diz que o sebastianismo ainda paira no nosso inconsciente colectivo, está a admitir que afinal os portugueses alimentam expectativas em relação a figuras que possam emergir do atoleiro com capacidade para recuperar o país. Ou seja, somos cínicos, apoiando candidatos polémicos, mas no fundo desejaríamos romper com o status quo e ver o país andar para a frente. É claro que os políticos partilham o nosso ADN, mas em compensação nem todos os portugueses reunem as características necessárias para fazer carreira na política. Se calhar são algumas destas características diferenciadoras que estão em causa.
Não duvido, mas a culpa do sistema político que temos é nossa. As pessoas têm que interiorizar que os políticos que acabam eleitos são-nos porque alguém vota neles. A nossa identidade sebastiânica – diria mais, Católica da Europa do Sul – impele-nos a acreditar em salvadores quasi-divinos e milagres. O nosso é um país de caciques, de clientelismo, do “jeito” e “do amigo que”.
No caso de Oeiras e de Felgueiras (ou Gondomar ou muitos outros) o que impera é a máxima do “rouba, mas faz”. Nós escolhemos para cargos de responsabilidade política (portanto, responsabilidade sobre a “polis”, sobre a Nação) pessoas que não nos oferecem garantias morais e, depois, queixa-mo-nos que elas nos mentem. Mas estávamos à espera de quê?
Se “importasse” políticos da Europa do Norte não duravam quinze dias. Porque na primeira vez que dissessem a verdade (que o dinheiro não estica, que as pessoas têm de labutar para serem alguém, que o governante deve ser cego e imparcial) eram corridos. Veja, a título de exemplo, as eleições legislativas anteriores a estas. A candidata do PSD teve um discurso que, agora verificamos, era perfeitamente correcto sobre o nosso futuro. O candidato do PS (e à altura PM) descartou a crise como não existente e anunciou a recuperação fulgurante do País. Acabamos, como muitos dizem, num para-Protectorado de três instâncias internacionais. De quem é a culpa? Nossa, mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.
Dizer que a culpa do sistema político que temos é nossa é ignorar como se organizam as elites neste país, como se acede ao poder e as responsabilidades que aos seus titulares – e só aos seus titulares – são inerentes. Generalizar é desresponsabilizar e ao mesmo tempo cometer algumas injustiças. Recuso-me a acreditar que vivemos num país de vigaristas. O que eu acho é que vivemos prisioneiros de um sistema que foi minado há muito por gente mediocre, que se apropriou dos meandros do poder, do próprio país e que nos tem impedido de crescer.
Não imagina o quanto concordo consigo. Contratava políticos, civismo, organização e mentalidades. Com tudo isto acredite que teríamos um país a esta hora desanuviado e sem problemas com o dia de amanhã.
Se analisarmos os números com atenção reparamos os seguinte: Só 26% dos europeus acreditam nos partidos. O partido com uma maior taxa de aprovação não chega a 50%. A confiança dos portugueses caiu para metade mas partiu de uns estonteantes 19%. Logo dizer que situação é nova ou caracteristicamente portuguesa é um bocadinho abusivo, o que torna as conclusões que se tiram dela igualmente abusivas. Neste momento os principais partidos são dominados por apparatchiks que fizeram toda a sua vida profissional na intriga partidária com uma honestidade intelectual muito instrumental. Não me parece que sejam apelativos.
O problema é que depois as contratações não tinham votos…
Eu percebo o tom jocoso do post, mas a verdade, séria e dramática, é que os partidos e os políticos são, de facto, o espelho do que nós somos ou do que quereríamos ser.
Citando Sevinate Pinto, numa grande entrevista que deu ao “Jornal i”, “[u]ma grande percentagem da sociedade portuguesa só não é corrupta porque não consegue.” No fundo, acho que bastantes (espero que não muitas mas a minha fé é pouca) pessoas têm é inveja dos políticos e de quem está em cargos de poder. Não uma inveja boa, de querer melhorar-se, de lutar, de provar que são bons e recompensados por isso, mas uma inveja, má, mesquinha, “dor de cotovelo”, de acusar os outros de chegarem onde chegaram (e se calhar tendo toda a razão) por uma cunha e terem inveja de não terem cunhas dessas, de não terem as mesmas mordomias e carros com motorista.
Um povo que reelegeu autarcas condenados em Tribunal (um dos quais até fugiu para o Brasil), que votou e reelegeu – apesar dos avisos de todos os quadrantes – um PM que foi o grande responsável pela nossa situação económica (e que quase o reelegeu uma terceira vez!), que se prepara para eleger, daqui a umas semanas, pessoas que arruinaram as suas autarquias para lugares novos (na esperança que, tendo chovido dinheiro ao lado, chova agora ali – e o resto do País que se lixe), não tem moral para julgar quem quer que seja e muito menos para 91 pessoas em 100 não confiarem nos Partidos.
No fundo, o que as pessoas dizem, é que não confiam (com todo o conhecimento de causa) nelas próprias. Continuamos à espera de D. Sebastiões, de Sidónios e Salazares, de personagens míticas ou quasi-míticas que, sozinhas, contra o próprio Povo, levarão o país à Prosperidade.
Tenho amigos residentes no concelho de Oeiras que já me disseram sem complexos: “Se o Isaltino Morais for a eleições é nele que votamos”. Conheço-os tão bem que sei exactamente porque pensam assim. Não é que se revejam nos seus métodos, mas a sua descrença no sistema é tão grande que não acreditam que seja possível fazer obra sem recorrer a expedientes. Admito que essa seja a posição da maioria dos que votam em candidatos com o mesmo perfil.
Repare, quando diz que o sebastianismo ainda paira no nosso inconsciente colectivo, está a admitir que afinal os portugueses alimentam expectativas em relação a figuras que possam emergir do atoleiro com capacidade para recuperar o país. Ou seja, somos cínicos, apoiando candidatos polémicos, mas no fundo desejaríamos romper com o status quo e ver o país andar para a frente.
É claro que os políticos partilham o nosso ADN, mas em compensação nem todos os portugueses reunem as características necessárias para fazer carreira na política. Se calhar são algumas destas características diferenciadoras que estão em causa.
Cara Teresa,
Não duvido, mas a culpa do sistema político que temos é nossa. As pessoas têm que interiorizar que os políticos que acabam eleitos são-nos porque alguém vota neles. A nossa identidade sebastiânica – diria mais, Católica da Europa do Sul – impele-nos a acreditar em salvadores quasi-divinos e milagres. O nosso é um país de caciques, de clientelismo, do “jeito” e “do amigo que”.
No caso de Oeiras e de Felgueiras (ou Gondomar ou muitos outros) o que impera é a máxima do “rouba, mas faz”. Nós escolhemos para cargos de responsabilidade política (portanto, responsabilidade sobre a “polis”, sobre a Nação) pessoas que não nos oferecem garantias morais e, depois, queixa-mo-nos que elas nos mentem. Mas estávamos à espera de quê?
Se “importasse” políticos da Europa do Norte não duravam quinze dias. Porque na primeira vez que dissessem a verdade (que o dinheiro não estica, que as pessoas têm de labutar para serem alguém, que o governante deve ser cego e imparcial) eram corridos. Veja, a título de exemplo, as eleições legislativas anteriores a estas. A candidata do PSD teve um discurso que, agora verificamos, era perfeitamente correcto sobre o nosso futuro. O candidato do PS (e à altura PM) descartou a crise como não existente e anunciou a recuperação fulgurante do País. Acabamos, como muitos dizem, num para-Protectorado de três instâncias internacionais. De quem é a culpa? Nossa, mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.
Dizer que a culpa do sistema político que temos é nossa é ignorar como se organizam as elites neste país, como se acede ao poder e as responsabilidades que aos seus titulares – e só aos seus titulares – são inerentes. Generalizar é desresponsabilizar e ao mesmo tempo cometer algumas injustiças. Recuso-me a acreditar que vivemos num país de vigaristas.
O que eu acho é que vivemos prisioneiros de um sistema que foi minado há muito por gente mediocre, que se apropriou dos meandros do poder, do próprio país e que nos tem impedido de crescer.
Não imagina o quanto concordo consigo. Contratava políticos, civismo, organização e mentalidades. Com tudo isto acredite que teríamos um país a esta hora desanuviado e sem problemas com o dia de amanhã.
Se analisarmos os números com atenção reparamos os seguinte:
Só 26% dos europeus acreditam nos partidos.
O partido com uma maior taxa de aprovação não chega a 50%.
A confiança dos portugueses caiu para metade mas partiu de uns estonteantes 19%.
Logo dizer que situação é nova ou caracteristicamente portuguesa é um bocadinho abusivo, o que torna as conclusões que se tiram dela igualmente abusivas.
Neste momento os principais partidos são dominados por apparatchiks que fizeram toda a sua vida profissional na intriga partidária com uma honestidade intelectual muito instrumental. Não me parece que sejam apelativos.